Há diversos tipos de mantra, dependendo da maneira em que olharmos para eles ou da forma em que os definimos ou classificamos. No contexto da cultura védica, mantras são textos metrificados que aparecem na primeira seção dos quatro Vedas: Ṛg, Sama, Yajur e Athārva.

 

Esses mantras são complementados pelos Brahmāṇas, textos em prosa que figuram na segunda seção desses śāstras. Porém, nessa segunda seção dos Vedas encontramos ainda textos metrificados, as Upaniṣads, que também devem ser considerados mantras.

 

Os mantras são “traduções” da inteligência criativa, Īśvara. Nas Upaniṣads, o próprio mantra Oṁ, por exemplo, é considerado uma espécie de símbolo sonoro, de “corpo” em forma de som de Īśvara, o criador.

 

Literalmente, mantra significa “instrumento do pensamento”. Os sons mântricos são o melhor instrumento para purificar a mente e praticar o nididhyāsanam. Mas cabe lembrar que a repetição de um som não é um fim em si mesmo: ela se faz em função do resultado: estabilidade do pensamento e reflexão sobre a identidade real.

 

Se nos observarmos no dia-a-dia iremos reparar que em muitos momentos ficamos sob tensão, com a consciência atenta apenas ao exterior e ainda com um diálogo interior, um ruído constante na mente, como um rádio que não desliga. Esse ruído de fundo forma a paisagem interior, o substrato das nossas experiências mentais.

 

Não é possível mudarmos essa paisagem apenas querendo calar a mente no grito: precisamos usar a ferramenta adequada. Os mantras nos ensinam a separar-nos das experiências e influências externas, nos levam para o silêncio e nos abrem o espaço interior. Eles predispõem a mente para meditar e nos conectam, através da reflexão em seus significados, com nossa verdadeira identidade.

 

O Yoga utiliza diferentes fórmulas para conduzir a mente a um estado de tranquilidade, o que lhe permite perceber a si mesmo como profunda calma, śāntaḥ. Porém, é preciso igualmente prestar atenção ao significado desses sons. Esses significados variam, assim como as formas mas todos apontam para a mesma realidade: Brahman, o Ser ilimitado. Cada mantra revela um dos diferentes aspectos de Brahman, nas formas do universo manifestado.

 

ABC dos mantras.

 

Bhajan: canção devocional hindu. O nome bhajan está associado ao bhakti, à devoção popular. Exemplos: os poemas de Kabir, Mirabai ou Tulsidas, cantados especialmente em festivais religiosos como o navaratrī, a festividade das nove noites dedicadas a Devī.

 

Bījamantra: um som “semente”, também chamado matrikā, “mãezinha”, associado aos diferentes aspectos da manifestação de Īśvara, os devatās. Há treze bījas primários, cada um deles associado a um devatā. Por exemplo, o bīja Aiṁ é associado a Sarasvatī, Duṁ é associado a Durgā, Gaṁ a Gaṇeśa, etc. Existem ainda, no Yoga tántrico, outros bījamantras que estão associados aos sete principais chakras ao longo da coluna vertebral: Laṁ, Vaṁ, Raṁ, etc.

 

Japa: repetição de um mantra, frequentemente usando um mālā ou colar de 108 contas para a recitação de um mantra transmitido no momento da iniciação (dīkṣa) por um guru. Outra forma de meditação muito popular é a chamada japanamaḥ, na qual se repetem os nomes das manifestações de Īśvara, como Oṁ namaḥ Śivāya, Oṁ namo Narayaṇāya, Oṁ Gaṁ Gaṇapataye namaḥ, e o conhecido mahamantra, entre outros

 

Kīrtana ou saṅkīrtana: repetição de um mantra em grupo, em forma de pergunta e resposta,  acompanhado de melodia e instrumentos musicais. Para fazer kīrtana também são usados os japanamas mencionados anteriormente.

 

Patha: forma recitação dos hinos védicos dentro da tradição oral śrauta, associada ao Śrutiḥ. Essa recitação se faz de acordo com regras mnemónicas e de pronunciação bem estritas, assim como acompanhado por três variações no tom: udātta, “elevado”, que é o tom mais agudo, anudātta “não elevado”, que é o tom mais grave, e svarīta , “soado”, que é o intermediário. Há ainda outro som  nighada, que é a prolongação da nota elevada. Exemplos, os śāntipathas das Upaniṣads: sahanāvavatu, pūrṇamadaḥ, etc.

 

Śloka: verso metrificado. Um śloka da Bhagavadgītā ou das Upaniṣads, por exemplo, pode ser repetido à guisa de meditação.

 

Stotram: hino de louvor dirigido a um devattā, uma deidade. Exemplos: Gaṅgāstotram, hino à deusa Gaṅgā, devattā do rio sagrado Ganges e o Dakṣinamūrtistotram, em louvor a Dakṣinamūrti.

 

Sobre o japa.

O japa é uma disciplina meditativa não qual repetimos um mantra. Essa repetição pode ser feita em voz alta (vaikhārī), na forma de um murmúrio (upamṣu), ou mentalmente (manasa), sendo a segunda mais potente que a primeira, e a terceira mais potente que ambas. Outra maneira de fazer japa é escrevendo o mantra repetidas vezes (likhīta japa).

 

O japa tem a virtude de nos dar foco e atentividade. Ao fazermos concentração num devattā, numa deidade, o pensamento flui em direção a ela e, naturalmente, as emoções e pensamentos se acalmam. Isso, por sua vez, nos permite compreender a nossa real identidade. Ensina Swāmi Dayānanda: “na prática de japa quebramos a associação livre dos pensamentos. Como o estímulo mântrico é sempre uniforme, fica fácil evitar a dispersão natural que tende a acontecer noutras situações”.

 

Swāmiji explica aqui que, através da prática de repetição de um mantra, aprendemos a estabelecer o comando sobre o pensamento. Essa adquisição do comando sobre a mente acontece da seguinte maneira: ao repetirmos um mantra sucessivas vezes, conseguimos estabelecer, de antemão, qual será nosso próximo pensamento.

 

Desta forma, adquirimos o comando sobre a mente, no sentido de que ela fica mais disciplinada e assim, podemos evitar distrações e conteúdos indesejáveis. Desta forma, o praticante fica em calma e consegue que a sua própria mente se torne um aliado no processo do crescimento interior.

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  1. João Rodrigues Araujo Junior

    gostaria de saber a tradução da frase. - om gam ganapataye namaha. desde já Obrigado


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  2. Rui Neves

    Boa Tarde Pedro: Chamo-me Rui sou psicólogo e comecei a praticar Yoga acerca de 3/4 anos após ter ido à Índia e ter ficado fascinado nas margem do rio Ganges em Varanasie por toda "aquela envolvência" onde logo de manhã lá estavam eles a praticar Yoga, muito lindo um ambiente de verdadeira fé, vim enfeitiçado.

    Como o meu professor de Yoga costuma dizer Yoga é antes de tudo "atitude mental" o que é verdade é que a psicologia tal como eu a entendia modificou-se e estou na iminência de tirar um curso de instrutor de Yoga. A prática confirma-nos o "não-dualismo".

    E procuro trazer o Yoga para o trabalho onde desenvolvo e coordeno um conjunto de actividades com idosos. há dias lembrei-me de trazer para o trabalho um MP3 com mantras gravados e estou surpreendido com as reacções que uma idosa muito deprimida quase sem expressão (parkinson muito depressivo).

    Na verdade a expressão dela modifica-se para além de sorrir fazer comentários neste momento estou a olhar para ela que tem as mãos como se tivesse a rezar (Om Namah Shivaya). A questão aqui é que eu não sei o que provoca o quê e gostava de perguntar se conhecem alguém que faça trabalho terapeutico com Mantras ou este tipo de trabalho faz parte da disciplina de musicoterapia? Obrigado e Abraço a todos!

    Namastê


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  3. Gabriela Prado

    Hola desde Nicaragua ! Tienen alguna traducción de este artículo en Español o Inglés ? Namaste Gabriela
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  4. Luiz Carlos Souza Gomes

    Ainda sobre os bijas mantras, existem aqueles referentes aos chakras e às suas petalas, usados como poderosas ferramentas p/ energizá-los ou desbloquear as nadis.

    São Lam, Vam, Ram, Yam, Ham e Om p/ o Muladhara, swadhistana, manipura, anahatha, vishudha e ajna chakras respectivamente.

    Como somos unos com a consciencia o que reflete dentro tambem reflete fora.

    Então os mantras podem ter finalidades bem práticas como destruir obstáculos na nossa vida diaria (om sri maha ganapataye namah) que é p/ Ganesha.

    Na verdade esse mantra energiza o Muladhara (que tem como animal um elefante de seis patas na sua mandala, e Ganesha é tb elefante lembra?) que nos dá maior senso prático, lógica e pés no chão, mas existem também mantras que mexem com forças desconhecidas que afirmo funcionam.


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  5. Fabio

    Olá, Pedro! Este é um dos seus melhores posts! Gostei particularmente do que você diz sobre o uso do japa. Lembrou-me um sensacional trecho do Vivekachudamani: "O mesmo vento que reúne as núvens, também as dispersa. " Estou citando de memória e a tradução é minha, então, desculpe a imperfeição! Forte abraço! Salam para todos!


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  6. valeria lima

    Forma perfeita clara e fiel para compreensão dos mantras! tive o previlégio de estar presente, participando deste estudo, do encontro 23 e 24 no Rio, retorno a Resende, Pedro, certa de ter dado um grande passo em direção ao meu auto conhecimento, devido tb os outros temas abordados e a prática, instruída de forma perfeita.obrigada por momentos de aprofundamento neste sadhana.


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