Esta série de três textos que aqui iniciam tem como propósito esclarecer alguns pontos importantes em relação a Īśvara, a inteligência universal, seu papel nas nossas vidas e ao Karma Yoga. Estes temas, infelizmente, são bastante mal compreendidos na atualidade. Começaremos por este último, que deveria, penso, ser chamado Yoga da vida e não Yoga da ação.

“Karma Yoga é agir sem desejar nada em troca. Você não pode agir esperando os resultados, senão vai se frustrar”, dizem alguns livros. Porém, é fato que ninguém realiza uma ação sem esperar algum resultado. Pensar assim é ilógico e errado, além de contradizer a experiência pessoal de qualquer um. É fato que você não faz nenhuma ação sem ter em mente certas expectativas em relação aos seus frutos.

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Das expectativas.

“Vamos casar para dividir alegrias e tristezas”, dizem os noivos. Porém, a expectativa é sempre de que as alegrias sejam bem maiores que as tristezas. Ninguém, emocionalmente saudável diria ou esperaria algo diferente disso: todas as ações possuem uma expectativa clara por trás.

Receber os resultados das nossas ações de forma equânime é Yoga. Isso é chamado samattvam em sânscrito, e é assim que a Bhagavadgītā define o Yoga. Esse samattvam, no entanto, não consiste em seguir um livro de receitas ou forçar um sentimento de equilíbro quando o ego está gritando o oposto ou as emoções estão explodindo. Essa equanimidade é o resultado da compreensão serena da ordem das coisas.

Ao comer, tenho a expectativa de digerir bem meu alimento. Porém, isso nem sempre acontece. Às vezes a digestão é fácil e me sinto leve. Às vezes fica mais difícil: o alimento fermenta e faço ruídos como um camelo. E já me aconteceu algo totalmente diferente do que imaginei: peguei uma intoxicação alimentar, por exemplo, e fui parar num hospital.

A Bhagavadgītā faz uma afirmação muito importante: “Sua escolha está somente na ação, nunca no fruto dela. Você não é o autor dos resultados da ação. Evite o apego ao não fazer” (II-47). Como humano, você tem o poder de escolher as suas ações. Mas não tem poder de escolher os resultados delas. Os resultados das ações são controlados pelas leis naturais, que incluem o princípio de causalidade, a lei do karma.

 

O que é karma?

Qualquer coisa feita por um humano usando o livre arbítrio é um karma. Se você usar sua liberdade suas ações serão karmas. Mas, se agirmos sem usar o livre arbítrio, isso não será agir mas reagir. Nesse caso, o livre arbítrio fica atenuado pelas nossas emoções ou condicionamentos.

Não podemos dizer que uma reação impensada, por sua vez, seja uma ação propriamente dita. E o pior é que a vida é cheia dessas reações. Quando você ora, isso é uma ação. Quando você tenta se comunicar com alguém, isso é uma ação. Quando você planeja ou executa, há ações. Sua vida é uma vida de karmas. Mas o que é o torna uma ação Karma Yoga?

 

Karma Yoga é atitude.

Karma Yoga pode ser qualquer atividade, ou nenhuma, pois o que define o Karma Yoga é a atitude, não a ação feita. Karma Yoga não uma ocupação mas uma maneira de agir. Assim, Karma Yoga consiste, basicamente, em cultivar atitudes. Atitudes em relação à sociedade, em relação à natureza, em relação às plantas e animais, em relação aos demais.

Karma Yoga é compreender o próprio lugar na ordem das coisas. É, dentre outras coisas, compreender que o mundo não foi criado para o nosso bel-prazer, compreender por exemplo que os animais não estão aí para que os seres humanos nos aproveitemos deles nem que podemos dispor de maneira irresponsável dos recursos naturais do planeta.

Portanto, quando nos preocupamos com o meio-ambiente, quando conseguimos nos colocar sob a pele dos demais, quando compreendemos que os animais sentem de maneira similar à do humano e não querem ser feridos, exatamente como nós, compreendemos nosso lugar na ordem das coisas, compreendemos nosso lugar na ordem de Īśvara. Īśvara é o Ser, a inteligência que cria e sustenta o universo.

Porém, quando não compreendo qual é esse lugar, qualquer coisinha, por insignificante que seja, me afeta e me tira a paz. Uma pessoa tentando espirrar faz uma cara esquisita e isso já arruina meu dia, pois penso que a pessoa não gosta de mim ou não está contente com a minha presença. Então, qual é a solução para este tipo de mal-entendido? O Karma Yoga. A atitude que é Karma Yoga.

Como é que vou conviver com o fato de que a vida é finita? Através do Karma Yoga. Como é que vou conviver com a perda da minha juventude, da minha saúde, da minha força, do meu cabelo? Pelo Karma Yoga. Karma Yoga é atitude. E sua vida é tão boa quanto desejáveis são suas atitudes.

Karma Yoga é, então, um modo de vida. Um modo de vida que dá espaço para (e nunca perde de vista), o objetivo supremo do ser humano que é mokṣa, a liberdade. Karma Yoga não é algo que você faz, não é trabalhar pelo bem comum, não é “ação desinteressada”, não é um trabalho ou um emprego, mas a atitude com a qual fazemos as coisas.

 

Praticar vida?

Não podemos praticar vida. Karma Yoga é viver, viver de uma determinada maneira, que implica atitudes. Há uma verdade em relação às atitudes. Geralmente, aprendemos essas atitudes conforme crescemos, olhando para nossos pais ou para pessoas mais velhas.
Então, o Karma Yoga pode ser definido como uma série de atitudes em relação à família, à sociedade, ao mundo, ao ambiente, a si próprio. Essas atitudes são o tema de fundo do Yoga da vida.

 

Perfeição na ação?

A Bhagavadgītā diz Yogaḥ karmaṣu kauśalam: “Yoga é perfeição na ação”. Agora, essa perfeição precisa ser bem compreendida. Um político corrupto se reelege vezes e mais vezes por conta da perfeição na ação. Um mafioso também evita a prisão por conta da perfeição na ação, pois é capaz de fazer “trabalhos limpos” como se diz. Então, essas pessoas seriam karmayogis?

Uma dona de casa capaz de cozinhar e assistir televisão mostra igualmente a tal da perfeição na ação. Um motorista de ônibus indiano é capaz de manter o controle do roteiro de cada passageiro, o lugar onde cada cliente sobe e desce do ônibus, calcular o valor de cada passagem e ao mesmo tempo dirigir naquele inferno que são as estradas da Índia. Essas outras pessoas seriam também karmayogis?

O que significa perfeição na ação, então? O conflito de cada indivíduo é sempre entre o que ele gosta e aquilo de que ele desgosta, do que é certo e o que é errado, o dharma e o adharma. Às vezes aquilo de que não gosto é o que devo fazer, e aquilo que gostaria de fazer é o errado. Iremos desvendar essa ponta deste interessante novelo na próxima parte deste texto.

Namaste!

 

    COMENTÁRIOS

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  1. nil

    Olá, Li esse lindo texto sobre o KARMA YOGA, e ao final, indica-se que haverá uma continuidade da discussão.... Porém não achei os textos relacionados, indicado pelo autor, alguém poderia me mostrar ou enviar os dois textos complementares? Desde já, grato. Nil


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  2. Maria Luiza

    Pedro. Texto maravilhoso: esclarecedor, simples, objetivo. Obrigada! OM!


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  3. Erika

    Como sempre, texto claríssimo!

    Super no aguardo da continuação...

    Namastê, PedrOm!


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  4. Liana Figueiredo

    Excelente texto! Obrigada! Namastê!


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  5. João Paulo Limberger

    Muito bom artigo! Simples e direto!!!! Grato! Namasê!!!


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