Estou aqui à beira do teclado pensando na escolha que preciso fazer para começar o texto desta coluna. Minha mente vai em direção aos propósitos humanos, aos sūtras de Patañjali e aos prāṇāyāmas, mas tenho um espinho cravado no coração que me grita que não deveria abordar nenhum desses temas.

Apesar de estar na Índia agora, há dias que penso na tragédia que está enfrentando uma boa parte da população de São Paulo: a falta de água. Sei que o amigo leitor pode dizer que isto não tem nada a ver com Yoga e peço desde já desculpas, mas a verdade é que não enxergar as conexões entre as coisas é justamente o que nos levou a esta situação. 

A responsabilidade pela escassez de água não é dos políticos, mas de todos nós, que os escolhemos para nos governar e lhes demos esse cheque em branco que usaram da pior maneira. Não me refiro aqui às últimas eleições. Estamos literalmente há gerações fazendo as escolhas erradas. Porém, neste momento os governantes estão apelando à Divina Providência ou a São Pedro para resolver os problemas que a inoperância deles não conseguiu evitar. Isso é um claro sinal de que chegamos no fim do poço.

A verdade é que a nossa sociedade precisa ser repensada desde o alicerce. Precisamos ponderar se a Terra aguenta cidades de 20 milhões de pessoas e se, como indivíduos, queremos fazer parte delas. Temos que pensar se o ecossistema não sofreu já mudanças irreversíveis que nos obriguem a migrar. E não se trata aqui de discursar sobre o planeta que deixaremos para nossos netos. Estamos falando de coisas mais urgentes, como chegar ao fim do ano desse jeito, ou se veremos um êxodo de pessoas abandonando a cidade.

Lembro que quando fui à escola há 40 anos aprendi que a água era um recurso inesgotável. Em apenas uma geração, essa falaciosa verdade se evaporou. Porém, talvez tenha sido essa ideia de que a água seria infinita o que nos levou a pensar que poderíamos viver como vivemos. É assim chegamos à  presente catástrofe. O pior cenário está acontecendo agora.

Ação, consequência: claro como a água.

Não perceber as conexões e leis que regem o mundo em que vivemos pode ser perigoso: se cortamos a mata atlântica e desmatamos a Amazônia não teremos água no Centro Sul. Se eliminamos a mata que protege as nascentes, sepultamos com detritos os rios que atravessam as cidades e impermeabilizamos tudo com asfalto teremos reservatórios secos, menos chuva e mais inundações quando ela resolver chegar.  Mais claro do que isso, só a água.

O que estamos vivendo hoje parecia poucos anos atrás um pesadelo distante, uma visão apocalíptica que nossos líderes, concentrados no próprio umbigo e refugiados num conveniente ceticismo em relação ao tema das mudanças climáticas, teimaram em negar. Até agora.

Neste momento, cabe-nos repensar a vida inteira, não apenas dentro da casa de cada um, mas no espaço público que compartilhamos e no qual acontece uma boa parte da vida de todos. Se as megalópoles têm ainda sentido, talvez  tenhamos que repensar as maneiras de coexistir e nos deslocar por elas, para que continuem existindo e nós, as habitando.

Um carro para cada pessoa não funciona. O rodízio de carros, se todos guardamos dois na garagem, tampouco vale. Isso atropela o valor da não-acumulação. Reduzir ou racionalizar o consumo individual de água é essencial mas não resolve. É preciso irmos além. É  necessária uma mudança de paradigmas de todos os setores da sociedade antes de que comece a guerra pela água.

É aí, penso, que o Yoga pode fazer alguma contribuição. O milenar sistema de conduta dos yogis recomenda que valores como a não-violência, o esforço sobre si mesmo, a sinceridade ou a não-cobiça se estendam para todas as pessoas, e não apenas para os praticantes envolvidos na busca da libertação.

O Yoga não é apenas da pele para dentro. Tampouco é para os relacionamentos ou para as sociedades humanas somente. O Yoga é para se estender da raça humana ao ambiente, para construir (ou no nosso caso, reconstruir) uma relação harmoniosa com a terra, pois nos ajuda a compreender o nosso lugar na ordem maior. E talvez seja justamente essa compreensão do infinitamente grande e do nosso papel nele o que está nos faltando como sociedade, para sairmos desta penúria.

Pedalar pela água, pelo ar, por todos.

Semana passada estive em Paris e constatei mais uma vez como o uso da bicicleta não só é estendido e respeitado, com ciclovias que se multiplicam constantemente, mas estimulado ao ponto dos empregadores pagarem aos trabalhadores um prêmio por quilômetro pedalado no trajeto entre a casa e o local de trabalho. 

Àqueles que argumentassem que isso não é exequível em Sampa, eu responderia dando o exemplo do meu amigo Alberto, que mora na capital francesa e faz todos os dias 30 quilômetros de bicicleta, de gravata e paletô. E olha que lá faz frio, chove, neva e há gelo sobre o asfalto no inverno. E ele não pedala sozinho. Ano passado, meu amigo Vicente trocou o carro pela bicicleta elétrica para fazer o trajeto entre a casa e o espaço onde dá aulas.

Iniciativas como essas deixariam a cidade mais respirável e a população mais sadia. Teríamos menos poluentes no ar, menos doenças e mortes por problemas respiratórios, menos casos de câncer devidos à poluição, menos efeito estufa e mais chuva. Isso implica, como dissemos acima, repensar os espaços comuns e as maneiras de usá-los. 

Imagine se as avenidas fossem tomadas por hortas comunitárias, vegetação e canteiros de flores. Imagine-se pedalando por uma Avenida Paulista silenciosa, sentindo o cheiro das árvores que poderíamos plantar e ouvindo o canto dos pássaros. Imagine-se praticando nas praças, como os cariocas praticam nas praias.

Sem isso, creio que, como noutras situações que já vivemos, a história vai se repetir: a população vai pagar novamente o pato e, ao invés de soluções de fundo, teremos apenas arremedos e paliativos mequetrefes, da estatura dos políticos que estão no poder. Para dar esse passo, é preciso coragem, iniciativa, colaboração e esforço da parte de cada um. 

Virar a mesa. 

Precisamos também nos libertar de algumas crenças sobre como deveríamos viver no meio urbano. Nas recentes manifestações na cidade foi muito interessante constatar que as pessoas se moviam livremente andando a pé, o que contrastava fortemente  com a paralisia dos motoristas, imobilizados nos seus veículos, verdadeiras camisas-de-força metálicas. Isso não é apenas simbólico. É instrutivo e profético: no meio urbano, os humanos nos movemos melhor sem carros do que com eles!

Precisamos mesmo de tantos veículos? Existe alguma chance de termos sido ludibriados pela ideia de que seríamos mais felizes sobre quatro rodas? Você já se perguntou se precisa mesmo de um carro? Outro dos valores universais que o Yoga propõe cultivar é o da simplicidade. Já faz quase dez anos que me desfiz do meu carrinho, apesar de viver num vilarejo isolado e com um sistema de transporte público quase inexistente. Não me arrependo. A minha vida ficou mais simples e ativa.

Essa seria uma possibilidade de aplicar aquilo que o saudoso Georg Feuerstein chamou "pensamento yogiko aplicado": pedalar pela água, pelo ar, pelo silêncio, pelo bem-estar de todos. Ainda, se formos pensar estritamente em termos de vantagens individuais, também nos convém mais usar transporte coletivo ou ativo como bicicletas e skates porque isso nos deixa mais saudáveis, nos torna mais longevos e é muito mais estimulante do que envelhecer vendo a vida passar desde um engarrafamento. Afora isso, e para terminar, quem sabe nas próximas eleições escolhemos melhores candidatos.

Namaste!

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    Staff yoga.pro.br
  • Água Yoga

    A responsabilidade pela atual escassez de água não é dos políticos, mas de todos nós, que os escolhemos para governar. Não me refiro aqui às últimas eleições. Estamos há gerações fazendo as escolhas erradas. Porém, neste momento os governantes estão apelando a São Pedro para resolver os problemas que a inoperância deles não conseguiu evitar, claro sinal de que chegamos no fim do poço.


    Pedro Kupfer
    COMENTÁRIOS

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  1. Adriane

    Olá Pedro, sim...... é yoga!!

    Já há muito tempo que me preocupo com isto, já fui chamada de louca, sem aspas mesmo, por investir meu dinheiro em terrenos que "não me serviriam para ganhar dinheiro", que "apenas" possuia imensas nascentes e muita mata.

    Era o caminho escolhido por mim, é o caminho que apresentei para meu enteado/filho é o caminho que ando passo a passo de cabeça erguida por ter feito uma das minhas melhores escolhas.

    Bebo água pura (hoje mesmo pude apreciar um belo copo de água que deslizava macio pela minha garganta), tomo banho em água pura, cozinho com esta mesma água, uma água sem cloro, sem fluor sem os aditivos "maravilhosos" que só adoecem as pessoas.

    Sim, pensar na água é yoga. Que esta situação sirva de alerta para os outros bens esgotáveis e que nos farão muita falta. Vamos Yogar! Vamos preservar!

    Abraços.

    Adri.


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