Um bom amigo, professor de Yoga na Guiné-Bissau, escreveu-nos recentemente pedindo uma solução para neutralizar a identificação com o corpo. Como esse é um tema universal, resolvemos partilhar aqui algumas das reflexões fruto desse diálogo, esperando que sejam de valia para o curioso leitor já que, se devidamente aplicado, esse ensinamento pode ser útil para viver uma vida livre das aflições ligadas à ideia de que somos o corpo físico.

Desde tempos imemoriais, os sábios que nos legaram o Yoga tiveram uma atitude de compassivo desprendimento em relação ao próprio organismo, e ao mesmo tempo recomendaram uma série de soluções para nos manejar com ele, algumas das quais abordemos neste texto.

Embora hoje em dia essas recomendações possam nos parecer algo excêntricas, elas são muito úteis para fazermos frente às pressões que a sociedade e a cultura atuais nos impõem. Dizemos isso pois vivemos submetidos a crenças e condicionamentos culturais muito poderosos, que só aprofundam a identificação com o corpo. Isso, aliás, sempre termina em sofrimento e aflição.

Via de regra, ao viver, acreditamos ser o corpo que habitamos. Como o corpo é o palco das experiências, qualquer coisa que aconteça com ele afeta nosso estado de espírito, e assim vivemos numa montanha russa emocional: ora num pico de euforia, ora despencando na insegurança ou no medo.

O grande ensinamento do Yoga é justamente reconhecer essa peculiar situação e fazer frente a ela, através de uma mudança de visão e uma sincera revisão dos nossos paradigmas. Isso não envolve novas ações ou experiências, mas o cultivo da reflexão e de atitudes construtivas.

 

Cortando as amarras do apego.

Embora pareça a coisa mais natural do mundo, pensar que somos o corpo é um erro que necessariamente nos leva à aflição. Diz a esse respeito o Yoga Vasishta, um antigo texto da nossa tradição:

“Você está firmemente preso por todos os lados na ideia “eu sou o corpo”. Corte essas amarras com a espada do conhecimento, mantendo a convição de que “eu sou Consciência”, e viva feliz.”

Então, como podemos cortar essas amarras? Como nos firmar na convição de sermos Consciência Plena? Reconhecendo que não somos o que testemunhamos, pela mesma, simples razão, que os nossos olhos não conseguem enxergar a si próprios e são ao mesmo tempo diferentes dos objetos vistos por eles.

Comecemos aqui mesmo, por exemplo, percebendo as sensações físicas enquanto lemos este texto. Podemos testemunhar que a respiração está acontecendo agora. Podemos perceber o nosso coração batendo. Podemos observar sinais de conforto ou desconforto nas diferentes partes do organismo.

Assim, olhando para qualquer uma dessas experiências, podemos também reconhecer que existe uma distância entre o que elas nos dizem e o que nós somos. As sensações corporais são o foco da nossa atenção agora. Um foco que é, necessariamente, diferente daquele que observa. Agora, coloquemos a nossa atenção no observador, na forma da pessoa fundamental e simples que somos.

Esse observador, essa pessoa simples, não tem problemas para chamar de seus, pois estes estão vinculados unicamente aos diferentes papéis que representamos no nosso cotidiano, às sensações de prazer ou desconforto do corpo, aos gostos e aversões do nosso ego ou as flutuações da nossa mente. Como a pessoa fundamental, descomplicada e pacífica, somos diferentes disso tudo.

 

O sujeito é diferente dos objetos.

Em suma, a testemunha que observa (você, o Ser) é diferente do objeto observado (seu corpo). É por esse motivo que, na tradição do Yoga, fala-se tanto em cultivar a atitude da consciência-testemunha, o que, trocando em miúdos, consiste em reconhecer que não somos aquilo que observamos. Noutras palavras, reconhecer que o sujeito que observa é diferente dos objetos observados.

Procuremos fazer isso agora mesmo, interrompendo a leitura e fechando os olhos por um breve instante. Percebamos a distância que existe entre o observador que somos e os pensamentos que testemunhamos. Tomemos consciência da variedade desses pensamentos. Façamos a mesma coisa agora em relação aos nossos sentimentos.

Observemos como cada conteúdo, pensamento ou sentimento, nasce do anterior e dá lugar ao seguinte. Apreciemos o movimento das emoções e desejos desde a quietude que somos. Se há distância, se há espaço, aquilo que é visto deve, necessariamente, ser diferente daquele que vê.

Pronto. Aqui resolvemos o tema da identificação com o corpo e os pensamentos. Agora vamos para o tema da felicidade, que ocupa o fim do verso do Yoga Vasishta que citamos acima. Para isso, cabe antes fazermos um esclarecimento sobre a natureza da felicidade.

 

Desapego não é indiferença.

Cabe lembrarmos que o desapego em relação ao corpo, dentro do contexto do Yoga, não é sermos descuidados ou indiferentes com ele. Quando usamos a palavra desapego não apontamos para esse tipo de atitude, potencialmente destrutiva, nem afirmamos que a relação com o corpo seja um problema que precisamos resolver.

O olhar desapegado e objetivo consiste em ver o corpo exatamente como é. Através desse olhar podemos apreciar a incrível criação que é o organismo humano, com suas miríades de células, tecidos e órgãos, seus sistemas e funções, seu equilíbrio interno e capacidade de se adaptar às condições externas.

Podemos igualmente apreciar o corpo como o palco de todas as experiências, todas as ações, todos os seus frutos, todas as emoções, vivências e sentimentos que fazem uma vida humana valer a pena. Podemos, por exemplo, nos maravilhar com o inexplicável efeito que a música tem sobre o nosso coração.

Podemos desfrutar da beleza estonteante das forças da natureza e das formas da criação usando os cinco sentidos. Podemos viver a amizade, o amor, a solidariedade e a gentileza.

 

Transcendendo os limites do corpo.

Porém, não podemos pedir ao corpo que nos dê felicidade. A razão disto é simples: ele não consegue fazer isso. O corpo não pode nos dar felicidade, da mesma forma que nenhuma experiência centrada ou nascida no coração ou na mente têm essa capacidade. Essa é a limitação intrínseca ao corpomente.

Como termos então essa elusiva plenitude? Reconhecendo a nós mesmos como felicidade ilimitada, que não começa nem termina, e que não está condicionada por nenhum evento ou experiência. Renunciando à ilusão de que realizar nossos desejos irá trazer felicidade em algum momento futuro.

Reconhecendo que a felicidade já está aqui, agora mesmo, na forma da pessoa simples que somos. Reconhecendo que ela sempre esteve aqui, e sempre estará. Renunciando a fazer qualquer coisa para nos tornar felizes, pois já somos a felicidade que buscamos.

O processo de não-identificação em relação ao corpo é instantâneo, pois transcende tempo e espaço, mas pode se perder em meio às distrações do cotidiano, por força dos condicionamentos e crenças que mencionamos no início.

O tema é permanecermos atentos e conscientes a essa situação, para podermos voltar sempre à consciência da plenitude que somos, sem passarmos tempo demais grudados na distração. Lembrarmos que ainda que o corpo seja o palco das experiências, fundamentalmente, somos o Ser Pleno, testemunha de todas elas.

Assim, poderemos, seguindo a recomendação do Yoga Vasishta, viver felizes, compassivamente desapegados, neste corpo que recebemos como presente da vida. Essa atitude irá nos deixar mais leves e dispostos para viver o que temos para viver a cada momento.

Namaste!

 

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    Tales Nunes
  • Cozinhásana e Jardinásana

    Todos os fins de semana, vou para o que chamo de paraíso, uma casa na Mata Atlântica, construída de forma totalmente orgânica. As paredes foram surgindo conforme a necessidade pedia, as janelas, portas e pisos feitos com material de demolição. Uns móveis herdados de pais, tias e avós de amigos. Outros, feitos com restos de madeira encontradas em nossos passeios pelas trilhas próximas.


    Tereza Freire
    COMENTÁRIOS

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  1. Luiz Carlos Souza Gomes

    De fato, tudo que está escrito é como aprendemos. Porém ao quebrarmos o paradigma da visão dual, (eu sou este corpo-mente, o que esta fora é outro) e percebemos que somos uno, e ao meditarmos sobre isso, vemos que não somos (em parte, claro) responsáveis por nada, pois já somos a perfeição e a felicidade que procuramos, nos dá um certo desalento e apatia da mesma forma que o desapego dos desejos. Ao invés da plenitude. Parece (e é verdade) que estamos somente a reboque da história e não como agentes dela.


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