Mokṣa é salvação?

Há pessoas no Yoga que pensam que mokṣa seja algum tipo de salvação. Porém, essa palavra não deve ser traduzida assim. Salvação implica condenação. A ideia das religiões abraâmicas é que você nasceu do pecado e tem que ser salvo. Essa é a base para um tipo peculiar de teologia. Salvação é uma meta para essas religiões.

Mokṣa é se libertar dos condicionamentos, bandhanivṛtti. Bandhas são as coisas que nos aprisionam: o feitiço dos desejos, como diz a Bhagavadgītā, as crenças paralizantes, os erros de visão sobre quem sou eu. Libertar-se dessas prisões é bem diferente de buscar a salvação depois da morte, na vida no além, ou coisa que o valha.

Se a prisão for real, não há fuga possível. Se for nocional, apenas uma crença paralizante, há sim a possibilidade de se libertar. Mokṣa não é liberdade no sentido de fuga mas liberdade da ideia de que estamos condicionados. Já somos livre e precisamos nos dar conta disso. Não há nenhuma subjetividade nisso, nem opções.

Não há nada de errado em sermos emocionais. Não há nada de errado em sermos intelectuais. Aliás, todos somos emocionais e intelectuais ao mesmo tempo. O problema é o erro na percepção de nós mesmos. Não há forma de corrigir esse erro senão pelo meio de conhecimento adequado, que é o conhecimento de si mesmo, Brahmavidyā. Nesse sentido não temos outra opção que o autoconhecimento.

 

Dois estilos de vida.

A vida cotidiana pode nos dar algum tipo de maturidade. Pode nos ensinar, se estivermos abertos para tanto. O casamento pode nos dar essa maturidade. Criar os filhos pode nos trazer também a maturidade necessária para compreender a identidade fundamental entre o indivíduo que somos e a Consciência Ilimitada. Esse ensinam aparece em afirmações das escrituras como aham brahma’smi, “eu sou o Todo”.

Essa preparação é alcançada através de uma vida de Karma Yoga. Daquilo que chamamos o estilo de vida do Karma Yoga. Esse é um dos caminhos postulados pela Bhagavadgītā.

O outro caminho é o da renúncia, chamada sannyāsa, para o qual há lugar dentro da sociedade hindu. Se alguém estiver muito inspirado e motivado por essa busca, pela realização do propósito fundamental, o puruṣārtha que é mokṣa, pode conseguir uma passagem só de ida para Rishikesh, que é um lugar de sādhus, onde você está perto do Himalaya, do Gaṅgā e de um ritmo de vida que é conduzente para esse estilo de vida. Aqui há professores e estrutura adequada para levar esse estilo de vida.

Se você sentir o chamado para se tornar um sannyāsin, irá encontrar as condições para ter esse estilo de vida, que aliás não é um fim em si mesmo, mas o resultado de um voto que está por sua vez relacionado com a meta que é mokṣa. Esse voto é ahiṁsāvrata, o voto da não-violência. É através desse voto que você abandona a corrida na sociedade.

Vou viver através do voto de ahiṁsā, deixando de ser alguém que compete com os demais e se arrisca a machucar alguém. “Que todos os seres vivam felizes, que ninguém tenha medo de mim”, diz o mantra que se faz ao assumir este voto. Todas as buscas ficam reduzidas a uma busca só: a do conhecimento. A sociedade védica permite cultivar esse estilo de vida.

 

Diferenças culturais, diferenças nos objetivos.

Na cultura ocidental há mosteiros, monjes e monjas, alguns dos quais levam uma vida similar à do yogin, mas há uma diferença fundamental: eles buscam a salvação, enquanto que nós buscamos mokṣa. Eles pensam que nasceram sob o signo do pecado original e precisam se redimir pois são responsáveis pela morte de alguém que viveu há 2000 anos. Nós estamos no caminho da libertação.

Há outra diferença: nos mosteiros você vive amparado e protegido por uma instituição. No sannyāsa, você está apenas sob a proteção do céu. Não há estrutura de nenhum tipo. Seu cobertor é o céu. Seu travesseiro é seu punho.

O sustento emocional vem do conhecimento do Vedānta, das grandes afirmações védicas, os mahāvākyas. O sofrimento é neutralizado por esse conhecimento e pela vida de compaixão. Compaixão por si mesmo e compaixão pelos demais, por todos os seres.

Materialmente falando, o bhikṣu não possui nada. No entanto, ele tem uma vida abençoada. Não tem outros interesses que mokṣa, nem outros problemas de qualquer outro tipo.

Na luz você enxerga. A luz não cria nada, apenas ilumina aquilo que está aí para ser visto. A escurdião nega o que está aí para ser visto. Não revela nada. Portanto, ignorância é escuridão, e conhecimento é luz. Essa cor das roupas do sādhu é a cor da luz, a cor do conhecimento.


"Você gosta de alaranjado?”

Fui para Nova Iorque. No aeroporto, me pediram para abrir a minha mala. A funcionária da alfândega só ver roupas alaranjadas, camadas e camadas de roupa alaranjada. Ela disse: “oh, então você gosta de alaranjado?” Que tipo de resposta você pode dar para essa pergunta? Você só sorri. Temos um sorriso especial para responder essa questão.

O laranja, ou açafrão, é a cor do conhecimento. É a cor do fogo, da chama. A chama é símbolo da luz, assim como a escuridão representa a ignorância. Aqui não estamos falando de gostos ou aversões, mas de prioridades.Não tem nada a ver com o fato de você gostar ou não da cor alaranjada. Você está comprometido com a busca desse conhecimento. E esta é a roupa que você usa para lembrar disso, bem como do seu voto de ahiṁsā.

Há uma opção que Arjuna quer fazer à beira do campo de batalha: ele quer renunciar, mas pelo motivo errado. Kṛṣṇa desencoraja ele o tempo todo, e lhe dá as razões para isso: “compreenda por favor o que você precisa para ser mestre de si mesmo. Você não pode pautar a sua vida através dos seus rāgas e dveśas, gostos e aversões.

 

Renúncia e desejos.

O fato de Arjuna não querer combater contra sua própria família não tem nada a ver com sannyāsa. Sannyāsa é a visão, na forma do conhecimento. É o que tanto um karmasannyāsin quanto um karmayogi buscam. Ambos obterão mokṣa. porém, diz a Gītā, "dentre esses dois caminhos, o do Karma Yoga é certamente superior”.

Por que é que Kṛṣṇa diz isso? Porque na vida de Karma Yoga você pode se equivocar e começar de novo. A vida do sannyāsin, se você não estiver preparado, pode se tornar estéril, uma expressão da preguiça ou da inércia. É melhor evitar esse tipo de erro, pensando bem antes de dar esse passo. Assim, Kṛṣṇa diz karmayogaḥ viśiśyate: “fique onde está e faça o que tem que ser feito”.

    COMENTÁRIOS

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  1. antôniojosélopesbotelho

    campeão pedrokupfer tudo em ordem!? é sempre muito bom ler seus artigos mas entendo que não é uma boa ideia ratificar um conhecimento afirmando que um outro conhecimento é não-conhecimento todos nós desejamos ser felizes quer seja buscando a iluminação quer seja buscando a liberação quer seja buscando a salvação ainda que não tenhamos que buscar nada sempreLuz! antôniojosé
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  2. Rosa Maria Casal Pimentel

    Excelente, muito esclarecedor.

    Harih Om.


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