Assumindo que é claro que o Ser, ātmā, não pode ser experimentado num momento específico, algumas pessoas dizem "eu não conheço ātmā, eu ainda não experimentei o ātmā.". Quando digo que ainda não fiz alguma coisa, estamos a falar de alguma coisa que tem de ser feita mais tarde, que pode ser feita mais tarde.

Posso dizer que ainda não fui à Índia, porque posso ir mais tarde à Índia. A Índia pode ser visitada. Quando dizemos que ainda não fomos a um lugar, só podemos falar de um lugar aonde podemos ir. É por isso que nunca ouvimos ninguém queixar-se de nunca ter ido a marte, porque a questão não se põe.

As pessoas dizem que ainda não provaram sushi (veggie, é claro!), mas ninguém diz que ainda não comeu fogo ou gelado de pó mágico da lua. Nós só negamos alguma coisa que pode ser feita.

De forma semelhante, se dizemos que ainda não experimentei ātmā significa que ātmā é uma coisa que pode ser experimentada mais tarde. Agora, eu, ātmā, não sou alguma coisa que vou experimentar mais tarde. O que quer que seja experimentado mais tarde não será ātmā, mas uma condição da mente. Ou seja, uma vez que não se põe a questão de experimentar ātmā, também não se põe a questão de ainda não ter experimentado ātmā.

Então o que vem a ser o autoconhecimento? Ātmā jñānam, brahmavidyā, brahmavit, sábio e todas estas palavras não induzem em erro? Sim, induzem! É por isso que precisamos de um professor, do guru, porque a palavra no vedānta é usada do ponto de vista de algo que tem de ser conhecido, mas que acontece ser o conhecedor.

A palavra não é usada no seu sentido literal, mas como um indicador, como apontando para o que está sempre presente mas que não é o significado de uma palavra. A palavra aponta, a palavra faz tudo isto, mas só isso.

O que o Veda faz, não é fazer-nos conhecer o ātmā, mas dar-nos a bagagem necessária para podermos, em algum momento, realmente ouvir "Pára! Porque te continuas a esforçar para ver o ātmā? Não é algo que tenhas de ver, esse ātmā és tu, tat tvam asi."

Se virmos do ponto de vista gramatical, entre eu e ātmā não podemos colocar nenhum verbo transitivo. Se eu digo "eu conheço ātmā", eu torno-me sujeito e o ātmā objecto e portanto a divisão sujeito/objecto virá. Na afirmação "Eu não conheço ātmā", também a divisão está presente.

Então o que podemos usar? Não podemos usar conhecer, contactar, experimentar, não podemos usar um verbo transitivo, temos de usar um verbo que não crie divisão. Só existe uma possibilidade: o verbo ser, eu sou o ātmā. Só isso funcionará, só isso será verdade.

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    Swami Dayananda Saraswati
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  1. José Elias

    Eu sou o atma, mas só percebo isso agora. A frase acima tem sentido? /\
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