Fazer o que amamos ou amar o que fazemos? O Karma Yoga nos ajuda a compreender prós e contras dessas possibilidades.

Olhando para estas duas palavras, prazer e felicidade, podemos ter a impressão de que ambas estão conectadas, ou de que a realização da segunda depende de conquistarmos a primeira.

Porém, na perspectiva do Yoga, isso não é verdadeiro. A meta do Yoga é o reconhecimento de que já somos a felicidade que buscamos. Isso é chamado mokṣa, que significa liberdade.

Nem sempre, na dinâmica da vida, o prazeroso coincide com o que traz felicidade. Compreender a diferença entre fazer o que nos dá prazer e o que traz felicidade nos ajuda a encontrar nosso lugar nan ordem das coisas.

E, para isso, precisamos em primeiro lugar compreender o que é prazer e o que é felicidade. Não obstante, o sofrimento não é necessário, no sentido que prazer e sofrimento não são necessariamente opostos.

Este aspecto do ensinamento do Yoga está muito claro na Kaṭha Upaniṣad, num dos mais antigos textos do Yoga, que acontece na forma de um diálogo entre Yamarāja, o Senhor da Morte, e o menino Nachiketas, seu aluno. No início da instrução (I:2,1-2), Yama diz:


Felicidade perene é uma coisa. Prazer efêmero, outra.
Com propósitos diferentes, determinam as ações do homem.
Tudo está bem para aquele que escolhe a felicidade perene.
Falha quem escolhe o prazer efêmero.

A felicidade perene e o prazer efêmero fluem em direção ao homem.
Ponderando sobre ambos, o sábio discerne escolhe a felicidade.
Procurando o conforto mundano, o tolo escolhe o prazer.

Essas duas possibilidades, prazer ou felicidade, pedem da nossa parte o uso do discernimento e do livre arbítrio para nos ajudar a fazer as escolhas adequadas.

É preciso esclarecer aqui que, quando Yama menciona esta última estrofe a palavra śreyas, que designa a felicidade, ou o summum bonum, o bem supremo, está se referindo à liberdade, mokṣa, que é o objetivo do Yoga. Vejamos agora alguns exemplos práticos para ilustrar o tema.



Prática prazerosa ou prática (com final) feliz?

Olhando para a nossa prática de āsana, por exemplo, podemos achar que o desejável deveria coincidir com o prazeroso, mas nem sempre é assim. Uma pessoa que sinta prazer em fazer só śavāsana, a postura de relaxamento, não pode esperar obter muitos benefícios da prática.

Por outro lado, um praticante que só sinta prazer em fazer posturas extremas, que trabalham as articulações no limite, ficando por longos períodos nelas, pode colocar em risco a própria integridade física.

Em ambos os casos, quando o prazeroso se sobrepõe ao correto, os frutos das ações (no caso da prática de Haṭha, a longo ou médio prazo) serão sempre indesejáveis para a pessoa que as fez. Quando mencionamos o correto, nos referimos àquilo que irá trazer felicidade a médio ou longo prazo, ao invés da busca imediatista da satisfação através de sensações prazerosas.

Isto significa que, uma prática que alimenta o ego, que traz satisfação pessoal no sentido de superar desafios ou até mesmo que produza bem-estar (mas não seja necessariamente boa para a estrutura física da pessoa no sentido de desgastar as articulações ou criar lesões), será sempre nociva e indesejável, já que por mais que a pessoa se sinta bem enquanto a faz, irá sofrer as consequências dessas ações no futuro, por ter feito coisas que seu corpo não devia.

Esse tema é muito difícil de se compreender, embora pareça claro, por conta do prazer que esse tipo de prática traz para o yogin e da maneira em que este lida com esse prazer.

Ainda há outra dificuldade implícita, que é a que diz respeito ao conhecimento daquilo que é certo ou errado para cada corpo, coisa que nem sempre está clara, até mesmo para professores de Yoga que sigam práticas rígidas ou formatadas sem levar em consideração as características de cada organismo.

Olhando o nosso corpo podemos pensar: “queria fazer estas ações, mas entendo que devo fazer estas outras, em prol da saúde, da longevidade e do correto funcionamento do corpo (sem os quais não haverá mokṣa para mim nesta vida, uma vez que ficarei doente, e a doença é um obstáculo)”.

Quando o que se quer fazer coincide com o que se deve fazer e com o que se pode fazer, a situação é de fácil solução.

Quando essas variáveis não coincidem é preciso aplicar deliberadamente a atitude do Karma Yoga: é preciso compreender a diferença entre fazer o que amamos e amar o que fazemos. E aprender a amar o que fazemos, até que não haja diferença entre amar o que se faz e fazer o que se ama.



Vida de Karma Yoga.

Īśvara, o Ser Ilimitado, é chamado Karmaphaladatta, aquele que entrega os resultados dos karmas, as ações que fazemos. Ao mesmo tempo, Īśvara é também a causa dos frutos das ações, Karmaphalahetu. Īśvara transcende tempo, espaço, lugar e circunstância.

O dharma é uma manifestação do ilimitado que é Īśvara, na mente e o coração humanos. Não apenas em nossas mentes ou corações de humanos ou praticantes de Yoga, mas igualmente na mente e o coração de todos os seres sencientes.

Vivendo cientes disso, não precisamos buscar mais nada. Não precisamos fazer parte de algum grupo ou clube. Podemos prescindir de todas as muletas, pois estamos, estivemos, e sempre estaremos, em harmonia com o Todo. Assim, podemos ter o número de desejos que quisermos, mas vivemos em paz com eles.

É preciso reconhecer que esta abordagem não é para qualquer um, uma vez que ela pede desapego, temperança, preparação e maturidade emocional para ser levada a cabo. Talvez este aspecto do ensinamento do Yoga não contribua em nada para torná-lo mais popular, mas certamente é o fator essencial, que nos liberta.

 

Questão de atitude.

Um bhikṣu, um mendicante, ambiciona ter um pote de metal. Um empresário quer ser dono de mais uma corporação. Ambos têm desejos. Não a diferença entre esses desejos. O que vale é a maneira em que cada um lida com os desejos e o que está disposto a fazer para realizá-los.

Agindo dharmicamente, observando a atitude de entregar os karmaphalas a Īśvara, ambos estarão agindo da maneira certa. Se o bhikṣu porventura, quiser obter seu pote da maneira errada estará atropelando o dharma. Se o empresário cultivar a atitude errada, estará também atropelando o dharma.

Mas em todo caso cabe lembrar que uma vida de dharma é uma vida na qual não existe aquele ioiô emocional, em que não ficamos escravos dos nossos rāgas e dveśas, nossos gostos e aversões. Pragmatismo religioso é observar e receber os resultados dos karmas que fazemos, como prasāda, como graça.

Assim, fazemos o que temos que fazer, svākarma, e evitamos nos tornar escravos dos próprios desejos. Aprendemos a amar o que fazemos, ao invés de pretender somente fazer o que queremos. Isso é Karma Yoga.

Compreendemos que o bem comum se sobrepõe aos nossos gostos ou preferêncas pessoais.
E que devemos nos centrar naquilo que precisa ser feito. Essa é a diferença entre a ação deliberada, harmonizada com o dharma, e a espontânea, que nem sempre coincide com ele.

Para mokṣa, precisamos de conhecimento. Portanto, a busca do conhecimento não é negociável. Não precisamos mudar a nossa vocação, nem o que fazemos, desde que isso não seja contrário ao bem comum. Assim, tornamos Yoga tudo o que fazemos.

Casamento é Yoga. Criar os filhos é Yoga. Nossos próprios filhos irão nos ensinar Yoga se olharmos objetivamente para a relação que nutrimos com eles.

 

Karma Yoga é para mumukṣus.

Sannyāsa, a instituição da renúncia, na qual a pessoa deixa deliberadamente de se relacionar afetivamente, é o que se chama em sânscrito niṣṭa, uma forma de vida. Gṛhasta, viver na sociedade, casado, formando e criando uma família, é outro estilo de viver.

Sannyāsa é uma forma de vida muito sadia, em que não há preocupações com relações afetivas e seus temas correlatos, mas não é para qualquer um.

É necessário estar preparado para dar esse passo, uma vez que o renunciante não abre mão dos relacionamentos com pena ou esforço, mas ao se dar conta de que pode espontaneamente prescindir e abrir mão deles com naturalidade. É sobre esses diferentes modos de vida, o da renúncia e o do gṛhasta, que Kṛṣṇa fala na Gītā para esclarecer as dúvidas de Arjuna.

O Karma Yoga é para mumukṣus, para pessoas que têm mokṣa como objetivo. O mumukṣuḥ precisa obter conhecimento e se livrar das garras dos rāgas e dveśas. Assim, não praticamos Karma Yoga, mas vivemos uma vida de Karma Yoga, cultivando atitudes e valores adequados.

Mokṣa é o reconhecimendo daquilo que somos, e que se revela na busca do autoconhecimento. Arjuna não era um sannyāsin, um renunciante. Śrīḥ Kṛṣṇa lhe mostra como desempenhar o papel que ele deve realizar, cultivando a atitude de Karma Yoga, que exclui a renúncia à representação dos próprio papéis.

As duas célebres definições que a Bhagavadgītā nos dá de Yoga, samattvam Yoga ucyate, “a atitude de equanimidade é chamada Yoga” (II:48), e Yogaḥ karmaṣu kauśalam, “Yoga é perfeição na ação” (II:50), são complementares. A primeira nos ajuda a lidar com as diferentes situações da vida, prazerosas e não prazerosas.

Reconhecendo o fato de que os frutos das ações não são nossas, perceberemos o background maior sobre o qual as coisas acontecem. A segunda definição nos dá uma diretriz para as ações através do dharma: “perfeição na ação”, nesse sentido, significa agir de maneira perfeitamente alinhada com o dharma.


Meios e fins.

Os caminhos do karma podem parecer complexos, mas uma coisa é certa: cada karmaphalam, cada fruto de cada ação é entregue pelas leis de Īśvara, que não existem separadas dele. Em relação aos meios que escolhemos usar para conquistar os fins que nos propomos, precisamos levar em consideração o bem comum.

Pensar que o fim justifica os meios é a pior maneira possível de olhar para as coisas no caminho da espiritualidade.

O reconhecimento de que o fim não justifica os meios já torna nossos empreendimentos bem-sucedidos pois compreendemos o pano de fundo maior sobre o qual opera a lei do karma. Assim, entra aqui em jogo a segunda definição de Yoga, karmaṣu kauśalam.


Dharma é Īśvara.

Sendo quem somos, representamos diferentes papéis na vida. Cada um desses papéis têm diferentes roteiros em relação às diferentes posições que ocupamos nno nosso grupo familiar ou na sociedade. Em relação aos nossos pais, somos filhos. Em relação aos nossos irmãos e irmãs, somos irmãos ou irmãs. Em relação ao nosso cónjuge, somos esposo ou esposa. Quem é que define esses papéis? 

Digamos que temos uma montanha de roupa para lavar. Quem é que nos faz lavá-la? Ninguém precisa nos lembrar para fazer essas coisas. Fazemos isso sozinhos, pois somos responsáveis. Da mesma maneira, não precisamos de mandamentos para saber o que temos que fazer enquanto pais dos nossos filhos.

Um ensinamento muito característico da cultura védica é o reconhecimento de que aquilo que deve ser feito, o dharma, é um aspecto de Īśvara. E isso não tem nada a ver com a sociedade, com o político que estiver no poder ou com a nossa família. Aquilo que tem que ser feito é o dharma, e o dharma é Īśvara. Assim, através de esse olhar, podemos perceber tudo o que fazemos como expressão de Īśvara. Isso é Karma Yoga.

 

O karmayogi encontra seu lugar na ordem.

E quando olhamos para os variados papéis que representamos na vida, na família e na sociedade, e desde dentro deles, fazemos o que deve que ser feito, encontramos nosso próprio lugar neste mundo. Não somos nem mais nem menos significantes que qualquer outra pessoa.

Não somos menos importantes que nenhum outro ser humano. Quando encontramos nosso lugar na ordem das coisas e tranquilamente executamos nossos papéis a partir desse lugar, nos tornamos karmayogis.

Todos somos diferentes. Cada um de nós têm a sua importância nesta criação. Ninguém é insignificante. Cada um têm um papel a representar. Nascemos contribuidores: não somos apenas espectadores inertes que não participam da ordem das coisas. Somos, ou deveríamos ser, participantes ativos nessa ordem, que é a ordem de Īśvara.

A conexão com as pessoas com quem convivemos é igualmente uma manifestação de Īśvara. A conexão kármica que temos com nossos ancestrais, que são os associados de Īśvara na criação que somos, também é uma manifestação de Īśvara.



Deveres e direitos.

O dever dos pais é o direito dos filhos. O direito dos pais é o dever dos filhos. O dever dos humanos é o direito do meio-ambiente. Portanto, se cada um de nós cumprir com a sua responsabilidade, não a necessidade de lutar por nenhum direito. Só existem deveres, objetivamente falando. Só há svādharma. Quando cada indivíduo compreende isso, faz sua contribuição ao Todo.

Assim, temos papéis a representar. É através desses papéis que nos tornamos contribuidores para o Todo, para a nossa família, para a sociedade. Ao encontrar o nosso lugar na ordem das coisas, fazendo o que temos que fazer, fazendo a coisa certa, eliminamos as aflições, as culpas e os remorsos, e ficamos em paz.

Então, por que é que às vezes fazemos o errado, mesmo sem querer? Como é que por momentos nos equivocamos? Se isso acontecer, precisamos aprofundar nossa compreensão de Īśvara. Não preciso de grandes tragédias nem desastres, mas precisamos sim aprender a lidar com os nossos erros, compensando-os onde se fizer necessário e ao mesmo tempo sem nos deixar prender pelo remorso ou a culpa.



Svākarma é fazer o que tem que ser feito.

No fim da Gītā (XVIII:46), Kṛṣṇa diz para Arjuna:

yataḥ pravṛttirbhūtānaṁ yena sarvamidaṁ tatam |
svakarmaṇā tamabhyarcya siddhiṁ vindati mānavaḥ ||

“Atendo-se a seu próprio dever, adorando àquele
que é o criador de todos os seres,
presente em tudo, o homem conhece o sucesso”.

Portanto, fazer o próprio dever é adorar Īśvara. Fazer svākarma, aquilo que deve ser feito em cada tempo e lugar, é venerar Īśvara. Então, aquilo que deve ser feito é Yogaḥ karmaṣu kauśalam, perfeição na ação. Representar papéis não é simples: sempre há um roteiro, um casting, e há omissões ou comissões diferentes da parte de outras personagens, ou pessoas fazendo a coisa errada.

Coisas irrelevantes são destacadas e coisas relevantes são esquecidas. Em todo cason, nos focamos em fazer nosso próprio dever. Podemos suprir as omissões de outrem se for necessário, para que a peça continue.

Se, por exemplo, ao dirigir na cidade, um semáforo abre para nós, isso não significa que podemos sair acelerando. Devemos olhar para todos os lados antes de seguir, pois às vezes os semáforos falham ou os outros usuários das ruas não dirigem da maneira certa e nós precisamos compensar isso para evitar algum mal, seja para nós mesmos, seja para os demais. É assim que nos tornamos contribuidores para a sociedade, para o bem comum.

 

Não há Karma Yoga sem Īśvara, nem mokṣa sem guru.

Uma vida onde se cultivem as disciplinas, yamas e niyamas, onde seja dada alguma importância igualmente às disciplinas do corpo e da vitalidade, āsana e prāṇāyāma, onde esteja claro esse objetivo primordial que é mokṣa, independentemente da etapa de vida que estivermos vivendo, ou dos propósitos humanos aos quais estejamos igualmente dedicados, será uma vida de Karma Yoga.

Não existe Karma Yoga secular. Como muitos autores e professores não compreenderam Īśvara, tentam dar uma visão secular da vida de Karma Yoga, mas a verdade é que não há Karma Yoga sem Īśvara. A quem é que você vai dedicar os karmaphalas, os frutos das suas ações? Sabemos que Īśvara não é o Deus das religiões abraâmicas.

Similarmente, alguns professores de Yoga, que eventualmente tenham um problema com a autoridade paterna ou simples falta de compreensão do Todo, acabam caíndo naquele discurso de que você deve ser seu próprio guru. Esse é outro erro grave, outro risco na vida da espiritualidade.

O “mestre” que ensina que você deve ser seu próprio mestre não deixa de ser um mestre, mas um mestre ensinando a coisa errada, como um cego tentando guiar outro cego. Neste caso, o risco de errar o caminho é muito grande.

Esta é uma grande falácia, pois quando a pessoa não está preparada para o autoconhecimento, existe uma enorme chance dela se equivocar. A exceção é o caso daqueles yogis que já nasceram prontos, como foi o caso do grande Rāmaṇa Mahaṛṣi.

Porém, se estamos praticando Yoga ou estudando Vedānta agora, se não estivermos firmes na visão do não-dual, muito provavelmente não é esse o nosso caso.

Se tivemos mestres, que foram nossos próprios pais, para nos ensinar a andar, falar e distinguir o certo do errado, por que é que não deveriamos ter mestres no âmbito da espiritualidade?

Se ser o próprio guru para aprender a construir uma casa já é arriscado, esse risco se multiplica quando pretendemos realizar o objetivo fundamental do Yoga sem um guia adequado.

Não há Karma Yoga sem Īśvara, nem existe Karma Yoga secular. Sem Īśvara, não há vida de Karma Yoga. Alguns desses autores tentam até interpretar parcialmente e fora contexto alguns versos da Bhagavadgītā para justificar esse ponto de vista. Īśvarapranidhāna, a entrega dos frutos das ações a Īśvara, é uma parte fundamental do Yoga: para que ou para quem iria o fruto das ações quando praticamos Karma Yoga se excluíssemos Īśvara da equação?

É incorreto chamar alguma ação de Karma Yoga: Karma Yoga é mais atitude do que ação. Também, a rigor, se faltar Īśvara, nenhuma autoconhecimento poderia sequer ser chamada de Yoga. Um karmayogi é um bhakta, um bhakta é um karmayogi.

Por outro lado, āsana e prāṇāyāma são disciplinas que todo o mundo pode seguir. Não obstante, mesmo pessoas que não sejam mumukṣus, cuja prioridade não seja a liberdade, podem se beneficiar dessas práticas.



O privilégio de agir.

Nosso privilégio enquanto humanos dotados de livre arbítrio é agir, mas nossa capacidade de escolha termina nas ações. Ela não se estende aos frutos do esforço que fizemos, como diz Śrī Kṛṣṇa ao príncipe Arjuna na Bhagavadgītā (II:47):

karmaṇyevādhikāraste mā phaleṣu kadācana |
mā karmaphalaheturbhūrmā te saṅgo’stvakarmaṇi ||

“Sua escolha está somente na ação, nunca no fruto dela.
Você não é o autor dos resultados da ação.
Evite o apego à inação”.

Temos assim o privilégio de poder escolher fazer ações para realizar nossos objetivos. Mas não temos nenhuma ingerência sobre os frutos desses esforços. Esses frutos podem ser iguais ao que imaginamos, podem ser mais, menos ou diferentes do que pensamos. Isso está acima da nossa capacidade de controle, em todo caso. Aceitar isto é Īśvarapranidhāna, a entrega a Īśvara.

 

Karma Yoga e sociedade.

Se uma criança chora, todos dirão, independentemente da cultura ou o lugar: “chamemos a mãe”. Se a criança chora, é natural que a mãe seja chamada. Agir é também uma manifestação de Īśvara.

Isso não é determinado pela sociedade ou os costumes de algum lugar, nem muda com o tempo. Nós precisamos da nossa mãe no passado e os nossos filhos irão precisar das próprias mães no futuro.

Fazer aquilo que deve ser feito em cada momento e lugar, é venerar Īśvara. Há uma verdade nisto: o que realmente nos faz felizes é estarmos em harmonia com Īśvara, com o Todo. Se estamos em harmonia com o Todo, nada nos falta. Só há plenitude, e plenitude é satisfação.

É assim que nos tornamos contribuidores. Digamos que este mundo funciona, não por nossa causa, mas com ela, pois embora fossémos consumidores na infância, somos contribuidores agora.

Usando nossas mãos, pés, fala e demais órgãos de ação, somos contribuidores. Participamos da criação de Īśvara, como associados dele. Somos contribuidores quando temos filhos.

A progênie é manifestação de Īśvara. As crianças são uma bênção de Īśvara. Nós não fomos um problema ao nascer. Depois que crescemos, tornamo-nos contribuidores para o bem comum.

A criação e a criador são a mesma coisa. Īśvara não fez o mundo e depois foi dormir a siesta. Īśvara é o mundo manifestado. Agora.

Quanto mais compreendemos essa forma dinámica de Īśvara, mais significativo é o nosso papel de contribuidores. Apenas fazendo o que devemos fazer nos tornamos contribuidores para a ordem de Īśvara. Há diferentes contribuidores. Todo o mundo é contribuidor.

Nosso corpo possui uma série de órgãos, cada um dos quais contribui para o bom funcionamento do todo. O universo inteiro, da mesma maneira, é um único organismo, no qual cada um representa um papel e cumpre uma função. Por humilde ou insignificante que pareça a contribuição de alguém, todo o mundo contribui para a ordem.

Contribuímos como trabalhadores para a sociedade, cumprimos como associados de Īśvara para a ordem. Isso é chamado dever, dharma. E é justamente isso é o que nos faz karmayogis.

Um karmayogi é alguém que faz o que deve ser feito como Īśvarārpaṇam, oferenda a Īśvara. O resultado da ação é alcançado pela ordem, pela lei do kartaḥ, que é Īśvara.

 

Causa e efeito, imprevisibilidade e entrega.

O karma e seu phalam, a ação e seu fruto, têm uma conexão de causa e efeito. Alguns frutos são previsíveis, outros não. A quem pertence o karmaphala, o fruto da ação? Se o bhakta, o devoto, foi levado em consideração, os resultados são imprevisíveis.

De alguma maneira a imprevisibilidade está sempre presente no karmaphala. Assim sendo, a recomendação seria o sentido de aceitá-la.

A incapacidade de antever, antecipar ou controlar os resultados do que fazemos é o que aqui chamamos imprevisibilidade, que em sânscrito se diz daiva e denota aquilo que deriva de Īśvara (literalmente, a palavra significa “dado pelos devas”, sendo estes as manifestações de Īśvara, na forma das forças da natureza).

A maneira yogika de lidar com ela é reconhecer que nem todas as variáveis estão sob o nosso comando, cultivando a atitude da aceitação e entrega em relação àquilo que não pode ser mudado.

Qualquer coisa que fizermos desde essa atitude e olhando para o bem comum, então, é uma contribuição para Īśvara. Dessa maneira, qualquer ação se tornaYoga.

Assim, que haja em nosso cotidiano muita clareza para determinar os caminhos que andamos, muito discernimento para distinguir o prazer da felicidade, muita força e energia para agir, muita entrega e contentamento em relação aos frutos do que fazemos, e muitas atitudes de Karma Yoga!

Namaste!

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    Pedro Kupfer
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    Pedro Kupfer
    COMENTÁRIOS

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  1. Augusto Mascarenhas

    Muito bom Pedro, obrigado por mais esse belo texto. Harih Om _/\_
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  2. FABRÍCIO CARVALHO AMORIM LEITE

    As profundas reflexões filosóficas contidas no artigo mostram que o modo de pensar ocidental, há muito, não se coadunam com o nosso planeta e universo.

    Dessa forma, se o universo e a Terra é um organismo, devemos, primeiro, mudar radicalmente a nossa forma errônea de pensar e agir. Que chegue esta imprescindível transição.

    Parabéns pelo texto.


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  3. Jean Salles

    Que haja mesmo Pedro. Pois em verdade há mesmo.
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