Voluntariamente, podemos nos privar de algo. Desejos não satisfeitos podem perder a força com o tempo, mas nem sempre isso acontece. Mas conseguimos nos privar do desejo desse algo?

Essa é a questão que nos ocupa. Temos escolha sobre os desejos? Eles parecem surgir independentemente da nossa força de vontade. Desejos manifestados é igual a satisfação ausente.

O livre arbítrio não consegue controlar os desejos. Reprimí-los é inútil, já que ficam latentes. Por outro lado, não conseguiremos jamais satisfazer todos os nossos desejos. Qual é o tamanho da nossa lista?

Desejos surgem a cada momento e se multiplicam com voracidade, como o fogo que consume todo o combustível a tem ao seu dispor. Desejos são substituídos por outros desejos num ciclo infindável.

Além do mais, satisfazer desejos não é garantia de felicidade. Pode acontecer que trabalhemos para realizar algum objetivo e, uma vez realizado, darmo-nos conta de que não era o que queríamos. Portanto, deixar a felicidade para depois de satisfazer os nossos desejos é um ato suicída.

Como lidar com eles, então? Desejar é parte do psiquismo humano. É o que nos define como indivíduos e configura a nossa personalidade. Então, é natural, e deveríamos parar de olhar para o desejo como um problema. Em verdade, é um privilégio poder desejar. É sinal de saúde mental. O problema não e o desejo. O problema é achar que desejar pode trazer felicidade.

Acontece que, por momentos, não realizamos nenhum desejo e mesmo assim nos sentimos plenos e felizes. Isso mostra que, talvez, a nossa felicidade não esteja conectada com a realização deles.
Lembramos dos nossos momentos de felicidade na infância, na adolescência ou na juventude.

Sempre tivemos momentos de felicidade ao longo da vida. Temos, assim, duas ordens de realidade: de um lado uma série de desejos não realizados, e de outro, e apesar disso, momentos que sempre voltam ao longo da vida inteira, que são de felicidade.

Compreendendo isso, percebemos que não precisamos fazer nada em relação aos desejos. Aceitar os desejos como naturais, como parte da ordem psicológica, é o primeiro passo para se libertar da frustração que possa derivar deles. O segundo passo é entender que a felicidade não se realiza satisfazendo-os, muito embora não haja nada de errado em desejar.

Se é verdade então que cada desejo nos leva a um novo, deve existir um desejo definitivo, que não possa ser superado por mais nenhum. O desejo que acaba com todos os desejos é o desejo de ser livre da influência dos desejos ou do sofrimento que eles podem provocar. E esse é justamente o objetivo do Yoga. Chamamos isso de liberdade.

O apego e a identificação com aquilo que consideramos nosso e a tristeza que se segue quando o perdemos são conseqüências da falta de conhecimento da ordem das coisas. Yoga é desligar-se da tristeza e as demais formas de sofrimento pela compreensão do que somos. Esse é o verdadeiro sentido do Yoga: união com o que se é, e separação daquilo que não se é.

Não é possível separar-se da própria natureza. Se a tristeza fosse mesmo a nossa real natureza, não poderiamos desistir dela. No entanto, todos queremos ver a tristeza bem longe, mas ninguém quer se livrar da felicidade ou da alegria. Porque isso acontece? Porque lá no fundo, temos a certeza de que a tristeza não é natural e a convicção de que a felicidade sim é natural.

Felizmente existe uma técnica para livrar-se do influência que limitações desse tipo têm sobre nós. A técnica consiste em apreciar objetiva e desapegadamente a justiça inerente e a perfeição presente nas leis da natureza que incluem o psiquismo humano e todos seus conteúdos.

Olhamos para a pessoa amada, para o horizonte, para o mar, e essas imagens evocam em nós a pessoa satisfeita. Quando temos um momento de plenitude, ele não nasce da pessoa ou do objeto que estiver à nossa frente.

Tampouco é o resultado da realização de um desejo. Essa plenitude é revelada. Ela já estava, sempre esteve. Está e estará. Pois ela é o que somos.

Somos toda a felicidade que procuramos. As limitações do corpomente pertencem unicamente a ele. Não são nossas, no sentido de que o Eu não tem posses de nenhum tipo. O Eu apenas é.

O ensinamento essencial do Yoga é a compreensão de que o ser individual é idêntico ao Ser ilimitado. Essa apreciação nos leva a viver uma vida tranquila, dentro as inevitáveis dificuldades e desafios inerentes a qualquer existência.

Como você se sente em relação a isso? Consegue agora aceitar que, na ordem maior, há uma razão para tudo? Consegue compreender que o mundo não existe para satisfazer seus desejos pessoais? Pense nisso.

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    Desejar faz parte do psiquismo humano. É o que nos define como indivíduos e configura a nossa personalidade. Então, é natural, e deveríamos parar de olhar para o desejo como um problema. Em verdade, é um privilégio poder desejar. É sinal de saúde mental. O problema não e o desejo. O problema é achar que desejar pode trazer felicidade.


    Pedro Kupfer
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    Pedro Kupfer
    COMENTÁRIOS

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  1. Eni

    Não sei muito bem explicar, mas lágrimas caíram do meu rosto sem perceber. Obrigada pelas palavras. É verdade, são palavras verdadeiras
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  2. Carolina

    Ótimo texto com ótimas reflexões! Yoga é realmente fascinante, por isso escolhi como tema de minha monografia. Quem puder, responda meu questionário (apenas praticantes) para minha pesquisa. É anônimo e super rápido! Obrigada antecipadamente :) Segue o link: https://www.onlinepesquisa.com/s/0bbeff3
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  3. Simone

    "Essa plenitude é revelada" agora compreendo a sensação, agradecida pela luz sobre o tema. Respondendo às perguntas: me sinto contente em relação à este ensinamento, compreendo que meus desejos pessoais não são a razão do mundo e da vida.

    Aceito que na ordem maior há sim uma razão para tudo. Porém resta-me a dúvida: devemos nós tentar durante essa existência, destrinchar os nós que acreditamos enxergar em nossas histórias? Aonde fica colocada o entendimento da razão para tudo, apenas aceito e sigo?

    Ou reflito e ajo a fim de modificar uma situação que acredito estar desajustada...

    Grata,

    Namastê

    Simone



    RENATO GARCIA ESTEVES

    Eu vivo esse dilema. Aceitar o que está me acontecendo passivamente, ou, tentar alterar o curso das coisas.

    Namastê!



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