Reflexões sobre aparigraha, a prática da não-possessividade.

O Yoga de Patañjali, explanado em sua obra Yogasūtra, contempla oito membros – o chamado Aṣṭāṅga, ou caminho de oito partes – que permite a passagem de uma vida centrada na identificação com o ego ao autoconhecimento, tendo como finalidade última a libertação.

Desse caminho, o primeiro degrau é yama, palavra que significa controlo ou domínio e representa a disciplina ética ou código de conduta para a vida quotidiana. Compõe-se de cinco valores cuja aplicação na vida conduz ao controlo dos impulsos naturais manifestados através dos cinco órgãos de acção: braços, pernas, fala, e os sistemas reprodutor e excretor.

“Ahiṁsā, satya, asteya, brahmāchārya e aparigraha são os cinco Yamas”, diz o Yogasūtra, II:30.

Este texto versa sobre o último dos yamas, aparigraha. Aparigraha é um valor do Yoga no qual tenho muita vontade de mergulhar, aprofundando o meu saber e transportando os seus ensinamentos para o dia-a-dia. E como Pedro Kupfer escreveu, “é muito difícil praticarmos o Yoga em seu devido contexto sem termos compreendido seus objetivos”.

Começando por decompor a palavra: graha significa agarrar, segurar; pari significa de todos os lados e o a confere a negativa. Resumindo, não possuir mais do que é necessário, não acumular, não depender.
À primeira vista pareceu-me quase simples, contudo, refletindo sobre a possessividade encontrei traços da sua manifestação em muitos aspectos da vida.

A saber: no apego aos bens materiais, ao dinheiro, à posição social, aos pensamentos (memórias do passado que por vezes imprimem em nós ressentimentos ou mágoas), ao ego (gostos e aversões, preconceitos, ideias pré-definidas, condicionamentos), às emoções, às sensações do corpo físico, e finalmente, em relação a outros seres.

Mesmo quando achamos que a não-possessividade está já bem enraizada no quotidiano, basta pensar no medo de perder alguém ou algo, para trazer à tona a que ainda está latente e é responsável pela incapacidade de compreender a plenitude que somos. Possessividade essa, que não constitui a nossa verdadeira natureza nem contribui em nada para compreendê-la, ao contrário do que muitas vezes acreditamos.

Fui-me apercebendo que, de facto, ao longo da nossa vida, desde bem cedo, a sociedade nos ensina a dizer “meu” como um direito começando nós a fortalecer essa possessividade sem real consciência do que ela representa. A própria educação é orientada para a competição e a comparação, e não para a cooperação e construção. Na minha vida isso aconteceu também e só o Yoga veio criar espaço em mim para esta reflexão e mudança.

Até o corpo físico em particular não é nossa posse! Ele foi-nos dado para cumprir uma missão. Para cuidar dele, sem apego nem descuido. Nada nos pertence verdadeiramente: o sentimento de posse é ilusório, mas se por um lado é fácil perceber esta afirmação, integrá-la nas nossas vivências quotidianas é outra história!

E não ficamos pelo corpo ou pelos bens que vamos adquirindo, pois as relações espelham também traços deste apego mascarado de amor onde que submetemos os outros às nossas vontades aos nossos medos.

Às vezes encontro referências ao desapego como se se tratasse de uma espécie de pobreza. Como se o empobrecimento material gerasse o real desapego dos bens. Parece-me mais ser uma confusão de conceitos! Penso que será mais usar sem depender. Sem negar os objetos, o corpo, as relações com os demais.

Encontrei nas minhas leituras uma frase muito conhecida de Swāmi Vivekānanda, que diz “não é quem recebe que é abençoado, mas quem dá”. Penso que essa afirmação ilustra bem esta ideia: quem dá fá-lo porque criou a consciência de que pode libertar-se daquilo que está a dar, libertando também o receptor da obrigação, do agradecimento. Dar sem contrapartidas implica desapego, implica não ficar à espera que nos dêem de volta algo mais…

Dado este enraizamento do sentimento de posse não creio que a mudança ocorra de forma instantânea, e da minha experiência pessoal, vejo este mais como um caminho que vou trilhando ao longo da vida do que como uma barreira que transponha repentinamente.

Neste caminho existem aspectos e valores que, trabalhados de forma constante, nos aproximam da não-possessividade, levando-nos a viver uma vida conscientemente simples, uma vida em plena liberdade! Escolhi três, que me têm ajudado neste caminho:

1.- O autoquestionamento é muito importante porque nos permite, perante o objeto da posse, perceber: eu escolhi conscientemente? Eu escolhi sequer? Ou este objeto de posse foi-me imposto pela sociedade ou pelos demais? Será supérfluo? Trata-se de uma necessidade ou um desejo? (Poderia prescindir dele ou faz-me falta? – e podendo prescindir saberei que era desnecessário…)

Desta maneira para além da simplificação pode começar a quebrar-se o molde, a quebrar-se o padrão em que a mente está habituada a funcionar, a formatação fornecida pela sociedade. Praticar este exercício de questionamento exige muita clareza de mente para por objetividade na análise das situações, passando pelo filtro do ego como um observador imparcial – a consciência testemunha.

2.- A não necessidade de comparação com os demais. Como mencionei acima, somos orientados desde cedo para competir, estando implícita e sistematicamente a comparar-nos com os demais. Isto rouba-nos espaço para apreciar as nossas conquistas e tudo o resto que nos traz felicidade - essa felicidade deve trazer felicidade a nós também!

É necessário então ir abrindo mão da ideia de que temos de ser melhores, pois estaremos a ser confundidos pelo ego a estar por vezes a fazer coisas maravilhosas pelas razões erradas - a competição!

3.- A gratidão: mantendo um sentimento de gratidão constante e consciência de todas as nossas bênçãos nesta vida (a própria bênção de estar a vivê-la que é a maior de todas) orientarmo-nos ao invés da escassez para a abundância.

Confiamos que o universo providenciará o que é necessário e apropriado a cada momento – abandonando a ideia de que temos de acumular bens. Então deixamos de questionar o curso da vida e o medo desaparece, desaparecendo com ele o sentimento de posse.

Esta confiança conecta-nos com o momento presente e liberta-nos das preocupações e do planeamento do futuro. A colocação em prática dos outros Yamas detém implícitos estes valores.

Debruçando-nos agora sobre o Yogasūtra, é no aforismo 39 do capítulo II que este yama está patente: “Quando a convicção de possuir apenas o justo e necessário se estabiliza firmemente [no yogi, ele] compreende a razão da existência”.

Aparigraha ajuda-nos a ganhar conhecimento acerca daquilo que somos e para que propósito existimos: perceção de que as memórias, os relacionamentos ou os bens materiais (objetos do nosso apego) não vêm connosco de vidas anteriores nem vão connosco para vidas futuras.

Em última análise não fazem parte da natureza da existência e por isso libertar dos apegos permite-nos perceber essa mesma natureza constatando que não há lugar para o apego no ciclo de renascimentos.

Por outro lado o abandono progressivo da possessividade cria espaço para o aprofundamento do conhecimento do ser – os objetos de posse ”roubam” energia e tempo que de outra forma estaria ao serviço do autoconhecimento. Guardamos assim essa reserva de prāṇa, força vital, para o verdadeiro propósito desta existência!

Em jeito de conclusão, e notando a abrangência e a universalidade deste valor, inspiremos. Logo, sentiremos a necessidade de expirar. E expirar não é mais do que libertar o ar, deixar sair o velho para dar lugar ao novo, criar espaço tal como no desapegar.

Espaço para viver em plenitude!

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    COMENTÁRIOS

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  1. Karla


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  2. joao

    Linda e profunda reflexão. Gostei de ler Andreia!
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  3. Thiago Duarte

    Obrigado pela partilha. Adorei o texto.


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  4. Ana Guimarães

    Muito agradecida Professor Pedro por tudo que nos ensinas!

    AnaPaula.


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