|| Atha Kaṭhopaniṣad ||

Aqui, inicia-se a Kaṭha Upaniṣad.

INVOCAÇÃO DA PAZ.

Oṁ saha nāvavatu | saha nau bhunaktu | sahavīryaṁ karavāvahai |
tejasvi nāvadhītamastu | mā vidviṣāvahai || Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ ||


Oṁ. Que Ele [Īśvara, o Ilimitado], proteja nós dois. Que Ele esteja feliz conosco.
Que possamos trabalhar juntos com vigor. Que o conhecimento nos ilumine.
Que nunca confundamos o que somos com o que fazemos. Oṁ. Que haja paz, paz, paz.

 


Parte I
Canto 1

NACIKETAS É ENTREGUE À MORTE.

Conta-se que uma vez, com grande zelo, o brâmane Vājáśravasa doou tudo o que possuía [para obter mérito espiritual]. Ele tinha um filho chamado Naciketas.”

Enquanto os presentes eram doados aos sacerdotes, entusiasticamente a confiança fez-se presente nele que, [embora fosse muito jovem,] pensou:

“Beberam sua água. Comeram sua grama. Seu leite foi ordenhado. Sua vitalidade foi exaurida. Qual é o mérito em doar essas [velhas] vacas? Certamente, sem alegria é o lugar para onde vá quem dá esses presentes sem valor.”

Então, dirigindo-se a seu pai, disse-lhe vezes e mais vezes: “Pai, para quem você me dará em sacrifício?” Seu pai, [cheio de cólera,] lhe respondeu: “Dar-te-ei para a Morte!”

NACIKETAS NA CASA DA MORTE.

[Naciketas pensou: “Ao encontro da Morte] vou, o primeiro dentre muitos que morrerão, em meio a muitos que estão morrendo. Que fará a Morte comigo hoje?”

“Olhando para frente, vejo os que já morreram. Olhando para trás, vejo os que ainda estão vivos. Como o grão, o homem nasce. Como o grão, renasce outra vez”.

“Um hóspede que entra em casa de seu anfitrião, como uma chama brilhante, deve ser bem recebido. Prepara a água para as oferendas, ó Filho do Sol!”

[Yama, o deus da Morte, está ausente. Naciketas deve aguardar três dias e três noites à sua porta. Enquanto isso, ele lembra:] “Esperança e felicidade, amizade e alegria, sacrifício e boas ações, progênie e riquezas são tomados daquele que falha em seus deveres para com seus hóspedes.”

[Ao voltar de viagem, a Morte encontra o jovem e diz-lhe:] “Como tu, honrável hóspede, ficaste à minha porta sem água nem alimento por três noites, concedo-te três pedidos para compensar minha falha. Podes escolher.”

O PRIMEIRO PEDIDO DE NACIKETAS: VOLTAR PARA CASA.

[Naciketas falou assim:] “O primeiro dos meus três desejos é este: quero voltar para casa e que Gautama, meu pai, me receba com carinho. Desejo que sua cólera desapareça e que seja amoroso comigo.”

[Respondeu a Morte:] “Eu garanto que teu pai, filho de Auddālaki e Aruna, estará feliz contigo como antes. Alegre ele dormirá suas noites, ao ver que voltaste das garras da Morte”.

O SEGUNDO PEDIDO DE NACIKETAS: COMPREENDER O RITUAL DO FOGO.

[Disse Naciketas:] “No mundo celestial não há lugar para o medo. Nem para ti. Nem para a velhice. Havendo transcendido os pares de opostos, havendo ido além do sofrimento, pode-se alcançar esse mundo celestial”.

“Tu, ó Morte, conheces o ritual do fogo que conduz ao mundo celestial. Instrui-me, pois confio em ti. Aquele que conhece o segredo do fogo, conhece a imortalidade. Este é meu segundo pedido”.

[Respondeu a Morte:] “Conheço bem o fogo que conduz à imortalidade. Te ensinarei. Aprende comigo, Naciketas. Conhece aquele fogo que é o meio para alcançar a imortalidade, o pilar que sustenta o mundo, que está escondido [no coração]”.

Assim, a Morte ensinou a Naciketas os segredos do ritual do fogo, bem como a construir o altar que espelha o eixo do mundo, usando o número correto de tijolos e sua disposição adequada. Quando o jovem repetiu-lhe a lição, Yama ficou muito satisfeito.

A grande alma (Yama) disse: ”Tenho uma dádiva para te fazer: a partir deste momento, o ritual do fogo chamar-se-á por teu nome. Aceita igualmente esta girlanda múltipla”.

“Aqueles que acenderem o fogo de Naciketas por três vezes, que entrarem em união com os três [pai, mãe e mestre] e que fizerem os três atos [ritual, estudo e caridade], elevar-se-ão acima da vida e da morte. Conhecendo o Fogo que emana de Brahman, [a alma infinita,] alcançarão a paz perfeita”.

“Os sábios que cumprirem este tríplice dever, cientes de seu significado profundo, romperão os laços da morte e do sofrimento e regozijar-se-ão no mundo celestial”.

“Este é o Fogo que conduz à paz, teu segundo pedido. Este ritual será conhecido por teu nome. Escolhe agora, ó Naciketas, o terceiro.”

O TERCEIRO PEDIDO DE NACIKETAS: AUTOCONHECIMENTO.

[Disse Naciketas:] “Quando alguém morre, as pessoas afirmam: ‘ele ainda existe’ ou ‘ele deixou de existir’. Gostaria de ser instruído a esse respeito. Dos meus pedidos, este é o terceiro”.

[Respondeu a Morte:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, pois o segredo da morte é muito difícil de se conhecer. Naciketas, faça outro pedido e liberte-me de minha promesa”.

[Disse Naciketas:] “Até mesmo os deuses têm dúvidas em relação a isso, e tu, ó Morte, dizes que esse segredo não é facil de se compreender. Eu não poderia ter melhor mestre que tu. Não há outro pedido que queira fazer.”

[A Morte falou:] “Escolhe ter filhos e netos centenários. Escolhe rebanhos de gado, elefantes e cavalos. Escolhe ouro e terras infindáveis. Escolhe viver tantos outonos quanto queiras”.

“Escolhe o mais desejável que possas conceber: riquezas e uma longa vida! Podes, Naciketas, ser o rei de um grande reino. Dar-te-ei a capacidade de desfrutar os prazeres da vida”.

“Pede-me mulheres tão belas como nenhum mortal viu antes. Andando em carrugens, destras em música, prontas para atender teus desejos. Por favor, Naciketas, não me peças que te revele o segredo da Morte”.

[Naciketas replicou:] “Coisas efêmeras! Elas tiram o vigor dos sentidos. Fica com tuas dançarinas, tua música e tuas carruagens”.

“As riquezas não tornam feliz o homem. Como posso escolher o ouro, havendo visto tua face? Poderia eu viver além do tempo em que reinas? Meu pedido continua o mesmo.”

“Havendo estado em presença de um imortal como tu, como poderia eu, suscetível à doença e à morte, me deliciar numa vida de prazeres e beleza para satisfazer meus sentidos?”.

“Responde por favor a minha dúvida, ó rei da Morte: após morrer, a pessoa vive ou não? Naciketas nada deseja além da revelação deste grande mistério”.

Aqui conclui-se o primeiro canto da primeira parte da Kaṭha Upaniṣad.


Parte I
Canto 2

FELICIDADE OU PRAZER?

[Havendo testado o jovem Naciketas e, achando-o preparado para receber o conhecimento, a Morte respondeu:]
“Felicidade perene é uma coisa. Prazer efêmero, outra. Ambos, embora com propósitos diferentes, determinam as ações do homem. Tudo está bem para aquele que escolhe a felicidade perene. Falha quem escolhe o prazer efêmero”.

“A felicidade perene e o prazer efêmero fluem em direção ao homem. Ponderando sobre ambos, o sábio discerne escolhe a felicidade. Procurando o conforto mundano, o tolo escolhe o prazer”.

“Tu, Naciketas, após correta ponderação, renunciaste às correntes do prazer efêmero e das riquezas, onde tantos homens afundam”.

“Ignorância e sabedoria: diametralmente opostas são estas duas. Considero-te Naciketas, digno de receber instrução, pois não foste tentado pelos prazeres mundanos”.

“Ignorantes de sua própria ignorância, os tolos, cheios de si, considerando-se eruditos, vagueiam perdidos, como cegos guiados por cegos”.

“A passagem [a morte] não está clara para aqueles com mentalidade infantil, ofuscados pelas ilusões do mundo material. Pensando “este é o mundo real! Não há nada além dele!”, eles voltam vezes e mais vezes a ficar sob meu controle [continuam presos na roda do saṁsāra, ciclo de mortes e renascimentos sucessivos]”.

IMPORTÂNCIA DO MESTRE.

“Poucos conhecem o Ser. Menos ainda, dedicam suas vidas a permitir que ele se revele. Maravilhoso é aquele que fala sobre o Ser. Raro é aquele que torna o ser a meta de sua vida. Abençoados são aqueles que, através de um mestre, alcançam a realização”.

“A verdade sobre o Ser não pode obter-se através de alguém que não percebeu o Ser como sua própria natureza essencial. A mente não pode revelar o Ser. Para além das dualidades, aqueles que percebem a si mesmos em todos os seres e a todos os seres em si mesmos, auxiliam os demais a terem a revelação do Ser”.

“Esta tomada de consciência não acontece através do raciocínio ou do estudo, mas da associação com um mestre realizado. Sábio eres, Naciketas, pois estás em busca do Ser. Que possa haver mais buscadores como tu!”

IMPORTÂNCIA DA RENÚNCIA E DA MEDITAÇÃO.

[Disse Naciketas:] “Sei que os tesouros terrenais são efêmeros e que nunca alcançarei o Eterno através deles. Portanto, renunciei a todos meus desejos mundanos para realizar o Eterno sob tua orientação”.

[Respondeu a Morte:] “Coloquei a teu alcance, Naciketas, a satisfação de todos os desejos terrenais: fama e poder para reinar sobre a terra, prazeres divinos obtidos pela prática espiritual e a outra margem, onde não há medo. A todos estes, com determinação e sabedoria, renunciaste”.

“O sábio, percebendo em sua meditação o Ser eterno, difícil de se ver, que reside profundamente escondido no lugar segredo [o coração]”, deixa para trás o sofrimento e o prazer.”

“Aqueles que percebem a si próprios, não como corpo ou mente, mas como o Ser ilimitado, o divino princípio da existência, encontram a fonte de toda felicidade e residem nela. Percebo que as portas dessa felicidade estão abrindo-se para ti, Naciketas.”

[Naciketas pediu:] “Instrui-me sobre Aquele que está mais além do certo e do errado, da causa e do efeito, do passado e do futuro”.

O MANTRA OṀ E A LIBERTAÇÃO.

[Yama replicou: ] “Explicar-te-ei resumidamente a meta declarada pelos Vedas, o objetivo de todas as austeridades, que os homens realizam ao levar uma vida de continência. Essa meta é a sílaba sagrada [Oṁ].”

“Essa sílaba sagrada é, em verdade, o pleno Brahman. Esta sílaba é a meta mais elevada. Quem a conhece, realiza todos seus objetivos”.

“Ela é o melhor apoio, o mais elevado sustento. Quem conhece este esteio reside feliz no mundo de Brahman”.

A REVELAÇÃO DO SER, ETERNO E INDESTRUTÍVEL.

“O Ser, que é Todo o Conhecimento, não nasceu nem morrerá. Estando além de causa e efeito, é imutável, constante e eterno. Ele não perece quando o corpo se extingue”.

“Se aquele que mata acredita poder matar, e aquele que morre acredita poder morrer, ambos ignoram a verdade. O Ser eterno não mata nem pode ser morto”.

“Menor que o infinitesimal, maior que o grandioso, o Ser reside no coração de todas as criaturas. Aquele que domina seus próprios desejos liberta-se de todo sofrimento e, com a mente e os sentidos em paz, percebe a grandeza do Ser”.

“Embora o corpo fique parado durante a meditação, o Ser exerce sua influência em qualquer lugar. Embora permaneça quieto, movimenta tudo em todos os lugares”.

“Transcende o sofrimento o sábio que percebe o Ser, sem forma no mundo das formas, imutável em meio à mudança, onipresente e supremo”.

“O Ser não pode conhecer-se através do estudo das escrituras, nem usando o intelecto, nem ouvindo discursos eruditos. O Ser pode ser percebido por aqueles que ele mesmo escolhe. Verdadeiramente, é unicamente a eles que o Ser se revela”.

“O Ser não pode ser conhecido por aqueles que não tenham desistido do mal, nem por aqueles que não dominem seus sentidos, nem por aqueles que não sejam pacíficos, nem por aqueles incapazes de concentrar a própria mente”.

“Ninguém mais pode conhecer o Ser onipresente, cuja glória supera os rituais dos sacerdotes, a coragem dos guerreiros, e que vence até mesmo a própria morte”.

Aqui conclui-se o segundo canto da primeira parte da Kaṭha Upaniṣad.

 

Parte I
Canto 3

O SER E O EGO.

[Yama continua:] “Na caverna secreta do coração, dois estão sentados à beira da fonte da vida. O ego bebe as águas doces e amargas, desfrutando as doces, rejeitando as amargas. O Ser bebe as águas doces e amargas, sem desfrutá-las nem rejeitá-las. O ego afunda nas trevas, enquanto que o Ser mergulha na luz. Assim afirmam os sábios e aqueles que adoram os cinco fogos sagrados (pañchagni) e o fogo tríplice de Naciketas”.

“Que possamos manter aceso o fogo de Naciketas, que purifica o ego e nos permite atravessar o oceano do medo em direção às margens do imperecível Brahman”.

A PARÁBOLA DO SER E A CARRUAGEM.

“Imagine o Ser como o senhor de uma carruagem realizando uma jornada. O corpo é a própria carruagem. O discernimento é o cocheiro. A mente, as rédeas.”

“Os sentidos, dizem os sábios, são os cavalos, as estradas que eles percorrem, os labirintos do desejo. Quando o Ser é confundido com o corpo, a mente e os sentidos, ele parece desfrutar o prazer e sofrer a dor”.

Quando falta ao homem discernimento e à sua mente disciplina, os sentidos disparam e tornam-se incontroláveis, como cavalos selvagens”.

“Porém, quando o homem possui discernimento e uma mente disciplinada, seus sentidos, como bem treinados cavalos, facilmente respondem ao freio”.

“Aquele que não tiver discernimento, que não tiver disciplinado sua mente, que não for puro de coração, não alcançará a meta, ficando preso ao ciclo de mortes e renascimentos sucessivos”.

“Aquele que tiver discernimento, mente disciplinada e pureza interior, alcançará a meta, e nunca mais irá sofrer nas garras da morte”.

“Aquele que tiver o discernimento por cocheiro e controlar as rédeas de sua mente, alcançará o fim da jornada, a união com o Onipresente”.

“Para além dos sentidos estão seus objetos. Para além desses objetos está a mente. Além da mente está o discernimento e, além dele, o Ser eterno”.

“Além do Ser está o imanifesto. Mais além do imanifesto está Brahman. Além de Brahman, não há nada”.

“Embora esteja presente em todas as coisas, Brahman não se revela. Ele é percebido unicamente pelo sábio que concentra sua mente e desenvolve a visão supraconsciente”.

“A prática da meditação permite ao sábio mergulhar mais e mais profundamente na consciência, indo do mundo das palavras ao mundo dos pensamentos e, deste, à sabedoria suprema”.

“Levanta-te, desperta! Havendo adquirido tuas bênçãos, compreende-as [agora]. Estreito como o fio de uma navalha, difícil de atravessar é este caminho, declaram os poetas”.

O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos. Sem início, sem fim, estando além do tempo, do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável. Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte”.

Quando esta antiga história de Naciketas, contendo os ensinamentos de Yama, for narrada ou ouvida pelos sábios, estes entrarão no mundo de Brahman.

Aquele que recitar devotamente este supremo segredo numa reunião de brahmanas ou com ocasião dos rituais para os mortos, merecerá a imortalidade!

Aqui conclui-se o terceiro canto da primeira parte [da Kaṭha Upaniṣad].


Parte II
Canto 1

O ILIMITADO NÃO PODE SER CONHECIDO PELOS SENTIDOS.

[Disse Yama:] “O auto-existente (svayambhū), atravessou as aberturas [dos sentidos] em direção ao exterior. Por essa razão, o homem olha para fora, ao invés de procurar dentro de si (antarātman). Um homem sábio, buscando a imortalidade, retraiu seus sentidos do mundo externo, sempre mutante. Olhando para o interior, contemplou face a face o Ser imortal”.

“As pessoas com mentalidade infantil perseguem os prazeres efêmeros, só para cair nas redes da morte. Noentanto, os sábios, sabendo que o Ser é imortal, não procuram por ele no mundo das coisas finitas“.

“Aquele através do qual experienciam-se a forma, o gosto, o olfato, a audição, o toque e a união carnal, é o Ser. Pode existir algo desconhecido para Aquele que é o Uno no Todo? Aquele que conhece o Uno, conhece o Todo“.

“Aquele através do qual experienciam-se os estados da vigília e do sono é o Ser. Para o sábio, perceber o Ser Onipresente como a própria consciência é ir além do sofrimento“.

O SER IMORTAL É UNO COM A ALMA INDIVIDUAL E TODA A CRIAÇÃO.
“Aquele que conhece este Ser como o desfrutador do mel obtido das flores dos sentidos, presente no interior e senhor do tempo, está além do medo. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aquele nascido antes que a austeridade (tapas), nasceu igualmente antes que as águas. Aquele que entrou no lugar segredo [do coração] e olhou através dos seres, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aditi, a alma dos deuses que surje junto com a vida, havendo entrado no lugar segredo [do coração], e havendo nascido com os seres, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Agni, o Fogo Onisciente, oculto na lenha como o embrião no ventre da mãe, deve ser adorado com oferendas pelos homens de bem pois este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Aquele que é a fonte do Sol e de todos os poderes do Universo, além do qual nada há, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O que está aqui, está lá; o que está lá, está igualmente aqui. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto“.

“Apenas a mente unidirecionada é capaz de perceber a Unidade. Nada existe além do Ser. De morte em morte vagueia aquele que vê algo diferente disto“.

O SER ETERNO É O ALICERCE DE TODOS OS SERES.

O Ser, menor que o dedo polegar, reside no centro do coração. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O Ser, menor que o dedo polegar, brilha como uma chama sem fumaça. Senhor do que foi e do que será, ele é o mesmo, hoje e amanhã. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Assim como a chuva que desce as ladeiras da montanha, aqueles que percebem apenas a multiplicidade aparente da vida, dispersam-se correndo atrás dos objetos efêmeros“.

“Assim como água pura jorrada sobre água pura tornam-se uma só, da mesma forma, ó Gautama, o ser individual do sábio silencioso (muni) torna-se uma coisa só com o Ser Infinito“.

Aqui conclui-se o primeiro canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.

  

Parte II
Canto 2

O ILIMITADO É IDÊNTICO AO INDIVÍDUO.

[Disse Yama: ] “O governante da cidade de onze portas é o Ser, cuja luz brilha por sempre. Deixam o sofrimento para trás e são libertados do ciclo de mortes e nascimentos aqueles que meditam no Ser. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“O Ser é o sol que brilha no céu, o vento que sopra no espaço, o fogo no altar e o hóspede no lar. Ele vive nos seres humanos, nos deuses, na verdade e no vasto firmamento. Ele está no peixe nascido das águas, na planta que cresce na terra, no rio que flui desde a montanha”.

“Aquele que está no coração reina sobre o alento vital. Ante ele, todos os deuses [os sentidos] se inclinam”.

“Quando o habitante do corpo liberta-se das correntes da carne, quem permanece? Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Não vivemos pelo alento que flui para dentro ou para fora. Vivemos por causa daquele que faz com que o alento vital flua”.

“Agora, ó Gautama, falar-te-ei do Brahman, eterno e invisível, que está presente no Ser, mesmo além da morte”.

“Alguns entram num ventre e encarnam [como animais ou humanos], enquanto que outros permanecem estacionários, [encarnando como vegetais,] conforme é determinado por suas próprias ações e conhecimento”.

“Puruṣa, o Ser perfeito, permanece desperto no sono e inspira os incessantes desejos do sonho. Chama-se Brahman, o Imortal. Alicerce dos mundos, nada é diferente dele. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

“Assim como o fogo, sendo único, assume diversas formas ao consumir diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

“Assim como o ar, sendo único, assume diversas formas ao abraçar diversos objetos, da mesma forma o Ser assume as formas de todas as criaturas, nas quais está presente”.

“Assim como o sol, que é o olho do céu, não é manchado pelo defeito em nossos próprios olhos ou pelos objetos que ele ilumina, da mesma forma o Ser, vivendo nos corações de todos, permanece intocado pelos males do mundo, pois tudo transcende”.

A FELICIDADE DE RECONHECER A SI PRÓPRIO COMO ILIMITADO.

“O Ser, presente em todos os seres, multiplica sua própria Unidade. A felicidade eterna acompanha àqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém Ele se revela!”

“Imutável em meio ao que perece, Pura Consciência no coração dos sábios, o Único atende as preces de muitos. A paz eterna é daqueles que percebem o Ser em seus próprios corações. A mais ninguém Ele se revela!”

[Perguntou Naciketas:] “Como posso conhecer àquele Ser, supremo e bem-aventurado, conhecido pelos sábios? É Ele a Luz, ou Ele reflete a Luz?”

[Respondeu a Morte:] “Não brilha o sol, nem a lua ou as estrelas, nem o raio nem o trovão, nem o fogo sobre a terra, sem a presença do Ser. O Ser é a luz por todos refletida. Quando ele brilha, tudo brilha”.

Aqui conclui-se o segundo canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.


Parte II
Canto 3

BRAHMAN MANIFESTADO COMO A ÁRVORE CÓSMICA.

“A Árvore da Eternidade, cujas raízes crescem para o céu e cujos ramos crescem para baixo, é o puro, é Brahman, é o que se chama Não-Morte. Todos os mundos derivam Dele, que por ninguém pode ser transcendido. Este, realmente, é Aquele [que estás buscando]“.

O GRANDE TEMOR.

“O Cosmos deriva de Brahman e nele se move. Seu poder reverbera, como um trovão no céu. Aqueles que o realizam, libertam-se da morte”.

“Por temor do Ser, o fogo queima. Por temor do Ser, o sol aquece. Por temor do Ser, a chuva cai e o vento sopra. Por temor do Ser, a morte mata”.

PERCEPÇÃO DE SI MESMO.

“Se a pessoa falhar na tarefa da realização suprema nesta vida antes que o corpo se desintegre, ela deve retornar ao mundo encarnada num novo corpo”.

“Brahman pode ser visto, como num espelho, num coração puro. No mundo dos ancestrais, como um sonho. No mundo dos elementais, como círculos na água. Como a claridade da luz, no mundo de Brahman”.

“Sabendo que os sentidos estão separados do Ser, e sabendo que as experiências deles advindas são impermanentes, o sábio não se aflige”.

“Além dos sentidos está a mente. Além da mente está a razão. Além dela está a individualidade. Além da individualidade está a Causa não manifestada”.

“Além da Causa não manifestada está Brahman, onipresente e sem atributos. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

“Ele não tem forma e não pode ser visto com estes olhos. Porém, revela-se no coração purificado pela prática da meditação e o controle sensorial. Aquele que percebe isto liberta-se do ciclo dos nascimentos e mortes”.

YOGA: VEÍCULO PARA A LIBERDADE.

“Quando os cinco sentidos e a mente estão parados, e a própria razão descansa em silêncio, começa o caminho supremo”.

“Esta firmeza calma dos sentidos chama-se Yoga. Mas deve-se estar atento, pois o Yoga vem e vai.”

“A visão da não-separação não pode ser alcançada através de palavra, pensamento ou testemunho. Como pode Brahman ser conhecido, exceto por aquele que o percebe em si próprio?”

“Há dois seres: o ego separado e o ātman indivisível. Quando nos elevamos acima das noções de eu, mim e meu, ātman revela-se como nossa natureza real”.

A RENÚNCIA COMO MEIO DE SUPERAR OS CONDICIONAMENTOS.

“Quando renuncia [à identificação com] os desejos que surgem do coração, o mortal torna-se imortal”.

“Desfazendo os nós que estrangulam o coração, o mortal torna-se imortal. Essa é a síntese dos ensinamentos das escrituras”.

TRANSIÇÃO DO CONDICIONAMENTO À EMANCIPAÇÃO.

“A partir do coração, surgem os cento e um caminhos (nāḍīs) da força vital. Um deles conduz ao topo da cabeça. Esse caminho conduz à imortalidade. Os outros, à morte”.

“Puruṣa, menor que o dedo polegar, repousa eternamente no coração de todos. Distingue-o do corpo físico, como o caule que surge do junco. Conhece a ti mesmo como o Ser Puro e Imortal! Conhece a ti mesmo como o Ser Puro e Imortal!”

Assim, Naciketas aprendeu de Yama, o Senhor da Morte, a disciplina realizadora da meditação. Libertando-se de toda separação, conquistou a imortalidade de Brahman. Abençoados aqueles que conhecem o Ser!

 

INVOCAÇÃO DA PAZ.

Oṁ bhadraṁ karṇebhiḥ śṛṇu yāma devāḥ | bhadraṁ paśyemākṣabhir yajatrāḥ ||
sthirair aṅga istuṣṭu vāṁ sastanūbhiḥ | vyaśema devahitaṁ yadāyuḥ ||
svasti na indro vṛddha śravāḥ | svasti naḥ pūśā viśva vedāḥ ||
svastinastārkṣyo ariṣṭanemiḥ | svastirno bṛhaspatir dadhātu ||
Oṁ śāntiḥ śāntiḥ śāntiḥ || Oṁ tat sat ||


Ó Deuses! Que possamos ouvir o que é auspicioso. Que nós, capazes de meditar (sobre o que escutamos), possamos ver com nossos olhos o que é auspicioso. Que saibamos exaltar os devas com eloqüência e com os órgãos dos sentidos controlados. Que possamos viver a vida com Sua benção. Que Indra, o visível, nos abençoe. Que o Sol onisciente nos abençoe. Que Bṛhaspati (o guru) nos abençoe. Oṁ. Paz, paz, paz. Oṁ. Verdade suprema absoluta.

Aqui conclui-se o terceiro canto da segunda parte da Kaṭha Upaniṣad.

    COMENTÁRIOS

    Comentar artigo

  1. Rodrigo

    Ya me da nostalgia, si sólo lo estudiamos en Julio!!!!! Abrazos!!
    Responder


  2. Patrícia

    Maravilhoso!

    Obrigada!

    Namaste!


    Responder


  3. Maria

    Muito obrigado. Bem haja.
    Responder