Ansiedade, medo, preocupação. Inicialmente essas são qualidades essenciais para a sobrevivência e evolução dos seres humanos. A ansiedade “normal” nos ajuda a adaptar nossos recursos às circunstâncias desafiadoras da vida, nos faz ficar em estado de alerta, estar mais atentos e presentes, melhorando nossa velocidade de reação quando necessário.

Também podemos sentir ansiedade e angustia quando percebemos que nossos antigos padrões não nos servem mais, que precisamos nos lançar a algo novo. Essa ansiedade nos faz sair da velha zona de conforto em direção a algo que manifeste mais adequadamente nosso Ser, Ātman.

Porém, ansiedade patológica é quando esse processo sai do controle. A ansiedade começa a fazer parte do cotidiano, interferindo negativamente nas atividades, despendendo mais energia do que necessário, podendo levar o indivíduo a desenvolver uma síndrome de ansiedade.

Durante os meus estudos com Pedro Kupfer observei que existem muitos paralelos entre os aforismos de Patañjali e os processos de ansiedade. Gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre o tema neste texto.

 

 

Sūtra I:2. 

Yoga é a cessação da [identificação com] as modificações da psiquê.

No estado de ansiedade a pessoa está totalmente identificada com seus vṛttis, ou seja, seus pensamentos, crenças, medos, condicionamentos e sentimentos. Assim, além dela associar sua identidade a seus pensamentos e emoções, ela acredita neles verdadeiramente. Para onde se direcionam seus movimentos mentais a consciência os acompanha. Se fosse dessa forma, como poderia tal pessoa controlar ou observar algo que ela é? 

Através do Yoga aprendemos que precisamos compreender quem realmente somos. Nós não somos nossos pensamentos, nossas emoções ou nossos condicionamentos. Nossa identidade vai além da nossa mente. Somos Aquele que testemunha silenciosamente, o Ilimitado, imortal e sem condicionamentos. Quando aprendemos isso, começamos a olhar com mais discernimento o nosso próprio movimento mental. Reconhecemos que nós temos uma mente, mas não somos ela. A partir daí podemos cuidar melhor da nossa saúde mental.

Observando nossas próprias reações com mais equanimidade e menos envolvimento, temos mais calma para avaliar as situações. Nossas reações emocionais perdem força sobre nós. Ao estabelecermos essa realidade, a própria mente se aquieta, pois o estado de inquietude não é mais alimentado.

Sūtra I:9. 

Fantasia é o conhecimento evocado por palavras sem base num objeto real.

Patañjali descreve cinco tipos de vṛttis (atividades psicomentais). Dentre eles, vikalpa, a fantasia. Fantasia é quando através da projeção de uma experiência passada ou de uma ideia, a mente cria algo que não existe, e vê algo que não tem base real. 

Nos processos de ansiedade esse conceito pode estar muito presente, uma vez que a reação de medo ou angustia em muitos casos não é baseada num fato real ou concreto, e sim é acionada por um elemento fantasioso baseado em uma projeção.

Ancestralmente a reação de “luta ou fuga” do nosso sistema nervoso autônomo era deflagrada por ameaças concretas, como o ataque de um animal, ou uma luta territorial, etc. Hoje, apesar de muitas vezes a ameaça estar realmente presente, como no caso de um assalto ou na iminência de um acidente, os perigos estão muito mais em nossas mentes.

“E se eu perder o emprego? ”, “E se eu ficar sozinho? ”, “E se eu não tiver dinheiro? ”, e daí por diante. Assim, o estado de alerta se torna crônico, afetando a interpretação dos fatos. A pessoa pode então ver uma cobra onde na verdade só existe uma corda.

Sūtra I:12. 

A supressão da identificação com os vṛttis consegue-se através da prática constante e do desapego.

Aqui Patañjali fala sobre duas qualidades que devem estar presentes no caminho para se alcançar uma mente mais equânime: a constância na pratica e o desapego. Para que a pessoa ansiosa possa se desidentificar de seus pensamentos e emoções, ela precisa praticar constantemente, para que o condicionamento enraizado ao longo de tanto tempo possa se afrouxar e dar espaço para uma nova auto percepção. É preciso ser vigilante, pois a tendência de se identificar com a mente é muito forte. É necessário estar sempre atento a si mesmo, se esforçar, se observar, ter firmeza de propósito, sem se apegar aos resultados da prática. Uma pessoa com mente ansiosa precisa de auto estudo constante para que um novo padrão possa entrar em cena.

Sūtra I:30. 

Doença, inércia, dúvida, negligência, preguiça, volubilidade, equivocação, inconstância e instabilidade. Estas nove distrações são os obstáculos.

Sūtra I:31. 

Sofrimento, desespero, instabilidade física e respiração irregular surgem desses obstáculos.

No sūtra, 31 Patañjali enumera nove obstáculos que provocam dispersão, uma mente desestabilizada, como no caso da ansiedade patológica. Um estado de ansiedade crônica se instala por diversos motivos. Padrões equivocados, preguiça de se transformar, coisas que deveriam ser feitas e são deixadas para depois, falta de firmeza nos propósitos, padrões emocionais frágeis, falta de fé, falta de persistência... Os motivos devem ser estudados e observados pelo buscador, com um sentimento de equanimidade, sem culpas ou ressentimentos.

No sūtra  seguinte Patañjali descreve quatro sintomas de uma mente dispersa, estado provocado pelos obstáculos. É interessante observar que são sintomas muito atuais, e bem associados a um quadro de ansiedade ou pânico. Sofrimento adiantado por ideias pessimistas, tremores, sudorese, batimento cardíaco acelerado e respiração superficial são sintomas associados ao estado de ansiedade.

 

Sūtra I:32. 

Os obstáculos são removidos através de focalização na Realidade Única.

A pessoa com ansiedade pensa em muitas coisas ao mesmo tempo. É um efeito em cadeia, onde um pensamento leva a outro sem que a pessoa consiga controlar o processo. Patanjali fala nesse sutra da importância de se ter uma mente concentrada em uma só realidade.  Nesse processo os exercícios de concentração são fundamentais. Treinar a capacidade da mente de se concentrar a torna mansa. É como domesticar um cavalo selvagem. A partir desse trabalho de concentração, é possível tomar as coisas pelo que elas se apresentam, aceitar a realidade sem resistências ou projeções, tomando assim as atitudes necessárias através de uma percepção firme e discernida, focada no Ser.

 

Sūtra I:34. 

Pela expiração e pela retenção do alento vital, a mente pode igualmente estabilizar-se.

Através do controle do prāṇa, comanda-se igualmente o pensamento. Os exercícios de respiração propostos pelo Yoga são uma ótima ferramenta contra a ansiedade, uma vez que nos permitem acalmar a mente.

Fala-se mais sobre o tema na Haṭhayoga Pradīpikā:

IV:24 “A mente e o prana estão relacionados entre si como o leite e a água, sendo suas atividades coincidentes; se houver movimento de prāṇa, haverá movimento mental; se houver atividade mental, haverá movimento de prāṇa”.

IV:25 “Suspendendo-se a atividade de um deles, o outro igualmente irá parar; se um agir, o outro também agirá. Se não permanecerem estáveis, os sentidos estarão sempre ativos. Controlando-os, alcança-se mokṣa, a libertação suprema”.

No estado ansioso, a mente está hiperativa, turbulenta, descontrolada. A pessoa não consegue enxergar a realidade com discernimento, está dominada pelas emoções. Controlar a mente pela própria mente quando esta está em tal estado se torna uma tarefa árdua, como tentar ordenar uma matilha de cães enfurecidos. 

Interferindo na respiração agimos igualmente no prana, e igualmente ainda na mente. Através do controle da respiração podemos reduzir a velocidade dos pensamentos e emoções e alcançar um estado de maior calma e equanimidade.  Essa é uma ótima ferramenta em momentos de tensão, quando não conseguimos enxergar respostas ou quando o intelecto está obscurecido pela ansiedade.

 

Conclusão:

É muito interessante pensar que um tema tão atual já era alvo de reflexões pelo menos 200 anos antes da nossa era. Trata-se então de uma questão atemporal, que faz parte do caminho humano em direção ao seu autoconhecimento. 

Através da reflexão sobre os sūtras citados, concluí que para alcançarmos uma mente estável e equilibrada, Patañjali nos diz que o primeiro passo é nos darmos conta de que temos uma mente, mas não somos a mente. A partir daí podemos observá-la e fazer os ajustes necessários para que esta possa manifestar mais apropriadamente o nosso Ser. 

Dentre as técnicas propostas, citei aqui o tema dos prāṇāyāmas, que é o controle do prāṇa pela respiração, o que nos ajuda a acalmar os pensamentos. Na obra dos Sūtras, Patañjali nos propõe ainda oito passos para o controle da mente e a transcendência desta. Independente de credo ou religião o estudo dos sutras de Patañjali pode ser de grande ajuda para aqueles que buscam a cura para estados crônicos de ansiedade.

 

 

Fontes: 

 

  1. Kupfer, Pedro - Apostila Formação em Yoga – Módulo I – 2009 - 9ª edição. 
  2. Ballone GJ - Ansiedade - in. PsiqWeb, Internet, disponível em www.psiqweb.med.br, revisto em 2015.

 

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Marcella é Educadora Física e Instrutora de Yoga. Mora e dá aulas no Rio de Janeiro.  

    COMENTÁRIOS

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  1. Elisa Melo

    Parabéns pelo excelente artigo Marcella!Tema extremamente relevante e atual, tratado de maneira objetiva porém, ao mesmo tempo, profunda. Analisar a ansiedade à luz dos ensinamentos de Patanjali foi algo feliz e enriquecedor. Gratidão! Namastê!!
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  2. Paulo Triguis

    O que aconteceu com a página? :( :( :( Que triste
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