Voltei recentemente de uma temporada de estudos na Índia, onde o Yoga é uma prática baseada em princípios e valores milenares. Diferentemente dos ocidentais, os yogis daquele país estão mais preocupados em saber o que você faz para melhorar o mundo que em conhecer suas ideias. As comunidades yogikas estão tradicionalmente empenhadas em melhorar as condições de vida das populações carentes, mantendo hospitais e escolas, distribuindo alimentos e gerando emprego através do Karma Yoga, o Yoga da ação social.

Essa experiência no berço do Yoga contrasta de maneira chocante com o que percebemos chegando de volta ao Brasil. Lá, é absolutamente normal deparar-se com yogis que dedicaram suas vidas à prática e ao estudo da filosofia. Aqui, além de esse primeiro tipo ser raro, existem "profissionais" que envergonhariam os sábios de outrora, que só não se reviram de indignação nos túmulos porque foram cremados. Em nosso país, o Yoga virou uma mercadoria usada por charlatões para enriquecer, seduzir e extorquir.

Desde novatos psicografando currículos anabolizados para impressionar potenciais clientes a temerários que ensinam o que ignoram e mestres facínoras, impera em algumas áreas do Yoga um certo clima de impunidade, de "liberou geral", no qual os oportunistas fazem a festa. Essas pessoas têm uma visão tão mequetrefe do Yoga que a prática acaba virando uma espécie de ginástica com incenso. É o que chamo de vira-latização do Yoga.

Na verdade, a presença de pessoas despreparadas ou mal intencionadas no Yoga não é nova. O Dattatreya Yogashastra, um antigo tratado sobre essa nobre filosofia, adverte: "Há algumas pessoas que dão discursos sobre Yoga ou ostentam os sinais do yogi, mas não praticam o que pregam. Estão enganando os demais, somente para obter benefícios e satisfazer seus desejos".

Nesse panorama de "vale-tudo" destacam-se, pela periculosidade, algumas seitas intolerantes, disfarçadas de redes franqueadoras autodenominadas "universidades", que tratam essa antiga filosofia como se fosse fast food e enxergam os praticantes como se fossem notas de dinheiro com pernas. Essas seitas com fins lucrativos oferecem um vasto leque de produtos, que vão desde formação profissional (para o bom entendedor, lavagem cerebral pura e simples) a sexo tântrico (leia-se lascívia desenfreada), sob a supervisão totalitária do mestre.

Espertamente, especializam-se no público jovem, mais fácil de manipular. Os adeptos são orientados a não misturar-se com pessoas de "nível energético inferior", não ler livros ou fazer práticas de outras formas de Yoga que a preconizada pelo líder e outras instruções que têm como objetivo alienar o indivíduo, enfraquecê-lo e torná-lo mais manipulável. Quando há algum questionamento em relação ao autoritarismo ou a pessoa se afasta da faixa etária ideal, ela é impedida de continuar freqüentando o curso, descartada como bagaço da laranja.

É lamentável, mas compreensível, ver a nossa juventude seduzida por esse tipo de ideologia reacionária. Essas seitas se apresentam sempre sob uma forma light e criam uma identidade com a linguagem, as atividades e as inquietudes dos jovens. No entanto, por trás do marketing enganoso, escondem-se a exigência de obediência cega, o doutrinamento, o culto da personalidade e a devoção ao mestre, estabelecida através de juramentos e outros rituais patéticos.

As palavras Yoga e seita são, por princípio, contraditórias. É impossível haver uma seita formada por yogis de verdade. Se ela existir, estará formada por um embusteiro e seus asseclas, sejam enganadores, sejam enganados. Pode um patife ditatorial e sedento de poder, que impõe o culto patológico a sua personalidade, ser um yogi? A resposta é não.

Cabe lembrar que o Yoga é uma ciência complexa e profunda que busca a realização do potencial humano. Essa realização é chamada nirvana, uma palavra sânscrita que significa literalmente "sem desejos", exatamente o contrário do que se preconiza nesse tipo de instituição. Praticar Yoga é levar uma vida que exige transformações profundas: desde o esforço por superar-se na prática e no cotidiano, aplicando a consciência a cada ação, até o cultivo das virtudes nos relacionamentos.

 

    COMENTÁRIOS

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  1. Thor

    Pedro, Será que poderia falar com você Pedro em Particular? Teria lagum email no qual posso lhe escrever? É muito pessoal o que quero lhe explanar. Obrigado, Thor.
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  2. Adonis

    Olá Pedro! Admiro muito sua vida! Excelente texto! Mas, tenho uma sugestão: Trocar o termo "Vira-latas" do título, porque lembra os animais, que nada tem a ver com as falcatruas citadas acima! E mesmo entre os animais, este termo soa errado, porque é o Ser Humano que transforma os animais domésticos no que eles são, tanto "os de raça" (bem cuidados) como os de rua (abandonados). Namastê!
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  3. Frederico Motta

    Este texto permanece atual, infelizmente. Muito obrigado por nos fazer refletir a respeito!
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  4. Adrian Vilas Bôas

    Li este texto há mais de dois anos na Superinteressante, e naquela época um sentimento de revolta se apossou das minhas emoções contra o autor do respectivo texto (Pedro Kupfer), simplesmente porque eu estava cego, fazia formação de instrutor nesta "Rede de Yoga Vira-Lata" e acreditava mesmo que aquela "seita disfarçada" era honesta, ética, e transmitia o verdadeiro Yoga Antigo... Pra vocês verem como a lavagem cerebral deles funciona, cheguei até a escrever pra Superinteressante me queixando do texto e do seu autor, ainda mais depois dos meus companheiros de seita afirmarem que o autor era um "dissidente da Rede", um "escorpião" que traiu o "mestre", que era viciado em drogas, e se ocupava em criar boatos para difamar a "Rede"... Quanta lorota! Aos poucos, e cada vez mais frequentemente, fui ampliando meu desconfiômetro, minha visão, estudando os livros "não-recomendados", e vi claramente que eu estava em uma "Matrix" e que precisava sair dela urgente!!! Foram quatro anos que passei nessa seita, dois deles ensinando e passando a mentira institucionalizada achando que era tudo verdade... Que karma! Ok, mudei esse karma, agora estou livre! Ao Pedro oferto meu pedido de desculpas (pela carta que outrora enviei à Superinteressante) e também um agradecimento pela sua seriedade e compromisso com a transmissão do verdadeiro Yoga. Harih Om!
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  5. Suani Armond

    Meu caro Pedro, esse site é gratificante para mim. Há um ano procuro me dedicar ao Yoga e à meditação. Embora a segunda seja mais complicada, eu não desisto, pois minha postura diante do mundo mudou tanto que não posso mais voltar atrás. Meu único problema é que não tenho grana pra bancar o Yoga. Então, pratico os asanas, pranayamas e a própria meditação em casa, através do estudo de livros, como os de Sandra Garcia e Vamberto Moraes, e de sites como esse. Sinto por isso, mas é o que posso fazer no momento. Como disse, não posso mais voltar atrás. Sei que seria muito melhor ter um mestre ou ir a um lugar especializado, mas, no momento, realmente não dá. Estou desempregada há bastante tempo, e, se não fosse pelo Yoga, eu já teria surtado. Meu ramo é o teatro, mas tenho procurado de tudo, e, assim que conseguir estabilidade, buscarei um local adequado para evoluir no caminho yogue. Agradeço muito ao Infinito por ter me apresentado a uma prática tão maravilhosa como a do Yoga, e também por existirem sites como esse para que eu possa aprender cada vez mais. Namastê.
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  6. Pedro Kupfer

    Cara Cláudia, concordo plenamente com você em relação à inutilidade de ignorar o desejo. No entanto, o espaço que o editor da Superinteressante (a convite de quem esse texto foi escrito) disponibilizou para o artigo era extremamente limitado, e tive que optar por simplificar ao máximo o texto e o que teria para dizer sobre esse ponto. Em verdade, o yogi não busca reprimir ou anular seus desejos, mas reconhecer que eles existem e trabalhar o desapego em relação a eles. O mesmo vale em relação a toda a vida psico-mental. A questão não é aniquilar os pensamentos ou sentimentos, mas a identificação (em sânscrito, "itaratra") com eles. Esse é meu entendimento. Harih Om!
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  7. Bruno Radesca

    Oi Pedro, tudo bem? Só recentemente eu comecei a pesquisar sobre Yoga, e logo no começo tive um "desafio" com as questões colocadas por ti acima. Desde o começo eu sempre quis achar um Mestre, mas um Mestre verdadeiro, que age pelo coração... Conforme tu mesmo citas, muitas pessoas supervalorizam seus "currículos", e essa pesquisa se tornou intensa, pois eu via currículo, mas não via alma... Para mim, o verdadeiro Yogue é aquele que está "caminhando", aprendendo e praticando seu caminho espiritual, que está aberto às lições de seus Mestres espirituais e aberto às lições trazidas por outros estudantes... Sendo, de coração, ao mesmo tempo Mestre e discípulo, ele pode desenvolver-se sozinho em seu caminho, mas, para se tornar um Mestre, terá que aprender a distribuir a sabedoria alcançada e aprender a sabedoria de outros Mestres... Em minha busca por um Mestre que pudesse me auxiliar, ao menos no início de minha caminhada pelo plano espiritual, me deparei pelos desafios citados por ti, mas que em meu aprendizado aprendi a ver com outros olhos. Esses chamados "mestres" profissionais estão tendo que aprender o Amor de seu conhecimento, visto ainda pela sociedade atual como valor material. Existem milhares de profissionais, mas poucos Mestres de espírito... Acredito que Deus irá me direcionar ao Mestre espiritual ideal, mas, por enquanto, ao menos para ser auxiliado e curado em minha postura básica. Estou praticando Iyengar e Hatha Yoga numa escola tradicional paulistana, chamada Narayana. Escolhi essa escola por algumas questões (localidade - ela é próxima da minha residência; tradicionalidade - existe a 4 décadas na cidade; pela recomendação de dois praticantes; por não encontrar um Mestre e querer começar logo as minhas práticas; e por ser o local que se aproximou mais do meu conceito de Yoga básico), porém uma escola não é, na minha "visão ocidental leiga", o local nem a forma de absorver a sabedoria ideal de prática... Mas, no momento, estou recebendo com Amor o "conhecimento de massa" dos Mestres que me foram enviados... Hari OM
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  8. Cláudia P. Motta

    Pedro, não quero fazer necessariamente um comentário, mas sim invocar uma ótica sobre a realidade que existe. Há de se conquistar o desapego dos desejos, mas seria tolice negar a existência deles. Não importa o caminho, haverá sempre uma hora em que teremos que decidir entre permanecer sob a escravidão de um apego e alcançar a libertação do que nos subjuga. Pode parecer contraditório, mas vejo um lado positivo em assumir nosso lado negativo. Há de se ter coragem. Vejo como o primeiro passo para a transmutação. Há de se aceitar o erro, entregar-se a ele, insistir nele. Até que um dia, ou alguma vida, após elaborar um novo saber, entre esse mal e o nosso bem, se possa seguir de um jeito diferente. Melhor e mais liberto. Sem esquecer, jamais, que não há erro maior do que negar a si próprio. "Antes de querer mudar o mundo, caminhe três vezes pela sua própria casa." (Provérbio chinês). Namastê, Cláudia.
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