O setor de emergências de um hospital público de Portugal não parece o melhor lugar para escrever um texto sobre rejuvenescimento.
Mas é justamente nesse lugar que comecei a pensar neste artigo, hoje de manhã, enquanto tentava me curar de uma gastroenterite, produto de comer fruta mal lavada.
À minha volta, uma série de velhinhas portuguesas, todas vestidas de negro, que certamente haviam sobrevivido aos seus maridos e aguardavam pacientemente comigo para ser atendidas.
Uma delas, especialmente encantadora, falava ocasionalmente, desde sua dor e meio aos gritos, “Não quero morrer! Não quero morrer!”
Dava para ver claramente que havia sido uma bela mulher nos seus anos de moça, mas agora era uma anciã enrugada e assustada, confinada a uma cadeira de rodas.
Essa frase me chamou a atenção, pois é justamente com essas palavras que Vyāsa, o comentarista do sábio Patañjali, ilustra a vontade de viver para sempre, bem como o medo de morrer, no seu comentário do Yogasūtra.
Sorri repetidas vezes para ela, quando percebia que me olhava, para tentar acalmá-la com esse bálsamo universal que é o sorriso compassivo, mas não sei se consegui: quando estamos dominados pela dor, como havia acabado de acontecer comigo, só queremos nos livrar dela e mais nada.
Naquele momento, já havia sido medicado e a dor absurda que havia sentido de manhã cedo havia cedido bastante.
Ela, diferentemente de mim, estava numa situação mais grave, sentindo bastante dor. Mas, havia algo de mágico e muito digno em sua presença, apesar da dor lancinante que evidentemente estava sentindo: ela não estava fingindo ser nem querendo parecer mais jovem do que era.
Pensei que, quando chegassa na idade dela, quereria tem a mesma venerabilidade e dignidade que lhe davam aquelas rugas e as roupas austeras.

Forever young?
Justamente ontem estava estudando por enésima vez o Yogasūtra de Patañjali, nos quais ele diz que um dos filhos da ignorância existencial, avidyā, é o medo de morrer. A esse respeito, o ensinamento que o sábio transimte diz que “abiniveśa é o medo de morrer, presente tanto no tolo quanto no sábio”.
O medo da morte, por sua vez, tem uma contraparte: a vontade de ser jovem para sempre. Embora esses dois impulsos sejam naturais e estejam pautados pelos instintos, devemos compreender que irão nos trazer problemas se nos deixarmos enfeitiçar por eles.
Existem verdadeira odes à essa forma peculiar de ignorância metafísica, como aquela canzoneta do Alphaville (anos 1980), chamada Forever young.
O autor, que a estas alturas já deve estar certamente gordinho e careca, canta alegremente: “por sempre jovem, eu quero ser por sempre jovem”.
E ainda, para piorar bastante a situação: I don’t want to perish like a fading horse | youth’s like diamonds in the sun | and diamonds are forever: “Não quero morrer como um cavalo cansado | A juventude é como diamantes ao sol | e os diamantes são eternos”.
Além da melodia ser insuportavelmente melosa, essa letra evidencia a absoluta ignorância do autor, que claramente, acha que envelhecer é um problema, manter-se jovem é bom e viver “por sempre jovem” é algo desejável.
Pontualizo aqui que não conheço a totalidade da letra dessa musiqueta e que posso estar sendo injusto em meu julgamento, mas enfim, vamos ao que interessa…
Vampiros, Anjos e o Surfista Prateado
O autor que cometeu essa canção não parou para pensar que a inevitabilidade da morte é, em verdade, algo desejável.
Na hipótese dele conseguir fazer um pacto com o diabo para conseguir a imortalidade no corpo, como os vampiros das lendas do leste europeu, ele veria seus amigos, amados, filhos e netos envelhecendo, perdendo o vigor e morrendo ao longo do tempo, enquanto constata que seu próprio corpo conserva.
Ora, qual é a graça de se viver “por sempre jovem”, se a finitude de vida é justamente o que dá graça ao viver?
Será que não podemos perceber que existe perfeição em todos os aspectos da vida que nos foi dada, e que o processo de envelhecimento não é apenas natural, mas igualmente desejável?
Quando nos flagramos tendo pensamentos desse tipo, precisamos prestar atenção, pois podemos estar sendo vítimas da ditadura do corpo jovem.
Não há nada mais chato que estar eternamente confinado num corpo que não envelhece e ver os humanos desfrutando as diferentes etapas da vida, com toda sua glória e miséria, como corresponde.
O anjo imortal que invejava a finitude dos humanos no filme de Wim Wenders, Asas do Desejo, pode testemunhar ao meu favor. Ele optou por abandonar suas asas e se juntar a nós nessa aventura que é viver a vida finita.
O Surfista Prateado, sozinho, atravessando as eras em sua prancha de luz, tampouco é um exemplo a ser invejado. Qual seria a graça de ficar surfando eternamente, mesmo se as ondas são cósmicas, se não tivermos os amigos do lado para desfrutar junto conosco?
Forever no corpo não existe. A dignidade sim
A outra tolice da ideia de viver para sempre no corpo contempla a hipótese daquele anjo ou vampiro testemunhar o fim da raça humana quando isso vier a acontecer, alguns bilhões de anos depois, o fim do sistema solar e, mais alguns bilhõezinhos depois, o próprio fim do universo.
Qual seria a graça de uma vida eterna confinado num corpo desses? Não consigo conceber nada mais entediante.
Quando aceitamos a finitude do corpo físico como algo desejável, relaxamos e nos tornamos capazes de desfrutar cada momento dentro do que ele é. Assim, não tentamos parecer aquilo que fomos algumas décadas atrás e aceitamos o corpo como ele é hoje.
Agora, a boa notícia é que você e eu, amigo leitor, somos sim imortais, mas não no corpo. A natureza da nossa imortalidade é muito mais interessante do que a hipótese de viver forever preso num corpo, como veremos logo mais.
A obsessão com o corpo
Nao se pretender mais jovem do que se é, se a aparência for um problema, é o primeiro passo em direção ao verdadeiro rejuvenescimento, ja que ele está baseado no princípio da veracidade, satya e não pode fugir dela.
Porém, claramente, a sociedade quer nos impor uma obrigação: a de sermos ou parecermos, mais jovens do que realmente somos.
Assim, quando a lei de gravidade começa a se fazer notar na forma do corpo, apelamos para uma dieta saudável, cosméticos, tinturas para o cabelo, cirurgias plásticas e, no último caso, recorremos ao velho e bom Photoshop, programa que retoca fotografias deixando a aparência da pele lisa como a cerâmica de um vaso sanitário.
Quem estamos tentando enganar se, quando nos olhamos no espelho, o programa de computação não pode esconder os sinais da passagem do tempo?
A solução: o desapego
A não-identificação com o corpo físico é a maneira de conviver bem com ele, independentemente da idade cronológica que tenhamos. A esse respeito, ensina a Vivekacūḍamaṇī:
“Identificando-se acima de tudo com o Eu universal, você conhecerá a paz que nada pode perturbar. Sem mais identificar-se com sua sombra, nem com a imagem que se reflete no espelho ou na água de um tanque, nem com o corpo imaginário que se toma em sonhos ou que se cria no devaneio, você tampouco deve identificar-se com este corpo vivo”.
Assim, cabe lembrar que somos Atma, o ser ilimitado, que não nasceu nem morre, que não pode ser, como diz a Bhagavadgītā, “nem queimado pelo fogo, nem molhado pela água, nem secado pelo vento”, pois já é, essencialmente, imortal.
Rejuvenescimento na prática de Haṭha Yoga
Tentemos ser objetivos: quando usamos a palavra rejuvenescimento, não estamos querendo dizer parecer mais jovem do que se é, mas olhando para um dos variados objetivos secundários das práticas de Haṭha Yoga.
Esse objetivo secundário é a capacidade que o Yoga tem de dar ao praticante mais longevidade e saúde, de forma que ele consiga tempo hábil nesta existência presente para realizar a mais alta aspiração humana: mokṣa, a liberdade.
Assim, a chave para compreender o benefício da prática está, não na identificação com o que ela nos dá em termos físicos, mas na aceitação desapegada desses resultados, sabendo que eles são transitórios e fugazes como a própria juventude.
Manter-se jovem no astral e nas atitudes é mais importante que ser ou parecer jovem, mas ficar se lamuriando ou cultivando atitudes de amargura, rancor ou remorso.
Têm adolescentes que são verdadeiros velhos rabugentos e velhinhos que têm uma contagiante alegria de viver. Tal é o caso do professor Hermógenes que, depois dos 80 anos de idade, continua sempre com o astral acima dos 8000 metros de altura.
Então, alegre-se de ter a idade que você tem, desfrute o que essa fase da vida lhe depara, com a atitude inocente e curiosa de uma criança e, se for o caso, com a dignidade que somente a idade pode nos dar, reconhecendo que a perfeição da vida inclui a aceitação daquilo que temos para viver em cada etapa.
॥ हरिः ॐ ॥
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