Pergunta: Swamiji, como é que podemos identificar a diferença entre um problema espiritual profundo e um problema psicológico?
Um exemplo de problema psicológico, diria, é achar que eu estou triste por nenhuma razão. Ou, de repente, eu acho que estou em pânico. Ou, se há algo um pouco estranho ou que me oprima, eu me sinto ameaçado. Talvez eu não possa estar no meio de multidões, então, fujo das pessoas. Ou talvez eu tenha medo de autoridade, que pode estar conectado a alguns problemas de infância ou a alguns problemas com meus pais. Estes são todos problemas psicológicos.
Um problema espiritual pode ser visto em alguém que tenha resolvido todos estes problemas psicológicos, na sua maior parte, mas que ainda esteja triste. Ele ou ela é considerado “normal”: pode interagir bem com as pessoas e assim por diante, mas está sujeito ao ioiô das próprias emoções: uma hora está no alto, outra hora está embaixo. Isto porque lá em baixo, há sempre uma auto-imagem que é tão boa em relação ao complexo corpo-mente-sentidos.
Como, então vamos resolver o problema? Há temor legítimo, raiva legítima, tristeza legítima: “legítimos”, porque a sociedade os aceita como tais. A psicologia moderna diz que a raiva é normal e que se deve ficar zangado quando uma situação em particular pede. Da mesma forma, existe um ciúme “normal” e uma tristeza “normal” e porque eles são “normais”, não há nada de errado com eles. Estes, então, nós resolvemos espiritualmente.
O Vedānta diz que não há motivo para aceitarmos a tristeza como algo “normal”. O uso da palavra “normal”, então, marca a diferença entre o problema psicológico e o problema espiritual. O Vedānta pode resolver um problema se a mente é mais ou menos normal. Mas, se a mente é anormal, o Vedānta não pode ajudar porque a pessoa não consegue lidar com o que interessa: não vai dar certo. Se, no entanto, a pessoa é incapaz de entender o que o Vedānta está dizendo, mas fica com ele e segue todas as atitudes e valores corretamente, então ele pode ajudar.
O Vedānta em si tem a sua própria abordagem para a ordem psicológica que inclui uma maneira de se relacionar com raga-dvesa, os gostos e aversões), oração, meditação e uma compreensão sobre os valores. Se alguém adota o Vedānta e segue os valores, ele pode ajudar. Considero que isso seja a melhor abordagem.
Por outro lado, o Vedānta não tem nenhuma resposta para a psicologia anormal. Não pode ajudar pessoas que padecem de esquizofrenia, por exemplo. O ensinamento só irá confundi-las, de fato, e portanto é prejudicial. E é por isso que, originalmente, na Índia, ainda hoje, há aqueles que não irão ensinar Vedānta para qualquer um. Somente quando o guru fica convencido de que a mente está preparada é que ele vai ensinar a pessoa.
Isto era uma prática comum, que ainda é usada hoje, tanto é que quando um homem com a mente despreparada veio até um professor em Rishikesh, no norte da Índia, o professor disse que iria enviá-lo a pé, para Rameswaram, que fica bem ao sul. Foi-lhe informado para ir e voltar sem dinheiro. “Depois disso é que vou lhe ensinar”, disse o professor. A ideia era que pelo tempo que ele levasse para voltar, ele ainda estaria normal, caso ele retornasse.
Do norte ao sul da Índia, há algumas milhares de milhas, o que leva cerca de cinco anos para um homem retornar. E qualquer coisa pode acontecer com ele no caminho, até o casamento. Isso também é “normal”, principalmente se ele não tiver muito desapego em relação ao mundo. Ou ele pode até se tornar tão anormal para acabar numa instituição psiquiátrica. Ou ainda, ele pode até tentar encontrar outro guru que o ensinará imediatamente. De qualquer forma, o professor que o enviou nesta jornada está satisfeito.
Oṁ tat sat.
Tradução de Humberto Meneghin: www.yogaemvoga.blogspot.com.
Continue a leitura no yoga.pro.br: Liberdade · O problema é você, a solução é você. Parte I · Ação e Reação, Parte II
Mais textos em Vedānta.


Deixe um comentário