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Privilégio e Responsabilidade

Por Swāmi Dayānanda Saraswatī 3 de junho de 2015 5 minutos de leitura

Responsabilidade e privilégio de sermos livres

Você pode julgar, pode exercer a sua liberdade, e tem a capacidade de acertar ou errar. Isso é liberdade. Liberdade total para julgar, e liberdade para se equivocar.

Assim, você é um ser autoconsciente. Um macaco também é um ser consciente, de si mesmo e dos demais. Ele também tem autoidentidade.

Um cachorro não se equivoca: ele nunca vai confundir outro cachorro com um gato. Um dogue alemão se cruza com um chihuaua. Ele nunca vai pensar que o chihuaua é um gato. Você é tão livre que até pode pensar ser um gato ou um cachorro.

Um camarada imagina ser um gato e não sai à rua porque não quer ser mordido pelos cachorros.

É levado ao psiquiatra, que lhe coloca um espelho à frente e pergunta: “quem é este que você está vendo o reflexo? E o que é isto?”, mostrando-lhe um gato. Ele responde: “É um gato.”

E o médico replica: “Você é um gato, você tem cara de gato?” O paciente responde: “Não, não sou um gato”. O psiquiatra dá o homem de alta e ele volta para a casa.

Mas ele continua sem sair. É levado novamente para o médico e explica: “Eu sei que não sou um gato, mas os cachorros da rua não sabem!”.

Assim, você tem liberdade para pensar ou fazer qualquer coisa. Aquilo que você pode usar e do que pode abusar é a liberdade. A liberdade pode ser bem usada, mas você também pode negligenciá-la ou até mesmo abusar dela.

A consciência de si mesmo e do mundo, somada à capacidade de julgar, é aquilo que nos torna humanos.

Um cachorro é consciente de si e do mundo, mas não tem livre arbítrio nem capacidade de julgar ou autojulgar. Portanto, não tem responsabilidade.

O cachorro não sabe a razão da alegria ou da tristeza do seu dono. Algumas pessoas poderiam pensar que isso é uma bênção, já que o cachorro parece ser feliz sendo um cachorro, e o gato parece ser feliz sendo um gato, mas o ser humano não é feliz sendo humano.

Uma senhora indiana migrou para o Canadá. Eu estava passando pela cidade dela e aceitei um convite para almoçar na casa dela, que era muito luxosa. Perguntei no que ela trabalhava.

Contou-me que era esteticista, que sua especialidade era depilar sobrancelhas. Ainda me mostrou um cartaz publicitário da sua atividade. Ela tinha construído uma casa enorme só aparando sobrancelhas. Fiquei impressionado.

Isso nos mostra o quanto o ser humano tem um conflito em relação à própria imagem: as pessoas negam a sua aparência e gastam fortunas para mudá-la.

Um macaco jamais teria esse tipo de conflito, nem iria sofrer por causa disso. Essa situação dos humanos é o produto do autojulgamento.

Se você é um animal não tem liberdade. Você é governado pelos seus próprios instintos. Você não pode desfrutar um livro. O privilégio de ser livre vem junto com uma certa mínima compreensão de como viver a vida. O ser humano precisa desse conhecimento mínimo.

Até mesmo para ser operador de telefonia você precisa de treinamento. Para ser mãe ou pai você precisa de conhecimento. Sem conhecimento, sem treinamento de algum tipo você não consegue fazer nada.

Responsabilidade

Viver a vida implica conhecer, pois sem conhecimento, desfrutar o privilégio de ser livre fica reduzido a nada. Assim, um conhecimento mínimo é necessário.

Vamos ver o que isso significa. Um conhecimento mínimo para viver o meu cotidiano, para viver meu dia-a-dia. Não a algo que possamos chamar de vida espiritual ou vida divina.

O cotidiano pode ser complexo, estressante, doloroso, cansativo, mas é possível viver a espiritualidade no cotidiano se tivermos esse conhecimento mínimo.

A responsabilidade de ser livre

Quando você dirige um carro precisa ter cuidado para não bater em ninguém, pois bater nos demais ou nos carros dos demais significa igualmente bater seu próprio carro.

Precisamos, assim, aprender a viver a vida sem ferir os demais e sem sermos feridos pelo que outrem possam fazer. Isso é responsabilidade.

Como ser autoconsciente, eu me defronto com situações variadas. Não posso designar alguém para enfrentar essas situações pois, se houver um representante meu, eu teria mesmo assim que me relacionar com ele.

No cotidiano você não pode pedir que alguém viva em seu lugar. Sua presença é invariável, em todas as situações, sejam prazerosas ou não (iṣṭam ou aniṣṭam).

Essas situações nos afetam, assim como nós afetamos elas e aos demais que estejam envolvidos. Sua presença está incluída no mundo dos demais.

Assim, todos contribuímos, mesmo que de maneira absolutamente involuntária, para magoar os demais, assim como eles nos magoam mesmo sem saber. Até mesmo aqueles que dizem “te amo” nos magoam.

Subjazendo nisso à uma certa falta de conhecimento em relação a como se relacionar com as pessoas e com as situações. Esse tipo de ignorância é incrível. E esse conhecimento mínimo é aquilo que as pessoas chamam de “conhecimento espiritual”.

Mas nós podemos chamar isso apenas de vida normal. A espiritualidade, de fato, nos ajuda a mudar as nossas atitudes. Mas podemos prescindir desse tipo de adjetivo. Podemos simplificar as coisas.

É fato que sou afetado pelo mundo. Desde que não tenho um escudo, posso me sentir insignificante, posso dizer que o mundo é muito grande para mim.

Numa estrada esburacada, quando você vai numa van sem amortecedores, você absorve o impacto dos buracos. Ora, acontece que seu corpo não foi feito para absorver esse impacto.

Você precisa ter amortecedores que lhe protejam das coisas do mundo. Deveria haver um fator que possa isolar você de se ferir, de ser afetado e sofrer pelo que acontece à sua volta.

Esse sofrimento acontece porque não há uma compreensão básica dos fatos, do que significa estar vivo, do que é o mundo, o que são as pessoas e o que são os relações. Você pode sim, ter esses amortecedores, esse isolamento que lhe ajude a viver em paz. Com responsabilidade.

॥ हरिः ॐ ॥

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॥ हरिः ॐ ॥

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Swāmi Dayānanda Saraswatī

Swāmi Dayānanda Saraswatī (1930-2015) ensinou a sabedoria tradicional do Vedanta por cinco décadas, na Índia e em todo o mundo. Seu sucesso como professor é evidente no sucesso dos seus alunos: mais de 100 deles são agora Swāmis, altamente respeitados como estudiosos e professores.

Dentro da comunidade hindu, ele trabalhou para criar harmonia, fundando o Hindu Dharma Acharya Sabha, onde chefes de diferentes seitas podem se reunir para aprender uns com os outros.

Na comunidade religiosa maior, ele também fez grandes progressos em direção à cooperação, convocando o primeiro Congresso Mundial para a Preservação da Diversidade Religiosa.

No entanto, o trabalho de Swāmi Dayānanda não se limitou à comunidade religiosa. Ele é o fundador e um membro executivo ativo do All India Movement (AIM) for Seva.

Desde 2000, a AIM vem trazendo assistência médica, educação, alimentação e infraestrutura para as pessoas que vivem nas áreas mais remotas da Índia.

Havendo crescido em uma pequena vila rural, ele próprio entendeu os desafios particulares de acessar a ajuda enfrentada por pessoas de fora das cidades. Hoje, o AIM for Seva estima ter ajudado mais de dois milhões de pessoas necessitadas em todo o território indiano.

2 respostas

  1. Daniela Neves

    Equanimidade, Autojulgamento e Aceitação…

  2. mariana diniz

    Resumo de minha existência

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