Bronze (Bengala, período Pāla, séc. XI–XII): Viṣṇu com Cakrapuruṣa e Śaṅkhapuruṣa

Os 3 Corpos do Ser Humano

Por Pedro Kupfer 23 de junho de 2020 9 minutos de leitura

A perspectiva yogika afirma que a individualidade humana vá muito além da dimensão material do corpo físico. O Tantra e o Vedānta coincidem com o Yoga nessa visão.

Segundo ela, o ser humano está constituído por três corpos superpostos diferentes, que interagem constantemente entre si: o físico, o sutil e o causal.

Os três corpos

Esses três corpos, chamados conjuntamente śarīratraya ou “corpo tríplice” ou trikaya, “três corpos”, funcionam como veículos para a manifestação do Ser, Ātma.

Cada corpo é um campo que vibra em uma freqüência diferente. Eles recebem o nome de śarīra, embora o segundo e o terceiro não sejam corpos no sentido material.

A palavra śarīra  significa literalmente “aquilo que decai”, e se refere ao fato de que os śarīras são veículos transitórios, nos quais se manifesta momentaneamente Ātma, que é invariável e eterno.

Esses corpos são:

  1. Sthūlaśarīra, o corpo físico denso, que corresponde à vigília.
  2. Sukṣmaśarīra, o corpo sutil, que corresponde ao sonho.
  3. Kāraṇaśarīra, o corpo causal, que corresponde ao sono.

Na tradição do Yoga coloca-se uma parábola simples para compreender os três corpos e as suas funções. Pense no fruto do tamarindo: a casca é o corpo fisico, a polpa é o corpo sutil, e a semente é o corpo causal.

A casca protege e preserva o conteúdo. A polpa alimenta e nutre. A semente garante a continuidade da vida. Ātma é o Ser, a Presença em torno da qual se auto-organiza o corpomente.

Ātma não é uma porção do corpomente, nem está em nenhum lugar limitado dentro dele, mas é a própria base da sua existência. Portanto, Ātma não é casca, nem polpa nem semente: Ātma é a presença, a base graças à qual o tamarindo existe.

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Os três corpos e os cinco kośas

O modelo dos três śarīras aparece associado e sempre sobreposto a outro modelo: o dos cinco kośas. Eles são mencionados na Taittirīyopaniṣad, um dos mais antigos textos sobre a espiritualidade da Índia.

Os cinco kośas “invólucros” ou “camadas” são os seguintes: annamayakośa, prāṇamayakośa, manomayakośa, vijñānamayakośa e ānandamayakośa.

Respectivamente, alimento, bioenergia, mente, intelecto e ignorância existencial. (Embora o nome ānandamayakośa apareça muitas vezes associado a felicidade ou plenitude, ele se refere ao poder de ocultação da ignorância existencial, como veremos no fim deste texto).

Os 3 Corpos do Ser Humano

O annamayakośa, a “camada de alimento“, corresponde ao corpo físico denso, sthūlaśarīra. O grupo central dos três kośas (prāṇamayakośa, manomayakośa e vijñānamayakośa) corresponde ao corpo sutil. O ānandamayakośa coincide com o corpo causal.

O corpo físico

O corpo físico denso ou sthūlaśarīra é carne e osso, tecidos, células, moléculas e átomos. É o palco das experiências do indivíduo. É o que se move, age e respira. A ele corresponde o annamayakośa, a camada feita de ‘alimento’.

Jīva, a individualidade, se identifica com o corpo denso e as suas experiências no estado de vigília.

Este corpo denso serve como suporte para os outros dois, que são mais sutis, e está constituído por cinco elementos, cinco órgãos dos sentidos e cinco órgãos de ação.

O sthūlaśarīra está constituído por cinco tattvas ou elementos densos, também chamados bhūtas. Eles são, do sutil ao denso: espaço, ar, fogo, água e terra. Em sânscrito, ākaśa, vāyu, agni, apaḥ e pṛthivī.

O corpo sutil

O corpo sutil ou sūkṣmaśarīra é invisível para o olhar externo: como é feito de pensamentos, dentre outros componentes, está disponível apenas para a apreciação da própria pessoa.

Está formado pelas três camadas ou kośas que mencionamos acima: energia, pensamento e conhecimento. Respectivamente, prāṇamayakośa, manomayakośa e vijñānamayakośa.

O indivíduo vive identificado com o corpo sutil e as suas experiências no estado onírico, ao sonhar.

Os elementos que configuram o corpo sutil são os seguintes: cinco formas de vitalidade, cinco órgãos de ação, cinco órgãos de conhecimento e ainda, quatro faculdades psíquicas.

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As cinco formas de vitalidade são chamadas vāyus ou “ares vitais”. Elas são as funções que a energia vital assume ao circular pelo corpo físico.

Cada uma delas realiza uma tarefa: prāṇavāyu é responsável pela captação da vitalidade, da inspiração, apānavāyu regula os processos de excreção ou expulsão, samānavāyu é a função que assimila o nutriente, fisico ou sensorial, udānavāyu determina a circulação da vitalidade  e vyānavāyu, que regula o crescimento.

O órgão interno, antaḥkaraṇa, consta de quatro tattvas ou componentes: inteligência, chamada buddhi, o ego, ahaṅkāra, a mente, denominada manas e por último citta, a memória. 

Os cinco órgãos de conhecimento, jñānendriyas, do sutil ao denso, são: os ouvidos, a pele, os olhos, a língua e o nariz: śrotra, tvāk, caksus, rasana e ghrāna.

Os cinco órgãos de ação, karmendriyas, do mais sutil ao mais denso, são os seguintes: fala, preensão, locomoção, reprodução e excreção: vāk, pāni, pāda, upaṣṭhā e pāyu.

O antaḥkaraṇa é o conjunto das funções que permitem ao homem conhecer refletir, interpretar e traçar o próprio rumo, à diferença dos animais, cuja conduta está pautada unicamente pelos instintos.

O corpo causal

O corpo causal ou kāraṇaśarīra é o que dá sentido à existência dos anteriores. O nome “causal” mostra a conexão deste corpo com a razão do nascimento da pessoa.

O corpo causal é uma espécie de “mochila kármica”, uma bagagem que migra de corpo em corpo e determina cada nascimento de cada indivíduo.

Essa “mochila” vem carregada com os impulsos e tendências subconscientes, chamadas vāsanās e saṁskāras, que são as sementes dos desejos que irão, por sua vez, determinar as ações.

Ādi Śaṅkarācārya esclarece o kāraṇaśarīra no Tattvabodha:

“O corpo causal não possui uma forma [definida]. Existe por causa da ignorância existencial, que não tem início. Ele é a causa dos outros dois corpos, que se manifestam para realizar os desejos [subconscientes] do indivíduo.

“A natureza deste corpo é a própria ignorância em relação a si mesmo (Ātma), basicamente porque não há o discernimento entre sujeito e objeto.”

O kāraṇaśarīra está vinculado com o quinto e mais sutil dos kośas, ānandamaya. Embora muitas vezes o nome ānandamayakośa apareça traduzido com “corpo de felicidade ou plenitude”, essa tradução não é correta.

Ānandamayakośa  é a causa mais sutil da nescência, da ignorância existencial. A esse respeito, esclarece-nos Ādi Śaṅkarācārya no Tattvabodha:

“Este ānandamayakośa é aquele que é sustentado pela ignorância [sobre si mesmo], que é a razão pela qual o corpo causal existe. Consiste de sattva impuro”.

Por paradoxal que pareça o grande sábio usar a expressão “sattva impuro”, ela se faz necessária para indicar a diferença existente entre Ānanda, a Plenitude Intrínseca ao Ser, e sattva, uma experiência de felicidade que vem e vai.

O corpo causal está associado com a experiência do sono profundo, nidrā.  Nesse sentido, essa experiência de plenitude que temos quando a mente se desliga durante o sono é algo prazeroso, que todos aprendemos a apreciar.

Porque gostamos tanto de dormir? Pois no sono profundo surge essa experiência sáttvica, que nos traz regozijo e paz, e nos conecta com essa harmonia.

Porém, não devemos confundir, como nos advertiu Śaṅkara, essa experiência peculiar onde a mente se desliga, com a nossa própria natureza.

Enquanto o corpo físico pode ser visto por todos os demais corpomentes e o corpo sutil pode ser visto apenas por cada um, o corpo causal nunca está disponível para a apreciação sensorial, nem mesmo da própria pessoa.

Conclusão

Ādi Śaṅkarācārya encerra a sua explanação no Tattvabodha sobre os corpos dizendo o seguinte:

“Assim como um bracelete, um brinco, uma casa e demais objetos são reconhecidos como “meus”, e portanto, diferentes de mim, a mesma conta corresponde àquilo que é composto pelos cinco kośas.

“Reconhecidos como “meus”: o meu corpo, os meus sentidos, a minha mente, o meu intelecto e a minha ignorância. Todos eles não sou eu, Ātma.”

Nenhum dos três corpos é Ātma. Nenhum dos três śarīras pode trazer felicidade,  pelas seguintes razões: estão sempre sujeitos à mudança, não tem existência separada do Ser, são limitados e mudam constantemente.

Tanto o modelo dos três śarīras como o dos cinco kośas, têm como propósito explicar a psiquê  humana e a correlação entre os estados de consciência e os elementos do corpomente.

Isso quer dizer que basta-nos com compreender a individualidade que somos enquanto seres humanos encarnados nestes corpos.

Não precisamos, portanto, preocupar-nos com buscar algum tipo de experiência ou fugir de algum tipo de vivência em relação aos śarīras, já que todas e cada uma das experiências e vivências que eles nos possibilitam são, afinal, experiências e vivências de Ātma.

O Ser é a base, o sustento da existência do universo e do próprio corpomente, está presente em todos os elementos, em todas as faculdades, em todos os momentos e em todos os lugares.

Basta-nos esse reconhecimento de sermos o Ser, a Presença Simples que tudo ilumina.

॥ हरिः ॐ ॥

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॥ हरिः ॐ ॥

Continue a leitura no yoga.pro.br: Compreendendo Ānandamayakośa · O Homem Segundo a Filosofia Védica · Identificando desequilíbrios nos cinco koshas
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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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3 respostas

  1. Renumeracao do corpo em exercício comtinuo wagner

  2. ENI DE OLIVEIRA OSSO

    Muito bom, gratidão Pedro

  3. Roberta Policarpo Barreto

    Como ficam os koshas tântricos nessa perspectiva dos três corpos vedânticos?

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