Iluminação é samādhi?
A tradição yogika conhece dois caminhos diferentes que conduzem à iluminação. Destes, o primeiro é o da prática constante e o desapego (abhyāsa e vairāgyaṁ), postulado por Patañjali no Yogasūtra.
O segundo caminho propõe a iluminação como forma de vida e é chamado Karmayoga, ou o Yoga das Ações. Nós preferimos chamá-lo Yoga da Vida. Nesse caminho, iluminar-se não significa negar ou ficar de costas para o corpo e para a vida no mundo.
A experiência da libertação e a existência no mundo são perfeitamente compatíveis. Essa possibilidade de levar uma vida onde a iluminação flua no cotidiano, então, é o Karmayoga.
Quando falamos aqui em iluminação, não estamos a nos referir ao samādhi, aquela experiência meditativa que muitos confundem com o objetivo do Yoga. A meta do Yoga não é um estado meditativo, nem uma absorção, nem nada do gênero, mas mokṣa, a liberdade.
O samādhi é uma peculiar absorção na qual a dicotomia sujeito-objeto, característica do estado de vigília, é temporariamente abandonada através da identificação total do meditador com o objeto da meditação.
Essa experiência, como todas as demais, tem um início, um meio e um fim. Portanto, experienciar o samādhi não é garantia de paz contínua nem a solução para atenuar as aflições.
Fatalmente, após esta profunda experiência, existe a volta às experiências do corpo, da mente e do ego.
Tudo continua como estava antes: os medos, os condicionamentos e o sofrimento voltam à tona. Tornar-se mais forte do que as próprias fraquezas é tarefa das mais árduas, pois a identificação com a dualidade é um hábito do qual é extremamente difícil libertar-se.
É por isso que algumas tradições yogikas não dualistas, tanto tântricas quanto vedānticas, negam enfaticamente a necessidade de buscar essas experiências. Elas não são nem definitivas nem duradouras.
A ideia é que não devemos libertar-nos do mundo, mas no mundo. O mundo não é algo diferente de nós mesmos, do qual devamos fugir.
O mundo é uma projeção do poder da Consciência Ilimitada, igualmente presente em tudo e em todos. Portanto, tudo é sagrado.

O Tripura Rahasya e a iluminação espontânea
Essa atitude, revolucionária em termos do que se entende por prática de Yoga atualmente, está belamente expressada num śāstra do tantrismo śaktādvaita (śaktismo não-dualista) chamado Tripura Rahasya (“O Segredo das Três Cidades”) e atribuído ao sábio Śrī Dattatreya.
Este texto narra a história do príncipe Hemacuda e a princesa Hemalekha, do reino de Videha e tem como objetivo demonstrar que nem sequer mil samādhis conseguem tirar a pessoa da rede de seus próprios karmas e samskāras.
A história é a seguinte. Um dia, o príncipe estava caçando na floresta quando foi supreendido por uma forte tormenta. Vislumbrando em meio à chuva, a ermida de um sábio no alto de uma montanha, tomou a decisão de refugiar-se nela.
A bela filha do sábio, Hemalekha, abriu a porta e deu-lhe as boas-vindas. O príncipe apaixonou-se imediatamente pela moça sua mão em casamento. Obtida a aprovação do pai, eles casaram.
O tempo passou e, apesar de Hemalekha ser uma ótima esposa, bondosa e atenta, parecia não compartilhar a paixão pela vida que seu marido exibia.
Pelo contrário, estava sempre serena, e um pouco ausente, como que indiferente, tanto perante as coisas boas, quanto perante as coisas indesejáveis que acontecessem.
Isso produziu uma certa frustração no apaixonado príncipe, que, interrogando-a, obteve uma resposta que era, ao mesmo tempo, um pedido: “Estou em busca da felicidade eterna. Por favor, ajude-me a encontrá-la”.
De início, o príncipe achou que o pedido de sua esposa era absurdo e começou a questioná-la. Ao perceber a penetrante sabedoria de suas respostas, descobriu que estava tendo com ela o diálogo mais profundo que jamais tivera e vislumbrando coisas nas quais nunca tinha pensado antes.
Como resultado desse diálogo, o príncipe entrou numa profunda crise existencial e acabou por fechar-se em seu quarto para encontrar a iluminação. Não tardou muito em atingir e dominar o samādhi.
Uma vez, quando a princesa foi visitá-lo em um dos raros momentos em que ele estava fora desse estado transcendental, ele disse: “Alcancei a felicidade perfeita do samādhi”.
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Porém, novamente, a bela e sábia Hemalekha, com sua profunda acuidade, demonstrou-lhe tranqüilamente que estava enganado. Disse-lhe então:
“Meu querido, creio que você ainda não aprendeu nada. Você está tão longe da iluminação quanto o reflexo das estrelas numa poça d’água está do céu, pois somente experiencia essa plenitude quando está sentado meditando. Que tipo de iluminação é essa que se dissolve quando você abre os olhos e se levanta?”
A princesa argumentou que, se ele precisava ainda concentrar-se tanto para entrar em samādhi, não tinha conquistado a iluminação real, a verdadeira felicidade.
Todavia, fez o príncipe perceber que o Ilimitado que estava procurando não era apenas ele próprio, mas igualmente todas as criaturas e todas as coisas.
Finalmente, revelou-lhe que o objetivo verdadeiro e secreto do Yoga é a felicidade real do sahaja samādhi, o samādhi espontâneo de manter a consciência da liberdade a cada momento.
Como resultado da aplicação desses ensinamentos, Hemacuda alcançou a verdadeira iluminação através do sahaja samādhi.
Naturalmente, também percebeu que sua esposa já havia alcançado esse estado havia tempos e ficou devidamente grato a ela. Assim governaram na paz do samādhi espontâneo, e todos no reino foram felizes.
Sahaja significa em sânscrito ‘nascer junto’. Esse termo faz referência à união de dois pólos: mukti e bhukti, a libertação e a experiência no mundo. Assim, sahaja samādhi é mokṣa, é a iluminação no dia-a-dia.
A esse respeito, o sábio Yājñavālkya nos diz na Aṣṭavakragītā, II:1-2:
Eu sou a pura e serena Consciência, mais além da natureza.
Durante muito tempo fui cegado pela ignorância.
Como o Único, ilumino este corpo e o mundo.
Possuo o mundo inteiro e, em verdade, nada possuo.
॥ हरिः ॐ ॥
Leia o Tripura Rahasya aqui
Leia o Vijñānabhairava Tantra aqui
॥ हरिः ॐ ॥
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