Guache indiano: dois yogis: um medita, o outro faz um rito do fogo

Agora, o Yoga!

Por Rafaela Bentes 8 de junho de 2009 4 minutos de leitura

Yoga agora

Atha yogānuśāsanam. Este é o primeiro sūtra do Yogasūtra  de Patañjali, uma espécie de “Bíblia do Yoga”. Sabemos que para entender esse importante texto, precisamos ler as entrelinhas, refletir. A palavra atha significa “agora” e anuśāsanam, “ensinamento”. Poderíamos traduzir esse sūtra assim: ‘Agora, o ensinamento do Yoga’.

Como a proposta desse texto não é discutir a tradução do sūtra, gostaríamos de expor aqui uma interpretação prática dessa frase. O que podemos observar no cotidiano, na vida. Então, tomaremos esta frase vista desde suas implicações práticas: ‘Agora começa o Yoga’.

Se agora, nesse momento o ensinamento do Yoga começa, pressupõe-se que algo já foi ensinado antes. Como se depois de tudo que passamos e vivemos, estivéssemos prontos nesse momento para que o ensinamento do Yoga comece.

A maioria de nós não começa a estudar o Yoga já sabendo o que é essa vasta cultura. Tampouco sente incoerência ao longo do seu aprendizado na prática de meditação, āsanas, prāṇāyāmas e na vida, pois tudo isso parece fazer muito sentido quando o ensinamento é passado de forma adequada. Isso porque aprendemos que nós já somos Yoga, e essa é a nossa verdadeira natureza.

Pintura do Sul da Índia: Patañjali, meio homem e meio serpente, e Vyāghrapāda, de pernas de tigre, de mãos postas diante de Śiva Naṭarāja
Patañjali e Vyāghrapāda, detalhe de uma pintura do Sul da Índia, séc. XIX. Domínio público.

Pedro Kupfer escreveu uma vez: ‘O Yoga é como o silêncio. Como você faz silêncio? Você não faz silencio. O silêncio já está feito! Você só evita fazer ruído. O silêncio sempre esteve aí. Com o Yoga é igual.’

Se já somos aquilo que procuramos, se já somos felicidade, plenitude, amor, talvez Patañjali esteja apenas nos alertando para pararmos de nos identificar com as nossas preocupações, medos e condicionamentos pois, dessa forma, poderemos entrar no estado de Yoga.

Podemos pensar também que a cada momento, a cada situação, a cada oportunidade começa o Yoga. Essa visão deixa tudo muito mais prático e “pé no chão”. Ao acordar começa o Yoga, ao lavar a louça começa o ensinamento do Yoga e assim em tudo que fizermos.

Porém, a Katha Upaniṣad, VI, já nos chamava a atenção: ‘Mas deve-se estar atento, pois o estado de Yoga vem e vai’. Sabiamente o autor do Yoga Sūtra nos lembra com o primeiro aforismo. Se esse estado vem e vai, temos a possibilidade de trazê-lo de volta a tona quando estamos atentos e conscientes a isto.

Temos o livre arbítrio para escolhermos se queremos agir para entrar e manter o estado ou se queremos estar longe dessa paz, que é o que já somos. E isso não importa se somos praticantes iniciantes, avançados, professores, esposas, filho, indivíduos. Sendo o Yoga a escolha de levar a vida, tudo que meu corpo experiencia e vivencia é motivo para colocar o ensinamento em prática.

Conscientes de cada instante, de cada inspiração e expiração, de cada palavra e pensamento, eternizando os momentos únicos que passamos.

Quando saímos de uma sala de Yoga estamos sempre diferentes de quando entramos. A nossa bagagem individual de tudo que vivemos até então é base para esse ensinamento acontecer. Parece então, que desde o nascimento nós já estamos trabalhando nesse caminho yogi e que tudo é substrato para observação. Então quando estamos prontos, aí sim começa o Yoga.

Ao identificarmos no nosso dia a dia os momentos, além dos que presenciamos na sala de prática, que nos proporcionam paz, amor, plenitude, percebemos que somos levados e nos mantemos no estado de Yoga com ações diárias.

Quando nos afastamos desse estado, devemos observar o que levou ao afastamento da tranqüilidade. Assim, a mudança sobre a forma de pensar, responder, agir, para que proporcionemos a nós mesmos estar em paz, acontece nas causas dessas ações que muitas vezes são mecanizadas.

Cabe a nós o discernimento para que nossas escolhas sejam coerentes e nos possibilitem a permanência no estado de Yoga.

Concluindo, devemos estar atentos a tudo que acontece, percebendo essa gama de oportunidades que temos para aprender a conviver em harmonia com os demais seres e com nossas próprias limitações.

Além disso, pensar que sempre é possível estar em Yoga, tentando agir e reagir da melhor maneira possível. Então, a cada momento devemos procurar estar relaxadamente presentes e conscientes. Isso para que em todo instante, assim como agora começa o Yoga. Namaste. 

॥ हरिः ॐ ॥

+ sūtras aqui e aqui

Continue a leitura no yoga.pro.br: Yoga, agora. Yogasūtra, I:1 · O que é o Yoga? · Como aplicar pratyahara no mundo de hoje?
Mais textos em Começando.

11
Compartilhar:WhatsApp

5 respostas

  1. Silvia Gonçalves da silva

    Comecei a me interessar faz 15 dias e já me vejo o quanto estou aprisonada quanto eu estou querendo me libertar dessa prissaõ toxica que eu vivo dentro de mim presa em uma educação maldosa da sociedade de escravidaõ mental. Me sinto sem ar somente de ler sua maravilhosa palavras já me sinto num caminho que não existia saída. Me vejo livre aprendendo com você. Ainda não tenho condições e fazer todos curso mais eu chego aí. Obrigada

  2. Antônio Carlos Cropalato Di Tullio

    OM Shanti🙏 Cheguei aqui de surpresa e gostei muito do que li, gratidão. Namastê 🙏

  3. Renata Soares

    Texto bárbaro e inspirador!
    Gratidão! Namastê!

  4. É de se esperar essas lindas palavras da Rafa. Ela realmente é o que ela escreve. Admiro seu trabalho e sua dedicação! Beijos, Dany.

  5. Daniela Pinto

    Rafinha querida, nao me supreende que texto tao lucido e inspirador tenha vindo de voce! Parabens e obrigada pelas palavras! Que sigamos sempre juntos assim :estudando, refletindo, conquistando novos horizontes e praticando o yoga AGORA porque essa e a nossa hora… Mil beijos e saudades, Dani x

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pelas nervuras da folha

Para continuar

Estudar os textos com companhia

Na Formação em Yoga, os textos clássicos são lidos verso a verso, junto com a prática. A próxima turma começa em julho de 2027. Há uma aula experimental gravada, gratuita, para conhecer a abordagem.

Hanumān, em desenho a traço

Gostou deste texto?

Receba quinzenalmente uma mensagem com os próximos artigos do Pedro, novos recursos e conteúdos no seu e-mail.

Sem spam nem anúncios; cancele quando quiser, pelo link em cada e-mail. Política de Privacidade