Este texto tem como propósito trazer uma reflexão sobre a maneira em que os yogins olhamos para o nosso texto seminal, o Yogasūtra.
Levando em conta que nosso ponto de partida é reconsiderar a definição de Yoga neste importante texto, devemos, desde já, adiantar que o assunto pode suscitar uma polêmica, já que questiona alguns “dogmas” tidos como sacrossantos pela imensa maioria da nação yogika.
Todos já ouvimos dizer no mundo do Yoga que a compreensão do Yogasūtra de Patañjali é essencial para o progresso na prática.
Este texto, sobre cuja origem e autor tudo se ignora, parece datar da era entre Buda e Cristo. Alguns autores afirmam que ele tenha sido escrito nos séculos IV ou III a.C., enquanto que outros o datam no século II. d.C.
Existem muitas traduções e interpretações diferentes para línguas ocidentais, feitas por estudiosos, especialistas, indólogos e sanscritistas, a partir do século XIX. Até hoje continuam sendo lançadas novas edições deste importante texto.
O problema é que a maioria delas é feita por pessoas que, apesar do estudo teórico e do conhecimento da língua, não têm ideia da maneira em que o Yoga funciona, nem da forma única em que conhecimento e prática dialogam na experiência do praticante. Esse é um dos motivos pelos quais o Yogasūtra é mais célebre do que compreendido.
Talvez um dos problemas enfrentados pelos tradutores/comentadores seja justamente dar aos Sūtras o tratamento de uma “teoria”, uma série de acontecimentos plausíveis quando, de fato, o texto é tão teórico quanto você mesmo.
Admitir o Yogasūtra como um texto teórico é admitir a si mesmo como uma teoria. Os temas centrais do texto são o conhecimento de si mesmo e a praxis desse conhecimento. Uma parte dele versa sobre autoconhecimento e a outra, sobre a aplicação prática desse conhecimento.
A importância desta pequena e lacônica obra de apenas 196 frases breves, reside no fato de que, a partir dela, o Yoga foi reconhecido com um Darśana, uma Visão, dentro do hinduísmo.
Para fazer perfeito sentido dentro do Dharma Hindu, e para ser reconhecido como instrumento para a libertação humana (objetivo de todo Darśana), exige-se que um texto cumpra estes três requisitos:
1) que não contradiga a autoridade do Veda;
2) que não contradiga o bom-senso; e
3) que não contradiga a experiência humana.
Você engole todo o que mastiga?
Porém, olhando atentamente para a maioria das traduções e comentários publicados, vemos que, no melhor dos casos, a única condição contemplada é a primeira. Mesmo assim, muitas vezes de forma cega, obnubilada pelo pensamento fundamentalista, dogmático ou míope.
Várias das traduções que vemos hoje em dia nas livrarias, contradizem não apenas o bom-senso e a experiência humana, como também a voz da ciência, que parece não ser muito considerada em alguns círculos de Yoga.
O problema é que muitas vezes, tomamos essas interpretações confusas ou questionáveis, como palava revelada e, se há falta de bom-senso ou de profundidade na tradução, nosso escasso espírito crítico não detecta essa falha.
Consequentemente, repetimos esse erro e aceitamos o conhecimento equivocado como se fosse verdadeiro. Neste texto, por uma questão de espaço, iremos nos limitar a expor apenas um exemplo de interpretação questionável do Yogasūtra: o da a tradução do segundo sūtra, onde se define o Yoga.
Esse sūtra, em sânscrito, diz Yogaścittavṛtti nirodhaḥ. Traduzindo elemento por elemento desta breve frase, temos o seguinte:
Yoga = jungir, união
citta = psiquê; complexo ego-mente-intelecto
vṛtti = modificação, ondulação, modo de conduta, flutuação
nirodhaḥ = cessação, supressão, contenção, restrição
Quem consegue “parar de pensar”?
Muitos tradutores repetem o significado que a leitura literal desta frase parece sugerir: “Yoga é a supressão da vida mental”. Ou, “Yoga é o controle das funções da mente”. Ou anda, “Yoga é a parada das ondulações do pensamento”.
No entanto, há um abismo enorme entre estas afirmações, que surgem da tradução direta daquelas quatro palavras, e o que realmente acontece com o psiquismo no Yoga.
Se o amigo leitor tiver em sua biblioteca alguma edição do Yogasūtra, convidamos para dar uma olhada nesta frase antes de continuar a leitura, só para checar.
A bem da verdade, ninguém pára de pensar durante a prática de meditação. Testes conduzidos pelo Dr. Francisco Varela, neurobiólogo e diretor de pesquisa no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, já na década de 1990, apontam para o fato de que não há interrupção ou parada do pensamento quando a pessoa medita.
O Dr. Varela conduziu testes em experientes lamas tibetanos, com décadas de intensas práticas de meditação. Pelo que sabemos, não deve haver muita gente melhor preparada que estes veneráveis lamas, que dedicam seus esforços desde bem cedo ao estudo e à vida de contemplação.
Para a surpresa dos pesquisadores, a atividade cerebral dos lamas durante os estados de profunda meditação não era a ausência de conteúdos, mas uma melhor organização desses conteúdos. No estado de profunda introspecção não acontece, em nível neuronal, nada de novo ou diferente do estado habitual de vigília.
O Dr. Varela disse que “a capacidade que o homem tem de olhar para si próprio não é um desdobramento, senão uma maneira de tornar um processo comum, algo mais forte e poderoso. Você aprofunda algo que já tinha.”

Qualquer praticante sincero deverá admitir a realidade dos fatos: nos não paramos de pensar, por mais prolongada que seja nossa prática de meditação, e por mais que torçamos para que isso aconteça.
Sempre, no silêncio da prática, escutamos a voz da mente fazendo questionamentos, a voz do ego movendo-se ao sabor dos seus próprios caprichos, a voz da inteligência fazendo suas asserções.
Essas três vozes, mente, ego e inteligência (respectivamente manas, ahaṅkāra e buddhi), são aquela sequência contínua de pensamentos que chamamos de psiquê (citta).
Mesmo buscando a mente silenciosa na prática, o barulho interno permanece aí, sempre presente. Conheço pessoas que simplesmente não admitem esse fato, e acabam vivendo um enorme conflito interior, divididas entre o que vivenciam e o que querem nos fazer acreditar.
Apesar da presença desse ruído incessante na paisagem interna, o que podemos fazer é parar de nos identificar com os pensamentos. Isso significa que a função mente-ego-razão não será mais vista como aquele monstro tricéfalo que devemos derrotar qual Davi enfrentando Golias, com um terço indiano na mão, no lugar da funda.
Ao invés do temível inimigo, o complexo mente-ego-razão revela-se um aliado para o crescimento interior quando paramos de olhar para ele como um problema.
Percebendo que a mente é perfeita como ela é, o conflito desaparece. Por isso, este autor propõe a tradução da palavra nirodhah como “desidentificação”, e não como “controle” ou “ausência”. Veremos isso mais adiante.
Existe um agente controlador no Yoga?
Traduzir a palavra nirodhaḥ como “controle” pressupõe a existência de um agente controlador, além da mente, do ego e da inteligência. Uma espécie de policial bruto, esgrimindo um saco plástico, disposto a asfixiar a psiquê com violência para que a iluminação tenha lugar.
O detalhe é que esse agente controlador, simplesmente, não existe. Pelo mapa do ser humano que Patañjali nos apresenta, como a origem e o fundamento de citta, o complexo mente-ego-inteligência, somente existe o Ser, que ele chama Puruṣa ou Ātma.
O detalhe é que o Ser, por definição, não “faz” nada. Ele apenas é. O sábio Patañjali define o Ser como simples testemunha (sakṣi), ou ainda como “aquele que vê” (draṣṭṛ). Ora, se o Ser é somente a testemunha silenciosa, ele não poderia controlar, muito menos apagar, a mente, o ego ou a razão.
Vācaspati Miśra, comentarista do Yogasūtra do século IX, explica a aparente atividade do Ser e sua identificação com a inteligência através da seguinte metáfora:
“Assim como a lua cheia, imóvel e circular no céu parece estar em movimento ao refletir-se na água corrente, da mesma maneira o Ser, sem nenhuma atividade ou apego de sua parte, parece realizar atividades ou apegar-se [aos objetos] em função do seu reflexo no intelecto (buddhi)”. Tattva Vaiśaradī, IV:22.
Nesta analogia, Miśra compara o Ser à lua cheia e buddhi, o intelecto, princípio individual mais refinado, ao reflexo da lua na água em movimento. Embora o Ser aparente ter movimento próprio, ele permanece, de fato, imóvel.
A aparente identidade entre estes dois princípios, Ser e intelecto, fica estabelecida em função do poder da ignorância existencial. Essa falsa identidade produz pensamentos como ou “eu faço tal coisa”, “eu sou tal coisa” e emoções como “eu me sinto feliz”.
Se existisse de fato este agente controlador, ele só poderia ser o ego. E o ego, justamente, é aquele que deve ser posto em seu devido lugar, através da desidentificação em relação a seus desejos, opiniões e vontades.
O ego é apenas uma interface entre o indivíduo e o mundo, que tem como objetivo auto-referenciar pensamentos e ações. Poderia o controlador controlar a si mesmo? Isso é irreal e ilógico, e não acontece.
Então, dizer que o objetivo do Yoga é “parar de pensar”, não somente contradiz a experiência humana e o bom-senso, mas é também uma afirmação que vai contra os resultados das pesquisas da neurociência.
Se os lamas tibetanos não conseguem parar de pensar, o que sobra para nós, simples mortais vivendo nesta sociedade maluca?
Ampliando a perspectiva do Yogasūtra
Interpretar o Yoga como o estado de ausência de pensamentos é o produto de uma tradução linear e reducionista, que não contempla o contexto maior da obra.
Acontece que, numa leitura atenta, Patañjali aponta no quarto sūtra para o fato de que, quando a pessoa não está em Yoga (que é o “natural”, segundo ensina o terceiro sūtra), ela vive identificada com os seus próprios pensamentos (sarūpyam).
Ora, se o não-Yoga é a identificação com os próprios pensamentos, então, o viver em Yoga só pode ser viver não-identificado. Nesse sentido, nirodhaḥ, a desidentificação, é oposta a sarūpyam, a identificação.
Yoga = Não-Identificação
Não-Yoga = Identificação
Outra evidência que aponta para o fato de que essa tradução pode estar equivocada, é que, no sūtra 17, Patañjali lista quatro formas de samādhi chamados saṁprajñata, “reflexivos”.
Como poderia haver alguma reflexão, sem a presença do pensamento? Qual seria a função utilizada para refletir, se a inteligência estivesse ausente?
Definir o Yoga é definir a vida do praticante
Sabemos que, na hipótese de um indivíduo perder a mente, o ego e/ou a razão, ele fica impossibilitado de conviver em sociedade, incapaz de realizar as tarefas mais simples, desorientado, desestruturado e constantemente aflito. É isso o que queremos para nós mesmos?
Este autor acha insatisfatório aceitar-se uma tradução contra o bom-senso, por uma questão muito pontual: a definição de Yoga não é algo pequeno ou sem importância.
Se formos considerar que o Yoga é ausência de pensamento, e já que isso de fato não acontece, qual seria então o propósito da prática? Você dedicaria sua vida a um propósito descabelado ou pouco claro?
Não temos dúvidas sobre as boas intenções dos tradutores que deram essa interpretação sobre o objetivo do Yoga.
No entanto, considerando que não é desejável repetir definições sem pensar, faz-se necessário repensar essas definições, mesmo que isso signifique questionar os dogmas e atrair a ira daqueles que os sustentam.
Desidentificação é a chave
Pessoalmente, gusto de traduzir este sūtra assim: “Yoga é a cessação da [identificação com] as modificações da psiquê”.
Trocando em miúdos, isso significa que é necessário construir uma relação diferente com a mente, o ego e a inteligência, já que a identificação com aquilo que pensamos nos tira do estado natural de harmonia.
Para manter-se em Yoga não é preciso eliminar o pensamento, mas pacificá-lo. É preciso ter uma mente objetiva e clara, ao invés de pretender destruí-la.
É preciso saber que não há nada de errado em relação ao ego, e que ele não é o inimigo a ser derrotado, mas uma função essencial ao convívio, que precisa ser devidamente compreendida.
É preciso compreender que a aparente identidade entre inteligência e Ser é mais um produto da ignorância existencial.
Sabemos que existem certos aspectos da personalidade, como o temperamento e o caráter, que são difíceis de mudar. Porém, mesmo diante dessa dificuldade, podemos de fato modificar a maneira em que nos relacionamos com eles.
Para isso, é importante aprendermos a viver consciente e desidentificadamente, em Yoga.
॥ हरिः ॐ ॥
Saiba mais sobre o Yogasūtra de Patañjali aqui
Ouça a invocação ao sábio Patañjali,
autor do Yogasūtra, aqui
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