O que significa “vitória sobre a morte”?
“O Ser está além de nome e de forma, além dos sentidos.
Sem início, nem fim, transcendendo além do tempo,
do espaço e da causalidade, ele é eterno e imutável.
Aquele que percebe o Ser livra-se das garras da morte”.
Nesta passagem da Kaṭhopaniṣad está o real sentido do Yoga: a busca pela imortalidade. A vitória sobre a morte é um tema recorrente tanto nesta mesma Upaniṣad quanto em outros śāstras.
É um ponto digno de discussão não apenas para examinar sua profundidade metafórica, mas também por compreender as mais notórias definições do Yoga e seu verdadeiro propósito.

Dentre estas, talvez a mais conhecida esteja no início do primeiro capítulo dos sūtras de Patañjali – o Yoga como o bloqueio (a desidentificação) dos padrões mentais, para que assim a pessoa possa estabelecer-se em sua verdadeira natureza.
Este observador (draṣṭṛ) é o próprio Ser, e percebendo sua própria natureza identifica-se consigo mesmo.
Como a passagem da Kaṭhopaniṣad menciona, isto é um processo perceptivo, um “dar-se conta” e não o resultado de uma ação. No entanto, o Yoga é considerado comumente uma prática.
Pode a prática do Yoga levar a esta realização? Ela ajuda no direcionamento da atenção para esta realidade e desvia a atenção das aflições mentais, e como resultado, estas mesmas perdem sua força.
Estas aflições são descritas minuciosamente também nos sūtras de Patañjali, e nos ajudam a entender qual a relação que as escrituras fazem com o Yoga e a questão da mortalidade humana.
A partir do terceiro sūtra do segundo capítulo do Yogasūtra são descritas, na visão do Yoga, as raízes de todo o sofrimento humano na forma de pañcakleśa, as cinco fontes de aflição.
O fascinante desta explanação e o que faz do texto um valioso tratado de psicologia é sua relação lógica e interdependente destas dores.
A primeira dor é avidyā, a ignorância quanto à ilimitada natureza do Ser, que ressalta a aparência da separatividade entre sujeito e objeto.
Partindo desta ignorância, o sujeito em um processo óbvio assenta sua identidade no complexo psico-físico e sua natureza inconstante, o que é chamado asmitā e é a segunda aflição.
Nasce daí um falso e superficial senso de self, composto de relacionamentos com objetos avaliados como prazerosos ou dolorosos.
Como um código binário em enormes blocos, é destas constatações de apego e aversão, rāga e dveśa, que é composta a interface deste “falso eu”.
Isto faz um sentido intuitivo quando pensamos em como é difícil definir nossa própria personalidade sem mencionar tudo o que gostamos e desgostamos.
Com a identificação com o complexo psicofísico e suas limitações e mutabilidades, há uma grande ansiedade pela sustentabilidade deste veículo que, agravada por sua dependência dos objetos de prazer e a receio diante da perda destes objetos, causa constante agitação mental.
Diante deste cenário culmina a descrição das aflições humanas com o que é normalmente é traduzido como “desejo por continuidade”. Isto é chamado abhiniveśaḥ. É o medo da morte em que muitos autores ocidentais dizem ser a fonte de todos os temores humanos.
O medo da morte é, essencialmente, a ameaça do não-ser. Mesmo outros dos mais arraigados temores humanos, como a culpa, a condenação, e a insignificância, são também temores frente ao não-ser – neste caso, diante da auto-afirmação moral ou do propósito do homem.
Mas é na morte que este se depara com a ameaça do não-ser em sua forma mais puramente existencial. A morte serve, assim, como a base e fonte para todos os demais temores.
O não-ser é difícil de ser concebido. Significa um vazio, uma ausência de sujeito e de sua suas relações objetais. Não é um objeto concreto a ser enfrentado, mas uma idéia tão abstrata que o próprio termo é uma negação: “não-ser”.
Existe apenas como conceito. Já a realidade do ser é indubitável – como alguns autores ocidentais já versaram, quando o sujeito questiona sua própria existência, ele ao mesmo tempo a evidencia – é necessário que haja um sujeito para seu questionamento tome lugar.
Dadas estas questões, a atitude humana perante a morte por definição deve ser muito mais de ansiedade que medo, pois o medo tem um objeto definido que pode ser enfrentado, analisado, atacado ou tolerado.
A ansiedade não tem objeto – seu objeto é a negação de todo objeto. Lutar contra este “nada” é impossível e assim, quem está ansiedade, permanece no desamparo. Desta forma é fácil ver como nenhuma ação pode liberar-nos desta ansiedade.
c é a ruptura com o sofrimento
É neste ponto que jaz não apenas a maior contribuição que o Yoga tem como solução para este impasse, mas justamente seu cerne. O Ser, descrito nas escrituras como Satyam, é existência eterna e imutável que tudo sustenta.
Não há margens nesta realidade. A concepção do não-ser e sua ansiedade decorrente, abhiniveśaḥ, só pode vir da ignorância e se desfalece através do conhecimento sobre o Ser, Brahmavidyā.
Esta infundada rede de aflições produz tamanha inquietude que impossibilita que o observador desvie sua atenção das modificações mentais para si próprio, como o Yoga é definido no Yogasūtra.
Cortada a ansiedade da finitude existencial em sua raiz pela foice do discernimento e autoconhecimento, cortam-se também as demais ansiedades que dela se ramificam.
Isto relaciona-se com outra definição do Yoga presente na Bhagavadgītā: “a ruptura de toda a relação com o sofrimento”.
Através desta verdadeira liberação, é possível melhorar de maneira significante e definitiva a qualidade de nossas vidas, e neste ambiente de paz, haver as condições apropriadas para que o melhor no ser humano floresça.
Isto, na linguagem dos śāstras, é a vitória sobre a morte. Apenas o conhecimento pode trazer essa vitória sobre o sofrimento, pois o sofrimento é intrínseco à ignorância. E nesse sentido que devem estar orientadas as práticas.
॥ हरिः ॐ ॥
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