Pintura (Lucknow, c. 1760): Jesus entre os doutores no Templo

A Páscoa na visão do Vedānta

Por Andrês De Nuccio 7 de março de 2002 6 minutos de leitura

O Vedānta e a Páscoa

Vedānta é uma tradição que vem preservando e transmitindo de geração a geração o conhecimento da real natureza daquela parte de nosso ser que chamamos de Eu.

Num sentido amplo, Vedānta é todo ensinamento que leve o estudante a uma apreciação correta de sua própria natureza.

A nossa cultura nos transmitiu conceitos a respeito do que somos, através de nossos pais, professores e adultos significativos na infância, e através da televisão, jornais, e demais mídias formadoras de opinião na vida adulta.

Ao longo da nossa vida fomos construindo respostas para a pergunta básica e fundamental ‘Quem sou eu?’. E essas respostas nos levam a viver do modo como estamos vivendo.

Se o que aprendemos com os nossos pais, por exemplo, é que ‘Eu sou responsável, inteligente e trabalhador’, certamente nossa vida será pautada por uma conduta muito diferente da que teríamos se nossos pais tivessem nos ensinado – com suas observações a nosso respeito – que ‘Eu sou desleixado, burro e preguiçoso’.

De maneira semelhante, a mídia nos transmite o conceito de que somos pessoas inadequadas e infelizes, imperfeitas e inferiores… a não ser que compremos tal e tal produto!

E transmite essa idéia de maneira extremamente eficiente (ou deveria dizer maquiavélica), usando o conhecimento que existe sobre a mente humana de modo a tornar o seu apelo bem convincente a ponto de conseguir que, não apenas acreditemos que somos carentes, mas que também atuemos conforme essa crença, comprando o produto que nos tirará dessa carência, tornando-nos ‘plenos e felizes’.

Tudo em nossa vida está pautado em nossos conceitos a respeito do que somos.

Seja que eu jogue basquete, navegue na Internet, cuide dos meus filhos ou colecione selos, sempre, necessariamente, esses comportamentos estarão baseados numa visão do que é necessário, do que é importante, de que precisa ser feito.

E essa visão está totalmente fundamentada nos conceitos que eu tenho de mim mesmo.

O Vedānta questiona os conceitos que temos colhido ao longo da nossa vida a respeito de Quem somos. Questiona se somos coisas passageiras como um corpo, emoções, pensamentos, sensações.

E o Vedānta chega a conclusões libertadoras, tais como ‘Eu já sou a plenitude que busco’, e ‘Eu já sou tudo que deveria ser!’ Já pensou como a vida ganha em liberdade a partir dessa descoberta?

Jesus foi um grande Mestre de Vedānta, mesmo que nunca tenha se chamado a si mesmo de vedantin. E Ele o era porque tinha uma total clareza a respeito de qual era a Sua verdadeira natureza.

Ele tinha uma justa apreciação dos aspectos mutáveis e transitórios do Seu ser e daqueles permanentes e imutáveis.

Ele podia julgar o mundo com o olhar da Sabedoria, tão incompreensível para o homem espiritualmente ignorante.

É por isso que, quase dando risada, Ele pode responder a um Pilatos embriagado de seu poder temporal: ‘Nenhum poder você teria se não te fosse dado pelo Altíssimo’.

Hoje, como sempre, o significado profundo das tradições espirituais se perde na superficialidade do cotidiano.

E, assim, um momento maravilhoso de reflexão, de apreciação da possibilidade de uma dimensão de consciência mais ampla, capaz até de fazer com que a morte e o sofrimento percam a sua face apavorante, transforma-se numa tola corrida às lojas para comprar chocolates!

Lembro-me de uma poesia de Rimbaud em que ele convida à sua amada a viver intensamente, a soltar a sua luz, a elevar-se aos cumes do pensamento.

No final, depois de ele ter feito, no decorrer de longos e belíssimos versos, as mais brilhantes propostas, é a vez de ela responder. E ela aceita? Não. Ela levanta uma objeção tola ‘Sim, mas… e a minha escrivaninha?’

O Mestre indiano de Arnaud Desjardins, tendo ensinado Vedānta para vários franceses, conhecia esse apego tão comum em todos os ocidentais, que nos faz deixar de viver segundo a Verdade devido às pequenas objeções que, desde uma visão mais sábia não passam de tolices, de brinquedos de pessoas imaturas.

Uma vez, perguntado por um outro monge se já tinha aprendido a falar em francês, ele, bem-humorado, respondeu que falar francês era fácil, era apenas dizer ‘Oui, mais…’ (sim, mas…).

Assim também, a tradição da Páscoa nos convida a renascer para um modo de vida novo e maravilhoso. E o que vamos responder? ‘Oui, mas… e a minha escrivaninha?

Ou vamos ousar viver a nossa Luz?

A época de Páscoa nos dá a oportunidade de refletir sobre a maneira como pensamos a vida, sobre o modo como a estamos vivendo: a que damos valor?

A que dedicamos a maior parte do nosso tempo, do nosso dinheiro, da nossa energia? A que nos apegamos sem abrir mão ou ceder um centímetro? Por que objetivo estamos dando a nossa vida?

Páscoa e Ressurreição

A Páscoa nos convida à morte. À morte para um modo de vida baseado em conceitos e crenças mundanas, que não se sustentam quando confrontadas pela argumentação dos sábios.

A Páscoa é um convite para abandonar o que, no nosso coração, sabemos que é preciso abandonar.

páscoa

A Páscoa é um convite para ressuscitar da morte da ignorância espiritual, dos estúpidos valores consumistas que criam um destino individual de tensão e ansiedade e uma sociedade violenta e imoral.

A Páscoa diz: ‘Você pode crucificar o meu corpo transitório, mas não pode crucificar a Mim que sou permanente. Você pode caluniar minha personalidade histórica, mas não pode caluniar minha Consciência imortal, que transcende qualquer definição verbal.

Você, que vive alicerçado nas coisas que o mundo dá, pensa que está me tirando algo a Mim, que sou Onipresente!’

Que bela aula de Vedānta!

A Páscoa, enfim, na visão do Vedānta, é um momento para iniciar ou fortalecer o nosso compromisso com tudo que nos traz a visão dos Sábios, a visão Crística: o estudo, a meditação, a verdade, a vivência da paz, o Yoga, o sorriso, o perdão…

Tomara que ela possa ser comemorada e compreendida.


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॥ हरिः ॐ ॥ 

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