Você já se perguntou se existe alguma preparação para o Yoga?
Muitas pessoas se lançam à prática sem haver preparado o alicerce que fará com que possam efetivamente aproveitar o ensinamento e evitar as frustrações.
Elas podem por momentos achar que fizeram grandes progressos mas na verdade pode acontecer que nem sequer tenham conseguido se preparar para começar.
A preparação para o Yoga é como fazer uma obra
Imagine o processo para mokṣa, a liberdade, objetivo final do Yoga, como a tarefa de construir uma casa.
A libertação acontece quando, construído o alicerce, levantadas as paredes e o teto, você entra na casa e liga o disjuntor da rede elétrica.
Algumas pessoas começam alegremente a construir as paredes esquecendo que elas se sustentam pelo alicerce.
Sem as preparações preliminares, sem a ética (yama e niyama), sem a purificação do corpo, as emoções e os pensamentos (ṣaṭkarma, bhūtaśuddhi, antaḥkaraṇaśuddhi e alimentação correta), sem exercício adequado (āsana e prāṇāyāma), não pode haver progresso no sādhana.
Sobre esse alicerce se elevam as paredes: a discriminação entre o eterno e o perecedouro (viveka), o desapego do fruto das ações (vairāgya) e o desejo de libertação (mumukṣutva).
Depois, vem o telhado: controle dos órgãos sensoriais e motores (śama e dama), cessação das ações desnecessárias (uparāti), paciência (titikṣa), concentração (samādhana) e fé (śraddhā).
Se você nem sequer pensou nessas coisas ao fazer um balanço da sua prática, é bem provável que não esteja ainda preparado para ir além das práticas introdutórias.
Quando não há nada disto, diz Swāmi Dayānanda que a única resposta possível àquela pergunta ‘quem sou eu?’ é ‘o mesmo idiota de sempre’.
A competência para reconhecer a liberdade, a plenitude que nós já somos, se chama em sânscrito adhikāra, e se consegue pela purificação do corpo e da mente. Essa competência não deve subestimar-se.

Sādhanacatuṣṭayaṁ: a preparação para o Yoga
Sintetizendo o que dissemos acima, chegamos num ponto crucial dentro do processo do autoconhecimento: o sādhanacatuṣṭayaṁ.
Sādhanacatuṣṭayaṁ são as quatro qualificações para mokṣa, a liberdade:
1) Vivekaḥ, discernimento,
2) Vairāgyaṁ, desapego,
3) Śamādiṣaṭkasampattiḥ, o grupo das seis virtudes:
A) Śama, comando sobre a mente,
B) Damaḥ, controle sobre os sentidos,
C) Uparatiḥ, quietude, relaxamento,
D) Titikṣa, paciência, tolerância,
E) Śraddhā, confiança no professor e no ensinamento,
F) Samādhanaṁ, concentração,
4) Mumukṣutvaṁ, foco, desejo e motivação para a libertação.
Essas quatro qualificações dão à pessoa adhikāritvaṁ, a competência necessária para completar o processo.
Mokṣa e surf
Não adianta apenas querer. É essencial estar preparado, da mesma forma que não qualquer surfista consegue surfar as maiores ondas do planeta.
Aqueles que não estiverem física e psicologicamente preparados, os que não tiverem a habilidade técnica, a resistência, a experiência e o sangue frio necessários, correm o sério risco de morrerem afogados.
Às vezes confundimos a possibilidade de fazer alguma coisa, com a habilidade necessária para fazer essa coisa.
Importância da purificação prévia
A competência e a purificação corpo/mente de que falamos antes pode comparar-se com a preparação pela qual o surfista precisa passar antes de ousar surfar ondas que poderiam matá-lo.
Yoga é um caminho para a libertação. A verdadeira dimensão desse caminho só pode vislumbrar-se com a prática constante do discernimento e os valores que mencionamos acima.
Quanto mais você sabe, mais você é consciente da sua ignorância e do que há para se conhecer.
As práticas mais simples, como āsanas e respiratórios, são benéficas para todos mas têm pouco a ver com o que há no final do caminho.
Entretanto, até mesmo na prática de āsana ou prāṇāyāma há perigos: quem se lesionou na tentativa de fazer uma invertida sobre a cabeça sabe disso.
Quanto mais o praticante avança no sādhana, mais aumenta a auto-exigência.
O Yoga é para todos mas, a partir de um certo ponto, são poucos os que seguem além.
Um ditado hindu diz: “o verdadeiro heroísmo está em conquistar sua própria natureza” — svābhāvo vijayati iti śauryam.
Por isso a tradição yogika dá tanta ênfase às técnicas preliminares, da mesma forma que se recomenda aprender a nadar antes de aprender a surfar. Não importa onde você está, senão para onde está indo.
Onde estamos no mapa?
Para saber exatamente onde estamos no sādhana, basta olhar para as nossas atitudes no dia a dia.
Somos capazes de controlar os pensamentos indesejáveis? Conseguimos concentrar-nos no que fazemos?
Conseguimos gerir as emoções negativas ou somos controlados por elas? As nossas debilidades são mais fortes que nós?
Para saber onde estamos exatamente na prática, Shivananda propõe acompanhar o nosso sádhana cotidiano levando um registro num diário.
Esse diário de sādhana não deve servir apenas para anotar os respiratórios, ou sobre o que meditamos e durante quanto tempo, mas também deve incluir as nossas atitudes do dia a dia: as mais e as menos felizes.
Desta forma você se dá a chance de acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.
Extraído do livro Yoga Prático.
॥ हरिः ॐ ॥
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