Os pais de Madá renunciaram voluntariamente à vida de sedutores confortos que a cidade propõe, para viver mais perto da natureza, num bairro periférico de São Paulo. Uns meses atrás, a residência deles foi assaltada, com as crianças dentro. Naturalmente, Madá não quer voltar a dormir naquele quarto, nem naquela casa, nem visitar aquele bairro, nem voltar para aquela cidade, nem para aquele país. A família toda ficou alarmada com a brutalidade da situação e acabou por se mudar para uma pequena cidade medieval na Itália, onde estão muito felizes e tranquilos.
As grandes cidades brasileiras impõem um modo de vida assustador, por todos conhecido: o medo à flor da pele, a barbárie nas ruas, a perda da tranquilidade nos espaços públicos, a insegurança e, conseqüentemente, a perda do sossego de todos. Como resolver o paradoxo boa educação e futuro para os filhos, versus viver no mundo real?
Os pais precisam tomar a difícil decisão de definir onde vão criar seus filhos: se a opção for por um lugar próximo à natureza, mas ermo e inseguro, os pais certamente irão ouvir das famílias e amigos frases como “algo vai dar errado!”. Se, por outro lado, optarem por viver num condomínio de segurança máxima, poderão ficar com a sensação de estarem criando os filhos dentro de uma bolha, longe do contato com a realidade.
Diante disso, cabe então a pergunta: até onde é razoável insistir na solução de viver numa grande metrópole, ou perto dela? Que estamos buscando na cidade, além do conforto, o consumo e o status? Quando pensamos em viver numa cidade grande, necessariamente, devemos pensar também nos objetivos que nos levam para lá.
Pode acontecer, por outro lado, das pessoas terem nascido na cidade e depois ela ter sofrido esse processo de gigantismo. Em todo caso, a questão central permanece: meu amigo Ricardo nasceu no bairro de Itaim, em São Paulo, onde na época havia chácaras e grandes jardins. Hoje, esse bairro é conhecido pelos enormes prédios e infindáveis engarrafamentos.
Algumas pessoas das metrópoles sustentam o plano de se mudar para alguma praia do Rio Grande do Norte mas, por falta de coragem ou desapego para dar os passos necessários, esse plano não é colocado na prática. Outras consideram que não vale a pena mudar. Outras, que não é possível, já que não poderiam viver sem os confortos que a cidade oferece.
A vida é cheia de paradoxos, alguns muito interessantes e divertidos, e outros nem tanto assim. É possível criar filhos conscientes do seu papel no mundo numa cidade grande? O que vemos, em muitos casos é que as crianças ficam totalmente desconectadas da natureza, vivendo numa bolha asséptica e pasteurizada.
No dizer de um bom amigo, “empinando pipa no ventilador e jogando bolinha de gude no carpete”. Recentemente, uma professora de Yoga, nossa amiga, levou os netos para um sítio, para que eles tivessem a experiência de andar descalços por primeira vez. As crianças tinham perto dos dez anos de idade. Se elas crescerem brincando em playgrounds, isolados da rua, estarão de fato vivendo a realidade?
As nossas casas deveriam refletir o mundo que queremos, não o mundo que temos. O paradoxo de viver numa metrópole brasileira é que o mundo que queremos fica muito distante do mundo que temos. Mas, ao que parece, a mesma situação se estende às dunas do Ceará e às praias de Santa Catarina.
Um dos motivos pelos quais minha esposa e eu decidimos deixar Florianópolis, onde morávamos numa casa bem no meio do mato, foi justamente um assalto. Naquela oportunidade, chegamos na casa com os assaltantes dentro e posso dizer que não foi nada divertido. Nossa integridade física foi poupada, mas o medo naquela noite, dormindo com a casa aberta e arrombada e sem saber se os assaltantes voltariam, foi algo que ficará na memória.
Outros motivos que nos levaram a deixar Floripa, que, aliás, não é uma cidade grande, foram a deterioração da qualidade de vida, os engarrafamentos constantes e a dependência do carro. Hoje em dia, mesmo morando num lugar isolado, não temos carro, e estamos muito felizes com a nossa escolha.
Qual é a diferença entre ficar preso no trânsito na Avenida Paulista e ficar preso no trânsito numa estradinha da ilha? Nenhuma: você está preso do mesmo jeito. OK, ao invés de olhar para os prédios, você pode olhar para os morros ou a lagoa. Só isso. Então, existem outras possibilidades? É possível viver e trabalhar sem usar tanto o carro e respirando um ar mais decente?
Quase a totalidade das pessoas que conheço na ilha, amigos e ex-vizinhos, já foram assaltados ou tiveram suas casas arrombadas. É muito triste constatar isso. Sobre tudo, sabendo que, há 23 anos, quando me mudei para o Brasil, não precisava ter chave porta da minha casa porque era impensável o fato e alguém entrar na casa do outro para roubar ou coisa do gênero.
Algumas das questões que se colocam, quando chegamos neste ponto é definir se iremos escolher uma casa ou um apartamento, se ficaremos perto da cidade ou noutro lugar bem longe, se dependemos mesmo do trabalho na grande cidade para sobreviver e/ou se poderíamos prescindir da vida nela.
Esta situação não tem uma solução fácil nem a curto prazo. Devemos lembrar que a violência urbana não é desejável nem deveria ser considerada normal numa sociedade humana. A questão do futuro das nossas crianças é, creio, o ponto mais importante desta reflexão. De um lado, está a qualidade do ensino, já que as boas escolas estão, de modo geral, nas grandes cidades.
Do outro, a qualidade do ar que se respira e a liberdade de ir e vir sem medo de perder a vida. Cada um de nós deveria refletir sobre isso, dando prioridade àquilo que tem mais valor para si e para a sua própria família, e fazendo as ações que for preciso fazer para implementar na prática seu próprio plano.
Se optarmos pela vida na cidade grande, idealmente, não deveríamos deixar de ensinar às crianças a andarem descalças na lama, nem esquecer de levá-las para nadar no mar, ver um pôr-do-sol ou um arco-íris de vez em quando. Se optarmos por sair da cidade, não deveríamos esquecer de ensinar o necessário para que possam viver na cidade no futuro, se essa for a escolha delas.
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