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Anuttarāṣṭikā de Abhinavagupta: As Oito Estrofes do Mais Elevado

Os oito versos de Abhinavagupta sobre anuttara, o Mais Elevado, e o não-método (anopāya): sânscrito, transliteração, tradução e pādapāṭha palavra por palavra.

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Śrīḥ (श्रीः), invocação auspiciosa em devanāgarī, em branco sobre um círculo vermelho

श्रीः

अनुत्तराष्टिका

Anuttarāṣṭikā

As Oito Estrofes do Mais Elevado · Abhinavagupta

Eis um poema composto pelo grande mestre Abhinavagupta, que consiste de oito ślokas. Essas estrofes abordam, de maneira belíssima, com uma linguagem ao mesmo tempo direta e profunda, a essência de anuttara.

Anuttara, o insuperável

Anuttara é um termo sânscrito composto de dois elementos: an+uttara. An é um prefixo de negação; uttara significa o mais elevado, o mais alto. Portanto, anuttara quer dizer “insuperável”, “incomparável” ou “aquele acima de quem não há mais nada”. Essa palavra refere-se ao Ilimitado, ao Ser pleno, livre de limitações.

Anopāya, o método do não-método

O paradoxal caminho que Abhinavagupta propõe é o revolucionário “método do não-método”, chamado anopāya. Novamente, encontramos neste composto (an+upāya) o prefixo an, que significa “não”, acompanhado do termo upāya, que designa um meio para conseguir alguma coisa, ou uma prática que conduz a um resultado.

Assim, anopāya quer dizer literalmente “não-método”, e designa a percepção direta de si mesmo que tem lugar da maneira mais espontânea e natural, sem esforço algum, quando a pessoa reconhece que ela já é una com o Ilimitado. Sem prática. Sem esforço. Sem técnica. Sem processo. Sem passos. Sem evolução. Sem nada.

Primeira estrofe: permanece tal como és

सङ्क्रामोऽत्र न भावना न च कथायुक्तिर्न चर्चा न च
ध्यानं वा न च धारणा न च जपाभ्यासप्रयासो न च ।
तत्किं नाम सुनिश्चितं वद परं सत्यं च तच्छ्रूयतां
न त्यागी न परिग्रही भज सुखं सर्वं यथावस्थितः ॥ १ ॥

saṅkrāmo’tra na bhāvanā na ca kathāyuktirna carcā na ca
dhyānaṁ vā na ca dhāraṇā na ca japābhyāsaprayāso na ca |
tatkiṁ nāma suniścitaṁ vada paraṁ satyaṁ ca tacchrūyatāṁ
na tyāgī na parigrahī bhaja sukhaṁ sarvaṁ yathāvasthitaḥ || 1 ||

Não há aqui [em Anuttara] transição sófrega, nem contemplação, nem discurso aplicado, nem raciocínio, nem investigação, nem meditação, nem concentração, nem recitação, nem esforço ou prática. Dize-me, então: qual é a verdade final e plenamente estabelecida? Escuta, pois: não renuncies a nada nem te apegues a nada; desfruta de tudo. Permanece tal como és! || 1 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

saṅkrāmaḥ: transição ou processo feito de maneira dificultosa ou sófrega, algo feito com grande esforço, transferência, migração; atra: aqui, neste lugar; na: não; bhāvanā: contemplação, capacidade de cultivar, desenvolver ou produzir um estado mental ou emocional; na: não; ca: também, igualmente, tampouco, nem; kathā: discurso, fala, conversação, diálogo; yuktiḥ: conexão, aplicação; kathāyuktiḥ: a aplicação de um discurso; na: não; ca: também, tampouco; carcā: discussão, disputa; na: não; ca: nem, tampouco; dhyānaṁ: meditação; vā na ca: nem há, nem tampouco há; dhāraṇā: concentração; na: não; ca: também, tampouco; japa: meditação sobre um mantra; abhyāsa: aplicar-se à repetição de uma prática; prayāsaḥ: esforço enérgico, exaustão, dor advinda de um esforço; japābhyāsaprayāsaḥ: repetição de um mantra, aplicação ou esforço; na: não; ca: tampouco, nem; tad: portanto, consequentemente, assim sendo, deste modo; kiṁ nāma: o que então é?; suniścitaṁ: que está firmemente determinado; vada: diga, fale, diálogo, argumentação; paraṁ: supremo, o mais elevado; satyaṁ: verdade, realidade, aquilo que é real, que não pode ser negado; ca: nem, tampouco; tad śrūyatāṁ: que isso seja ouvido, que seja escutado; na: não; tyāgī: renunciante, que abandona, saṁnyāsin; na: não; parigrahī: aquele que acumula, que junta, que pega coisas; bhaja: desfrute, gozo; sukhaṁ: felicidade, alegria, plenitude; sarvaṁ: tudo; yatha: portanto; avasthitaḥ: permanecer firme ou perto (da sua própria natureza, i.e., como você é); yathāvasthitaḥ: portanto, permaneça como você é.

Segunda estrofe: a corda e a serpente

संसारोऽस्ति न तत्त्वतस्तनुभृतां बन्धस्य वार्तैव का
बन्धो यस्य न जातु तस्य वितथा मुक्तस्य मुक्तिक्रिया ।
मिथ्यामोहकृदेष रज्जुभुजगच्छायापिशाचभ्रमो
मा किञ्चित्त्यज मा गृहाण विलस्वस्थो यथावस्थितः ॥ २ ॥

saṁsāro’sti na tattvatastanubhṛtāṁ bandhasya vārtaiva kā
bandho yasya na jātu tasya vitathā muktasya muktikriyā |
mithyāmohakṛdeṣa rajjubhujagacchāyāpiśācabhramo
mā kiñcittyaja mā gṛhāṇa vilasvastho yathāvasthitaḥ || 2 ||

Na realidade, não existe o ciclo de nascimentos e mortes: como, então, poderia surgir a questão do aprisionamento para os seres vivos? Nunca houve tal aprisionamento para quem é verdadeiramente livre; portanto, lutar pela libertação é inútil e não passa de uma quimera, como uma sombra tomada por um demônio ou uma corda vista como se fosse uma serpente. Isso tudo baseia-se em uma percepção enganosa, sem qualquer substância. Não renuncies nem te apegues a nada: brinca! E permanece tal como és, firmemente estabelecido no teu Ser. || 2 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

saṁsāra: vida de condicionamentos, transmigração, vida sófrega; asti na: não há, não existe; tattvatas: na realidade, na verdade; tanubhṛtāṁ: de seres viventes, de pessoas vivas, encarnadas; bandhasya: dos condicionamentos, das amarras, crenças ou instituições sociais; vārta: questão, pergunta, questionamento; eva: somente; kā: o que?, quem?; bandhaḥ: condicionamento, crença paralisante, amarra, atadura; yasya: aquilo que deve ser objeto de um esforço; na: não; jātu: nunca, de forma alguma, de nenhuma maneira; bandho yasya na jātu: aquele que nunca tem condicionamentos escravizantes (i.e., o jīvaṅmukti); tasya: no caso de; vitathā: algo vácuo, irreal, ilusório ou fútil, uma quimera, um produto da imaginação, algo que não é verdadeiro, que não é real; muktasya: do iluminado, do jīvaṅmukti; muktikriyā: ação ou atividade em prol de ou em direção a mokṣa, à libertação; mithyā: algo que depende de outra coisa para existir, para ser, falso, equivocado, inexistente; mohakṛt: que produz, que funciona como a causa; mithyāmohakṛt: que produz uma percepção falsa ou equivocada; eṣa: esta, este, isso, esse; rajju: corda; bhujaga: serpente, cobra, naja; chāyā: sombras, reflexos; piśāca: fantasma, espectro, espírito maléfico; bhramaḥ: vagar, perambular, percorrer, mover-se por ou através de, rolar; mā: não; kiñcit: alguma coisa, qualquer coisa; tyaja: abandono, renúncia, saṁnyāsa; mā: não; gṛhāṇa: preensão, pegar, segurar, apegar-se, agarrar-se a algo; vilasa: brincadeira, passatempo, prazer, diversão; svasthaḥ: estabelecido em si mesmo; yatha: portanto; avasthitaḥ: permanecer firme ou perto (da sua própria natureza, i.e., como você é); yathāvasthitaḥ: portanto, permaneça como você, essencialmente, é.

Terceira estrofe: a consciência una

पूजापूजकपूज्यभेदसरणिः केयं कथानुत्तरे
सङ्क्रामः किल कस्य केन विदधे को वा प्रवेशक्रमः ।
मायेयं न चिदद्वयात्परतया भिन्नाप्यहो वर्तते
सर्वं स्वानुभवस्वभावविमलं चिन्तां वृथा मा कृथाः ॥ ३ ॥

pūjāpūjakapūjyabhedasaraṇiḥ keyaṁ kathānuttare
saṅkrāmaḥ kila kasya kena vidadhe ko vā praveśakramaḥ |
māyeyaṁ na cidadvayātparatayā bhinnāpyaho vartate
sarvaṁ svānubhavasvabhāvavimalaṁ cintāṁ vṛthā mā kṛthāḥ || 3 ||

Na consciência do mais elevado (anuttara), que discurso poderia haver, ou que caminho pela diferenciação entre meditador, objeto de meditação e ato de meditar? Para quem, e por quais meios, poderia ocorrer uma progressão; ou o que constituiria a sequência de conhecimento do Ser? Maravilha! Embora pareça diferenciada, esta experiência não é nada senão a consciência, que é una e sem um segundo (advitīya/advaya). Tudo é apenas a pura natureza essencial da própria experiência do Ser. Então, por que deixar-se levar pela ansiedade inutilmente? || 3 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

pūjā: adoração, meditação, prática devocional; pūjaka: adorador, meditante, quem pratica a adoração; pūjya: o objeto de adoração ou meditação; bheda: diferenciação, diferença; saraṇiḥ: caminho, senda, trilha, linha contínua; kaḥ: que?, forma interrogativa; iyaṁ: este, esta, esse, essa; kathā: conversação, diálogo, discurso, palestra, exposição de um ensinamento ou contação de uma história; anuttara: o mais elevado, i.e., a consciência de ser Ātma; saṅkrāmaḥ: transição, passagem, ir de um lugar para outro, um processo realizado com esforço; kila: de fato, realmente, em verdade; kasya: de quem?, por quem?; kena: através de que meios?, por quem?; vidadhe: algo que foi feito, conseguido ou conquistado; kaḥ: que?, quem?; vā: ou; praveśa: entrada, penetração, irrupção, intrusão; kramaḥ: sucessão, progressão; māyā: aparente, dependente, equivocado, errado, algo cuja existência não é independente; iyaṁ: este, esta, essa; na: não; cidadvayāt: que a Consciência não-dual; paratayā: é outra, é outro; bhinnā: diferenciado, partido, perfurado; api: embora, não obstante; aho: ó, interjeição de maravilhamento ou surpresa; vartate: ela permanece; sarvaṁ: tudo, todos, todo; svā: si mesmo, si mesma; anubhava: percepção, compreensão, fruição, impressão psíquica derivada da observação pessoal, resultado, consequência; svabhāva: sua própria natureza, si mesmo, sua própria experiência; vimalaṁ: imaculado, puro, sem mancha, limpo, claro, transparente; cintāṁ: ansiedade, estresse, preocupação, pensamento aflitivo; vṛthā: em vão, inutilmente, desnecessariamente; mā: não; kṛthāḥ: fazer-se, tornar-se, ficar.

Quarta estrofe: o tesouro esquecido

आनन्दोऽत्र न वित्तमद्यमदवन्नैवाङ्गनासङ्गवत्
दीपार्केन्दुकृतप्रभाप्रकरवत् नैव प्रकाशोदयः ।
हर्षः सम्भृतभेदमुक्तिसुखभूर्भारावतारोपमः
सर्वाद्वैतपदस्य विस्मृतनिधेः प्राप्तिः प्रकाशोदयः ॥ ४ ॥

ānando’tra na vittamadyamadavannaivāṅganāsaṅgavat
dīpārkendukṛtaprabhāprakaravat naiva prakāśodayaḥ |
harṣaḥ sambhṛtabhedamuktisukhabhūrbhārāvatāropamaḥ
sarvādvaitapadasya vismṛtanidheḥ prāptiḥ prakāśodayaḥ || 4 ||

Essa plenitude aqui não pode ser comparada à embriaguez da riqueza ou do vinho, nem ao desejo na união com a pessoa amada. O surgimento da Luz não se compara ao fulgor dos raios de uma lâmpada, do sol ou da lua. Ela é como o avatāra que alivia o fardo da Terra e traz a alegria da libertação ao destruir todas as noções de separação. O surgimento da Luz é encontrar o tesouro esquecido, que é a percepção do não-dual em tudo (sarvādvaita). || 4 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

ānandaḥ: plenitude, i.e., o Ser Ilimitado; atra: aqui; na: não é; vitta: conseguido, obtido, alcançado; madya: intoxicação, embriaguez; mada: hilaridade, êxtase, empolgação, inspiração, embriaguez; vat: como, semelhante, que expressa similaridade; na: não; eva: apenas, só, somente; naiva: nem tampouco; aṅganāsaṅga: união com a mulher querida, coito com a pessoa amada; vat: como; dīpa: lamparina, lâmpara; arka: o sol; indu: a lua, o soma, néctar da imortalidade; kṛta: produzido, feito; prabhā: luz, brilho, efulgência; prakara: maneira, forma, tipo, modo; vat: como, semelhante; naiva: nem tampouco; prakāśodayaḥ: o surgimento da luz; harṣaḥ: alegria, satisfação, plenitude, prazer, excitação; sambhṛta: coletado, reunido, acumulado, preparado ou preenchido com; bheda: diferença, divisão, parte, porção, distinção; mukti: liberado, liberto; sukha: satisfação, prazer, felicidade, alegria de viver; bhūr: terra, massa, peso, densidade; bhāra: peso, carga, responsabilidade; avatāra: o que desce, o que se manifesta; upamaḥ: usado como um composto, upamaḥ estabelece uma comparação, como um adjetivo, significa primeiro, mais elevado, excelso; sarva: tudo, todo, a totalidade; advaita: não-dual; padasya: da palavra, do caminho; vismṛta: esquecido, oculto, escondido, secreto; nidheḥ: do tesouro, da riqueza; prāptiḥ: conquista, obtenção, consecução, aquisição, alcance; prakāśodayaḥ: o surgimento da luz.

Quinta estrofe: o deleite na Consciência

रागद्वेषसुखासुखोदयलयाहङ्कारदैन्यादयो
ये भावाः प्रविभान्ति विश्ववपुषो भिन्नस्वभावा न ते ।
व्यक्तिं पश्यसि यस्य यस्य सहसा तत्तत्तदेकात्मता
संविद्रूपमवेक्ष्य किं न रमसे तद्भावनानिर्भरः ॥ ५ ॥

rāgadveṣasukhāsukhodayalayāhaṅkāradainyādayo
ye bhāvāḥ pravibhānti viśvavapuṣo bhinnasvabhāvā na te |
vyaktiṁ paśyasi yasya yasya sahasā tattattadekātmatā
saṁvidrūpamavekṣya kiṁ na ramase tadbhāvanānirbharaḥ || 5 ||

Atração e rejeição, prazer e dor, ascensão e declínio, autoconfiança e desamparo e tudo o mais: todos os estados que constituem o universo parecem manifestar-se como independentes da Realidade Única mas, em verdade, não o são. Seja qual for a vivência específica que você percebe surgindo repentinamente deve-se, naquele exato momento, compreender a própria consciência como sendo una com esse objeto: por que não deleitar-se na plenitude da Consciência? || 5 ||

Comentário

Para deixar claro que a ideia da separação não é real, Abhinavagupta diz: “Sempre que se perceber a especificidade de alguma coisa deve-se, naquele exato momento, compreender a própria consciência como sendo una com esse objeto”.

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

rāga: desejo, apego, interesse; dveṣa: aversão, rejeição, falta de interesse; sukha: alegria, felicidade, plenitude; asukhaḥ: ausência de alegria, dor, sofrimento, tristeza; udaya: que ascende ou se sobrepõe, que se eleva, o amanhecer; laya: dissolução; ahaṅkāra: ego, princípio auto-organizador da individualidade, interface entre o indivíduo e o mundo; dainya: miséria, aflição, depressão, desamparo; ādayaḥ: e as demais, e tudo o mais, etcetera; ye: aqueles que forem, quem quer que seja, o que quer que for; bhāvāḥ: experiências, vivências, sentimentos; pravibhānti: brilham ou se manifestam; viśvavapuṣaḥ: que são a forma do mundo, i.e., que constituem o universo das experiências; bhinnasvabhāvā: de diferentes maneiras, sob diversas formas; na: não; te: elas, eles; vyaktiṁ: aparência visível, manifestação; paśyasi: tu percebes, tu observas; yasya yasya: disto e daquilo; sahasā: abruptamente, repentinamente, inesperadamente; tattat: isto e aquilo; tat: ela, ele, este, esse, aquele; eka: uno, um; ātmatā: condição de ser, identidade com Ātma, compreensão de si mesmo(a); saṁvid: conhecimento integral, compreensão global, perfeita atentividade, consciência de si, completude; rūpam: forma; tattattadekātmatā saṁvidrūpam: ter a forma de Consciência que é Una com aquela [Realidade]; avekṣya: depois de perceber, após ter reconhecido; kiṁ: que? como? por que?; na: não; ramase: deleitar-se, regozijar-se; tad: esse, aquele, este, ele, ela; bhāvanā: trazer à existência, cultivar, produzir, no sentido de criar alguma coisa ou dar lugar a uma experiência; nirbharaḥ: profundo, abundante, pleno, cheio, transbordante.

Sexta estrofe: desperta!

पूर्वाभावभवक्रिया हि सहसा भावाः सदाऽस्मिन्भवे
मध्याकारविकारसंकरवतां तेषां कुतः सत्यता ।
निःसत्ये चपले प्रपञ्चनिचये स्वप्नभ्रमे पेशले
शङ्कातङ्ककलङ्कयुक्तिकलनातीतः प्रबुद्धो भव ॥ ६ ॥

pūrvābhāvabhavakriyā hi sahasā bhāvāḥ sadā’sminbhave
madhyākāravikārasaṁkaravatāṁ teṣāṁ kutaḥ satyatā |
niḥsatye capale prapañcanicaye svapnabhrame peśale
śaṅkātaṅkakalaṅkayuktikalanātītaḥ prabuddho bhava || 6 ||

Neste mundo, a totalidade dos objetos surge eternamente no momento presente; isto é, a atividade da existência não possui um passado ou um futuro. Nessa multidão de aparências fúteis, voláteis e sofisticamente enganosas, tão belas e ilusórias quanto um sonho, permaneça desperto e além da propensão a unir-se à doença da dúvida. Eleve-se mais além dos defeitos forjados erroneamente pelo estigma da dúvida. Desperte, portanto! || 6 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

pūrva: anterior, antes, precedente, passado, o quadrante leste; abhāva: ausência, negação, inexistência; bhava: experiência, sentimento, emoção; kriyā: atividade, ação, tarefa; hi: sem dúvida, de fato, certamente, porque, por essa razão; sahasā: presentemente, repentinamente, de uma vez, abruptamente, imediatamente; bhāvāḥ: emoções, experiências, sentimentos, atitudes; sadā: sempre, continuamente, eternamente; asminbhave: neste mundo, nesta manifestação; madhya: central, meio, intermediário; ākāra: forma, aparência; vikāra: modificação, transformação, variação, mudança; saṁkara: combinação, mistura, confusão; vatāṁ: daquilo que possui ou contém; teṣāṁ: destes, desses; kutaḥ: onde?, donde?, por que?; satyatā: veracidade, realidade, verdade, honestidade, autenticidade; niḥsatye: naquilo que é desprovido de realidade absoluta, inverídico, dependente, falso; capale: naquilo que é instável, inconstante, transitório, em constante mudança; prapañca: o universo manifestado, o mundo material, a expansão da natureza; nicaye: coleção, multidão, assembleia; prapañcanicaye: na totalidade desta manifestação material; svapnabhrame: na ilusão ou delírio de um sonho; peśale: naquilo que é belo, encantador, suave, habilmente composto ou elaborado; śaṅkā: dúvida, suspeita, hesitação, incerteza; ātaṅka: medo, terror, ansiedade, angústia; kalaṅka: mancha, mácula, ponto, defeito, falha; yukti: lógica, raciocínio, argumento, formulação intelectual; kalanā: concepção, cálculo, categorização mental, julgamento; atītaḥ: que está mais além, transcendental, que ultrapassou; śaṅkātaṅkakalaṅkayuktikalanātītaḥ: a realidade última, o Ilimitado, que está além de todas as construções mentais, medos, limitações e conceitos; prabuddhaḥ: desperto, acordado, sábio, iluminado; bhava: sê, torna-te (imperativo do verbo bhū, ser).

Sétima estrofe: uno, tornas-te muitos

भावानां न समुद्भवोऽस्ति सहजस्त्वद्भाविता भान्त्यमी
निःसत्या अपि सत्यतामनुभवभ्रान्त्या भजन्ति क्षणम् ।
त्वत्संकल्पज एष विश्वमहिमा नास्त्यस्य जन्मान्यतः
तस्मात्त्वं विभवेन भासि भुवनेष्वेकोप्यनेकात्मकः ॥ ७ ॥

bhāvānāṁ na samudbhavo’sti sahajastvadbhāvitā bhāntyamī
niḥsatyā api satyatāmanubhavabhrāntyā bhajanti kṣaṇam |
tvatsaṁkalpaja eṣa viśvamahimā nāstyasya janmānyataḥ
tasmāttvaṁ vibhavena bhāsi bhuvaneṣvekopyanekātmakaḥ || 7 ||

Para os objetos inanimados não há origem intrínseca; eles surgem apenas como manifestações tuas. Embora careçam de realidade [independente], assumem a aparência de existência num instante, pela percepção errônea. Assim, a grandeza deste universo nasce da tua vontade. Ela não deriva de nenhuma outra fonte. Portanto, tu brilhas sozinho em todos estes mundos e, embora sejas Uno, tornas-te muitos pela tua própria glória. || 7 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

bhāvānāṁ: os seres vivos e as coisas inanimadas; na: não; samudbhavaḥ: que dá origem, que causa, que produz; asti: existe, há; sahaja: natural, espontâneo, livre; tvadbhāvitā: quando te manifestas; bhāntyamī: que aparenta, que parece ser; niḥsatyā: que não são reais, que são inexistentes; api: embora, não obstante, ainda que; satyatām: veracidade, honestidade, estado de ser real, realidade, aquilo que não pode ser negado; anubhavabhrāntyā: através desse erro de percepção, visão ou interpretação; bhajanti: alcançam, atingem; kṣaṇam: um momento, um instante, um breve período de tempo; tvatsaṁkalpaja: nasce do teu pensamento, surge da tua vontade ou do teu propósito; eṣa: este, esse (pronome masculino que concorda com mahimā, “grandeza”); viśva: universo, cosmos, criação; mahimā: grandeza, magnificência; nāsti: que não existe, inexistente; asya: para ele, para isso; janma: nascimento; anyataḥ: de outra fonte, de outro lugar, de um lado; tasmāttvaṁ: portanto, tu, ou assim, tu; vibhavena: através da magnanimidade, pela riqueza, através do poder; bhāsi: tu apareces, aparentas ser, tu brilhas, tu iluminas; bhuvaneṣu: nos mundos, na existência, nos universos; ekaḥ: uno, um; api: embora; anekātmakaḥ: tornas-te muitos.

Oitava estrofe: o espelho da Consciência

यत्सत्यं यदसत्यमल्पबहुलं नित्यं न नित्यं च यत्
यन्मायामलिनं यदात्मविमलं चिद्दर्पणे राजते ।
तत्सर्वं स्वविमर्शसंविदुदयाद् रूपप्रकाशात्मकं
ज्ञात्वा स्वानुभवाधिरूढमहिमा विश्वेश्वरत्वं भज ॥ ८ ॥

yatsatyaṁ yadasatyamalpabahulaṁ nityaṁ na nityaṁ ca yat
yanmāyāmalinaṁ yadātmavimalaṁ ciddarpaṇe rājate |
tatsarvaṁ svavimarśasaṁvidudayād rūpaprakāśātmakaṁ
jñātvā svānubhavādhirūḍhamahimā viśveśvaratvaṁ bhaja || 8 ||

Real ou irreal, ínfimo ou abundante, eterno ou momentâneo — seja o que for que esteja matizado pelo erro da diferenciação, ou o que quer que seja puro no próprio Ser —, a verdade é que este universo, que surge da tua própria consciência e torna-se uno com a tua essência, manifesta-se glorificado no espelho da Consciência. Tendo constatado a sublimidade do universo e compreendido a grandeza de firmar-se na experiência do próprio Ser, desfruta da soberania universal. || 8 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

yad: que, que é; satyaṁ: real, verdadeiro; yad: que, que é; asatyam: irreal, falso, dependente, que não existe separado da sua causa; alpabahulaṁ: pouco ou muito; nityaṁ: sempre, eterno, invariável; na nityaṁ: não-eterno, perecível; ca: também, tampouco; yad yad: qualquer que seja, qualquer um; māyāmalinaṁ: conspurcado pela ignorância, impureza de māyā; yad: que, que é; ātma: ser, consciência; vimalaṁ: puro, imaculado, sem mancha, límpido, sem defeito; ciddarpaṇe: no espelho da consciência; rājate: com brilho esplêndido, ilustre; tatsarvaṁ: tudo isso, tudo aquilo, que tudo aquilo; svavimarśa: autorreflexão, autoexame, contemplação de si mesmo; saṁvid: conhecimento absoluto, compreensão total; udayād: a partir do surgimento, do despontar; rūpa: forma; prakāśātmakaṁ: luz do ser, autoefulgência de Ātma; jñātvā: tendo conhecido, depois de ter compreendido, havendo percebido; svānubhava: a própria experiência pessoal, percepção direta, auto-observação; adhirūḍha: ascensional, acrescido, elevado; mahimā: grandeza, glória, majestade, magnificência, exaltação; viśva: universo, o todo, tudo o que existe; īśvaratvaṁ: consciência de ser Īśvara, o Ilimitado, supremacia, soberania, senhorio; bhaja: adoração, serviço, devoção.

Colofão: assim se conclui o poema

इति श्रीमदाचार्याभिनवगुप्तपादैर्विरचितानुत्तराष्टिका समाप्ता ॥

iti śrīmadācāryābhinavaguptapādairviracitānuttarāṣṭikā samāptā ||

Desta maneira conclui-se o Anuttarāṣṭikā, escrito pelo mais venerável mestre Abhinavagupta.

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

iti: desta forma, aqui; śrīmad: mais venerável; ācārya: professor, instrutor, preceptor, mestre; abhinavagupta: Abhinavagupta; pādairviracita: composto ou escrito por; anuttarāṣṭikā: as oito estrofes sobre Anuttara; samāptā: conclui-se, completa-se, termina.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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