Já estou acostumada com o clima constrangedor que se levanta pesando toneladas quando o assunto é carne. Na minha opinião o assunto é bicho. Para outros o papo ainda é de alimentação. Mas tudo bem. A questão é que é geralmente na mesa, na horinha sagrada de nurição coletiva que começam as perguntas. Antes ou depois de abocanhar o bife, tanto faz. O clima fica medonho do mesmo jeito. Evito falar. Mas a polêmica brota e a indigestão é inevitável!
Enquanto o papo é sobre proteínas, corpo, músculos e blábláblá, tudo bem. Mas quando começamos a falar de tortura, sofrimento, indústria desumana de vidas, poluição, toxinas, doenças e coisas do tipo, o primeiro impulso é mudar o assunto. Este é realmente indigesto.

Sou vegetariana há seis anos e deixei a carne quando comecei a praticar Yoga. Foi fácil ser convencida. Não sei bem como aconteceu mas resolvi experimentar e gostei. Amei na verdade. Descobri que tenho enorme dificuldade em digerir carne e que meus problemas de sono crônico e preguiça fatal após as refeições tinham um nome: carne. Mas faz pouco tempo que resolvi pesquisar.
Precisava de argumentos para que me deixassem em paz! E então percebi a profundidade do assunto. Estamos falando de vidas, de seres que têm sistema nervoso como o nosso, de escolhas e de um hábito que tem consequências que nossos olhos não vêm. Como diz Peter Singer em seu livro A ética da alimentação:
Se você gosta tanto de comida insalubre que está disposto a aceitar o risco de doenças e morte prematura, então, da mesma forma como a decisão de fumar ou escalar um pico do Himalaia, trata-se primariamente de uma questão pessoal. Nosso foco é o impacto de suas escolhas alimentares sobre os outros.
O que não vemos é o que está para além de nossas barrigas. O que não vemos é o outro. O cara do nosso lado. A vaca, a árvore, os rios, o ar que respiramos e a miséria ali na esquina. O sofrimento de um animal é tão irrelevante como o sofrimento de milhões de pessoas que vivem em condições desumanas. A indústria da carne é consequência de uma cegueira que está em toda a parte.
Poderíamos aqui falar sobre o mito da proteína animal e sobre o impacto da carne na saúde. Ou então sobre paladar e desejo irrefreável de comer um churrasquinho. Ouço com certa frequência esclamações apaixonadas de pessoas que não viveriam sem um bifinho.
Esse prazer delirante e mórbido só pode ser sustentado com ignorância. Poucos são so que aguentam ver imagens ou até mesmo receber as informações sobre o que realmente acontece até o filézinho chegar no prato. Chorei debulhada agarrada ao meu cachorro lendo os livros do Peter Singer e nunca aguentei ver o documentário “A carne é fraca” inteiro. É muita, muita crueldade.
O que se faz com bicho se faz aos nossos olhos com gente. A tortura não é novidade e é sobre isso que estamos falando. O sofrimento de qualquer ser não vale a pena para me alimentar de forma alguma. Afirma Peter Singer:
(…) A agricultura animal destruiu nosso senso instintivo de afinidade com os animais e o ambiente, substituindo-o por uma crença na dominação – uma licença divina para utilizá-los como parecer mais adequado- e um senso de alienação da natureza que está na raiz de muitas de nossas crises sociais e ambientais.” – A ética da alimentação.
É importante que tenhamos informações. Se somos praticantes de yoga ou de qualquer forma de filosofia que busca auto-conhecimento é importante mergulhar para fora, no mundo, na vida e assim encontrar a passagem para o lado de dentro. O outro é um espelho. E se não vemos o outro, seja bicho, gente ou planta, fica mais difícil ainda enxergar a nós mesmos.
Não basta fechar os olhos e meditar. Abre os olhos e olha pra fora. Olha, vê, repara. Olha de novo. Pensa. Fecha os olhos e medita. Abre os olhos e vê melhor, de novo e de novo. Leva a mente junto, o bom senso e a sensibilidade. E depois pega o tapetinho e vai “fazer Yoga”. A gente não está falando de proteína, músculos e blá blá blá. A gente está falando de vida e de compaixão.
Continue a leitura no yoga.pro.br: O perigoso circuito do comer · Do vegetarianismo · O recheio das batatas e o futuro da Humanidade
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