Kāma significa vontade, atração. Isto precisa ser compreendido adequadamente. Kṛṣṇa disse na Bhagavadgītā: ‘eu sou o desejo dos amantes’. Portanto, podemos afirmar que Īśvara (o Ilimitado) manifesta-se sob a forma da atração nos humanos.
Isso obedece a uma ordem, uma ordem que é o próprio Īśvara. A atração ou a aversão por algo não é um problema. Ou não deveria ser, como no caso da raiva.
Desejo e aversão
O desejo vem na forma de atração (rāga) ou repulsa (dveśa). Desejo de adquirir o que você não tem, desejo de experienciar algo que você não conhece, desejo de possuir algo, desejo de estar num determinado lugar, de estar na companhia de algué, de criar alguma coisa, desejo de mudar, etc.
Temos muitos tipos de ambição: não quero ser esquecido, quero deixar uma marca ‘nas areias do tempo’. Vivekānanda falava desse jeito. Eu lia e me inspirava. Tudo bem, tenha vontades e ambições. Isso pode ser positivo, mas isso é rāga (gosto).
Entretanto, ainda tem aquelas vontades que vêm na forma de rejeição ou repulsa. Você não quer rugas, não quer excesso de peso, não quer a companhia de certas pessoas, quer se livrar de certas coisas ou pensamentos. Isso é dveśa (aversão).
Não há nada de errado com ter gostos ou aversões. Kṛṣṇa também disse ‘Eu sou na forma do conhecimento e do dharma em sua própria mente’. Antes do desejo se manifestar, Kṛṣṇa já é, na forma de conhecimento, dentro da sua mente.

Eu espero certas coisas de você. Você espera certas coisas de mim. Quando nós dois nos compreendemos, isso é harmonia, é dharma. O dharma sempre vem na forma de conhecimento do dharma.
Para o ser humano preencher suas vontade, existe um mecanismo de controle, que é justamente esse conhecimento do dharma, que nos permite saber quando estamos agindo corretamente, e quando começamos a atropelar o direito dos demais.
Existe uma pressão que o kāma exerce. O desejo é o próprio poder da motivação. O que acontece é que a pressão torna-se tão grande que você pode se tornar uma vítima desses desejos. Comprometer o dharma é algo que deve ser evitado a qualquer custo.
Uma vida de disciplina, em que este tipo de imperfeição do carácter possa ser neutralizado, é uma vida na qual haverá harmonização com o dharma.
Somente quando você tem um desafio, do tipo harmonizar suas vontades, com a pressão externa, com os conflitos internos e com o próprio dharma, é que você estará praticando de fato o tapaḥ.
É preciso ver na devida perspectiva. É necessário ver o panorama geral, não apenas os detalhes dos desejos. ‘Eu não devo ferir ou ofender Īśvara’ significa que não devo ferir ou ofender a mim mesmo. Atropelar o dharma é atropelar a minha própria dignidade.
॥ हरिः ॐ ॥
Texto anotado e traduzido por Pedro Kupfer a partir de uma palestra de Swāmijī proferida no Āśram de Rishikesh, em abril de 2007.
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