Após haver convivido por alguns anos com as mais diversas espécies de pessoas no mundo do Yoga, a gente fica com a nítida sensação de estar num zoológico. Dentro desse zoológico, ocupa lugar de destaque uma sub-espécie bem curiosa: os “tántricos”.
Com freqüência achamos no nosso meio três tipos de pessoa que aparecem vinculadas ao que se conhece como tantrismo:
1) professores que, na tradição hindu, são chamados jñanabandhus, ou ‘amigos do conhecimento’. Estes são intelectuais diletantes, que possuem muita informação mas nenhuma vivência em relação ao Tantra;
2) praticantes que mergulham nas experiências sem ter muita noção de onde estão se metendo e com que tipo de realidade estão lidando; e
3) mequetrefes de todo pêlo e espécie, desde aqueles que prometem a iluminação e a solução de todos os problemas sexuais em workshops de fim-de-semana até ministrantes de cursos de “nudismo tântrico consciente” e outras versões não menos caricatas do Tantra.
Sempre tive uma desconfiança enorme em relação ao contexto em que às práticas sexuais do Tantra poderiam ser aprendidas, pois tudo o que achei nesses ambientes foi safadeza, marketing, mentira e promiscuidade.
Não estou dizendo que não existam praticantes sinceros e honestos de Tantra, mas estou somente registrando aqui que, pessoalmente, nunca achei ninguém que me convencesse, ou que achasse digno representante da elevada estatura desse corpo de conhecimento que é o Tantra e que ao mesmo tempo, colocasse em prática seus ensinamentos.
Embora as práticas que o Tantra postula em relação à sexualidade como caminho para a transcendência e o desabrochar de espiritualidade sempre tenham exercido um forte fascínio sobre mim, me deparava com a dificuldade em encontrar alguém que estivesse realmente qualificado para transmitir estes conhecimentos.
Por esse motivo, associado aos outros que descreverei mais abaixo, descartei totalmente as práticas sexuais tântricas, embora não tenha acontecido o mesmo com as meditações, os mantras ou o estudo dessa filosofia, que continuou a me interessar bastante.
Como admirador da cultura do Tantra, sempre li com imenso respeito os textos que falavam sobre a transcendência dos opostos através do casamento sagrado (hieros-gamos), a saída da condição humana, a realização da condição divina nesta vida, a quebra dos tabus e o uso da sexualidade como meios para alcançar o estado de transcendência.
Porém, quando comparava as descrições dessas práticas com minha própria experiência dentro do meu ex-casamento, a sensação era da mais completa frustração e, no fundo, ficava me perguntando se o estado de deificação do ser humano descrito nos Tantras não seria apenas uma hipérbole, um daqueles tremendos exageros dos quais os textos tradicionais da Índia estão cheios.
Enquanto que nos Tantras fala-se do(a) parceiro(a) como personificação do deus ou da deusa, eu não podia deixar de sentir as pequenas dificuldades do cotidiano dentro daquele casamento como obstáculos intransponíveis, que inviabilizavam qualquer tentativa de tornar essa relação divinal, transcendental, ou sequer medianamente feliz.
O tempo passou, aquele casamento acabou e a luz chegou, através do amor de alguém muito especial que surgiu como um presente celestial na minha vida: Ângela Sundarī, com quem casei em 2006 na Índia.
Através do lento e profundo processo que iniciamos com minha amada esposa no sentido de nos conhecer aos poucos, fomos descobrindo dentro de nós mesmos uma confiança, uma entrega e um respeito mútuos que formaram a base sobre a qual construímos nossa vivência.
Descobrimos que nosso guru seria a entrega incondicional, a entrega sem questionamentos, julgamentos ou condições. Tampouco entrariam no jogo coisas como informação intelectual, preconceitos, condicionamentos ou comparações. Nem sequer passou pelas nossas mentes a idéia de que estariamos fazendo algo parecido com o viparīta maithuṇā, a prática sexual do Tantra. Apenas começamos a fluir e nos observar.
Teria muitas coisas para dizer sobre a descoberta das sensações, o prazer, e a formidável cura que isso produziu nas minhas feridas antigas, mas vou poupar os detalhes. No presente, todo e qualquer contato entre nós é uma meditação contínua. Tenho meditado regularmente há alguns anos já, com algumas vivências consistentes, e posso dizer que a qualidade dessas nossas meditações conjuntas está entre as mais profundas que já fiz.
Pelo mesmo motivo que poupei mais acima os detalhes sobre a técnica e a relação sexual em si, desisto de tentar descrever as vivências meditativas. De qualquer maneira, é muito difícil descrever com palavras tais estados.
O que posso afirmar, agora, é que estou me curando. Saí do casamento anterior com algumas feridas, mas agora percebo como estou conseguindo, aos poucos e com a ajuda de Sundarī, sarar total e definitivamente.
A lição mais importante que minha amada e eu aprendemos neste processo é que o amor incondicional vem em primeiro lugar e deve ser o guia. O resto é apenas uma conseqüência. Pelo menos, essa foi nossa experiência. Sem a entrega que só o amor incondicional é capaz de dar, a relação estará sempre sendo poluída por influências exteriores e, conseqüentemente, os parceiros impossibilitados de sair do plano meramente sexual, um masturbando-se no outro.
É vox populi entre os estudiosos do Tantra que é preciso praticar o desapego (vairāgya) durante o ritual pañcamakāra, em cujo contexto acontecem as práticas sexuais. Isso, concretamente, significa que não deve haver nenhum tipo de envolvimento emocional entre os parceiros durante a prática. A idéia é produzir um estado de choque no praticante de modo que, através da ruptura dos tabus, ele se coloque para além das dualidades e que entre, dessa maneira, no estado de consciência unificada.
Considerando válidas as afirmações acima, não posso dizer então que nossa vivência seja considerada viparīta maithuṇā (a prática sexual tântrica), e muito menos Tantra com maiúscula. Não obstante, se formos considerar que o Tantra é uma ferramenta que utiliza as forças corporais, energéticas e mentais para nos curar dos padrões impostos pelas nossas próprias limitações inatas (avidyā) e pela sociedade, para podermos desenvolver nosso potencial psico-espiritual, então, o que Sundarī e eu estamos vivendo é Tantra mesmo.
Então, estou escrevendo este depoimento para dizer aos amigos praticantes que é possível completar o processo da cura através do amor e suas expressões físicas. Se você quiser chamar isso de Tantra, tudo bem. Se preferir chamar por outro nome, tudo bem também. Namastê!
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