Não sei dizer quanto tempo durou… nem ao menos sei se era eu quem, de fato, estava ali. Certamente, não era o ego que sou, nem meu nome ou profissão. Ali, eu era apenas um Ser. Como tantos outros que foram receber o seu abraço.
Na primeira noite, não consegui… Passava da meia-noite e ainda não estava nem perto da minha senha. Todos recebemos uma senha para chegar perto da Amma. Fui embora decidida a voltar bem cedo na manhã seguinte. Mas só de ter estado em sua presença, algo estava diferente em mim… dormi e sonhei com tudo que aconteceria no dia seguinte. Se não estivesse dormindo, diria que o que eu tive foi uma visão. Porque aconteceu exatamente como no meu sonho.
Ao chegar, garanti minha senha e fui fazer seva, serviço devocional, ajudando o staff, como tradutora. Depois, entrei numa fila para entregar a ela a prasada, que deveria ser entregue a cada pessoa abraçada. Cada voluntário tem o direito de ficar ao lado dela por cinco minutos. Foram os cinco minutos mais intensos da minha vida.
A cada prasada que entregava a ela, era como se compartilhasse de seu amor, como se a sua compaixão por todos, passasse através de mim, como se fizesse parte de sua congregação, como se fosse sua filha querida, ajudando-a em sua missão. E este é um dos sentimentos mais puros que se pode sentir.
Embriagada de amor, fui sentar sozinha para meditar e ouvir os bhajans, enquanto me preparava para receber seu abraço.
Ao meu lado, sentou-se um renunciante indiano que a acompanha nas turnês e que mora no Canadá. Não perguntei seu nome, nem ele o meu, mas foi um encontro abençoado pela Amma.
Ao dizer-lhe que tinha vontade de morar em seu ashram e vivenciar toda esta devoção, vivendo de fato como renunciante, ele me instruiu: você não precisa estar lá para estar perto dela. Amma está em todos os lugares, cuidando de seus filhos. É só chamar…
Entendi suas palavras como sábios conselhos. Talvez eu não precise mesmo renunciar a tudo para servir a Deus. Talvez cada Ser tenha sua missão no lugar onde nasceu e o que eu deveria fazer era ser uma seguidora do exemplo de Amma no meu país e na profissão que escolhi, ao lado da minha família e amigos e lutar para que nenhuma pessoa sofra, para que todos vivam em paz e com dignidade. Não mudar de lugar e sim, mudar o lugar…
Muitas horas depois, chegou o momento de entrar na fila para receber seu abraço. Conforme ia se aproximando a minha vez, tudo que eu pensei em dizer, em fazer, foi se apagando, minhas pernas foram ficando bambas, a boca secou, os olhos não viam mais nada a não ser sua forte presença.
Não havia tempo ou lugar, o mundo todo era ela e aquele momento. Seu sorriso e olhos de quem sabe tudo… ‘Ela sabe quem é você’, havia me dito o renunciante…
Então, ela me puxou para seu colo, me abraçou falando mantras que eu tentei repetir na hora. Isso é tudo que me lembro. Todo o resto, tudo que eu era, tudo que sabia, todo o passado e o futuro se fundiram na luz da graça de Amma.
Como explicar o intraduzível? Como colocar em palavras o inexplicável? Qualquer tentativa de definição, seria banalizar uma experiência que precisa ser vivida, ser sentida porque extrapola o que a nossa razão conhece. Diz a física quântica que só conseguimos enxergar aquilo que o cérebro reconhece, e os poetas dizem que há muitas coisas entre o céu e a terra que nossa vã filosofia desconhece.
O que sentimos depois de abraçar a Amma é um destes chamados que razão nenhuma explica. Não por ser milagre, mas por ser transmutação. Deixamos para trás o vil metal e passamos a enxergar ouro em tudo, em todas as nossas ações.
Toda a nossa existência passa a ter valor. Nada mais é jogado fora, tudo leva consigo a intenção de servir a Deus. Então qualquer obstáculo, qualquer compromisso indesejado, as obrigações, as contas (metafóricas ou não) que pagamos em nossa vida terrena, passam a fazer parte de um plano muito maior, onde nada pode ser desperdiçado, nenhum minuto pode ser perdido por ser sagrado.
Trata-se de um Ser iluminado, uma encarnação divina, um avatar… Mas antes de tudo, um ser humano como todos nós, provando com seu trabalho e sua coragem, com seu amor e humildade, que através da compaixão, podemos tornar o mundo mais feliz.
Om lokah samasta sukhino bhavantu.
Que todos os seres, em todos os lugares do mundo, sejam felizes.
No amor de Amma,
Namastê!
Tereza é yogini, mora e pratica em São Paulo. Dirigiu e produziu, em parceria com Daisy Rocha, o documentário Caminhos do Yoga, filmado na Índia em 2003.
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