Temos sido testemunhas, ao longo dos últimos 40 anos, de um fenômeno interessante: a tentativa de apropriação de palavras sânscritas ligadas ao Yoga, ao Tantra e ao Ayurveda para serem usadas como nomes comerciais por instituições, empresas, professores, influencers e empreendedores ocidentais.
Antes de começar, é importante estabelecer a distinção entre uma marca registrada e a propriedade de uma palavra: registrar uma marca normalmente dá direitos sobre seu uso comercial em determinados produtos, serviços ou tipos de utilização, e não sobre a palavra em si (nem sobre o seu significado cultural e/ou espiritual).
O caso da palavra prāṇa
A palavra prāṇa foi utilizada pela empresa americana prAna Living, fundada nos Estados Unidos no início dos anos 1990 para comercializar roupas associadas a atividades como yoga, escalada e esportes ao ar livre. A empresa começou a usar o termo comercialmente em 1993 e registrou a marca nos Estados Unidos em 2002, inicialmente para roupas utilizadas na prática de Yoga. O próprio registro informa que prāṇa significa, em sânscrito, “breath of life” (“sopro da vida”).
Curiosamente, há também um registro de um professor de Yoga do Brasil que, em 2007, apropriou-se da palavra prāṇa associada a “atividades de Yoga em academias, educação física, aulas de ginástica, instruções, clubes de saúde e cursos de treinamento prático”, segundo consta no Diário da Propriedade Industrial brasileiro, do INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial).
Ainda lembro bem do profundo constrangimento produzido no meio do Yoga com aquela notícia, especialmente dentre aqueles que haviam usado a palavra prāṇa no nome dos seus espaços de prática, como aconteceu com um amigo pessoal.
Paralelamente, houve outro registro nos Estados Unidos, datado de 2008, que abrangia explicitamente o uso do termo relacionado a serviços educacionais no campo do Yoga, incluindo aulas, cursos, seminários e formação de professores.
Já em 2009, a firma alemã PranaHaus GmbH tentou registrar como EU trademark (marca registrada na União Europeia) a mesma palavra, o que foi indeferido pelo Tribunal Europeu da Primeira Instância com base na sua falta de especificidade. Como o(a) leitor(a) bem sabe, prāṇa é “força vital” no contexto da prática. O tribunal determinou que o termo PranaHaus (literalmente, “Casa Prana”) era puramente descritivo.
Para os consumidores, o nome designava explicitamente o conteúdo e o tema dos livros, gravações e outros itens oferecidos para a venda, em vez de servir como um identificador exclusivo da marca. A firma apelou para o Tribunal Europeu, mas este negou provimento total ao recurso, decidindo que o termo era legalmente impróprio para ser registrado como marca.
No entanto, chega-se ao cúmulo quando, em 2004 a firma Skylark Sport Marketing Corporation, empresa dos Estados Unidos, registra a palavra prāṇa para roupas de ciclismo, escalada e Yoga, na própria Índia. Ou seja, temos um termo sânscrito ligado ao Yoga, que é registrado como marca por uma empresa ocidental, para vender produtos no berço do Yoga.
Esses cinco casos colocam a palavra prāṇa num lugar particularmente significativo: um termo técnico fundamental da tradição do Yoga passou a funcionar como marca comercial ocidental, precisamente dentro do “mercado” atual de Yoga. Para nós, resta o desconforto com esse tipo de pretensão por conta de empresários, comerciantes e professores de Yoga que, do nada, tentam apossar-se desta bela palavra, como se a tivessem criado eles mesmos.
O caso da palavra kuṇḍalinī
A pioneira nas tentativas de registro do termo kuṇḍalinī foi a Osho International Foundation. No ano 2000, esta fundação pediu o registro da palavra dentro do nome Kuṇḍalinī Osho Meditation, com fins associados à meditação, serviços educacionais e outras atividades relacionadas aos ensinamentos desse controverso guru.
Similarmente, 11 anos depois, o finado professor de Yoga californiano Santokh Singh Khalsa solicitou o registro do nome Kuṇḍalinī Treasures (“Tesouros da Kuṇḍalinī“), para cursos e demonstrações de Yoga, posturas, meditação, mantras e desenvolvimento espiritual.
Em 2009, o Kundalini Research Institute (KRI), dos Estados Unidos, depositou no Brasil a marca Kuṇḍalinī Yoga conforme ensinado por Yogi Bhajan. O pedido era nominativo, na classe 41, abrangendo, entre outras coisas, Yoga, Yogaterapia, meditação, filosofia da Índia, cursos livres e ensino. O titular aparece no documento do INPI como Kuṇḍalinī Research Institute (KRI).
Cabe lembrar que a existência de um pedido, depósito de marca ou registro, não significa necessariamente que o requerente tenha conseguido monopolizar o termo, e muitas vezes a proteção (como nos casos acima expostos) recai sobre uma combinação de palavras, um logotipo ou uma categoria específica de produtos.
Porém, mesmo assim, e especificamente em relação à palavra kuṇḍalinī, que se refere a uma forma de Yoga tântrico tradicional, o fato de que haja uma marca registrada (ainda que o nome depositado inclua o esclarecimento “conforme ensinado por Yogi Bhajan” no registro), como sinônima de Kuṇḍalinī Yoga, induz à imensa confusão na opinião pública.
Muitas vezes, em conversações informais não sabemos, até perguntar explicitamente, se o nosso interlocutor refere-se à marca registrada do Yogi Bhajan, ou à tradição do Yoga tântrico original.
Lembre-se que kuṇḍalinī é um termo da herança cultural que faz parte da literatura tântrica e do Haṭhayoga, e não uma expressão originalmente criada por nenhuma das organizações ou professores acima citados.
Esclareca-se ainda que, em termos práticos, o Kuṇḍalinī Yoga do Yogi Bhajan não possui quase nenhum ponto em comum com a enorme variedade de instruções técnicas (kriyās, mudrās, meditações, mantras e visualizações) e demais ensinamentos sobre o despertar de kuṇḍalinī, conforme este aparece nos textos medievais. [Saiba mais sobre kuṇḍalinī aqui.]
Outros casos
Há também numerosos registros contendo outras palavras sânscritas como elementos de marcas: chakra, karma, śakti, mantra, Oṁ, āsana e a lista não termina…
Um caso particularmente interessante é o registro do sagrado mantra Oṁ, feito pela professora de Yoga Pré-natal Rebecca L. Conant, e apresentado em 2016. O sinal inclui o símbolo sânscrito Oṁ -ॐ- e foi registrado com fins de trabalho com instruções para a prática de Yoga.
Outro caso é o do nome Radiant Oṁ Yoga, registrado em 2014, igualmente para instrução e formação em Yoga. Lembre-se que, registrar uma marca composta contendo a palavra Oṁ, não significa necessariamente que o titular tenha exclusividade sobre o símbolo Oṁ e seu uso, por confuso que isto possa parecer-nos.
Conclusões
O uso de nomes em sânscrito por empresas cujo foco está unicamente no lucro a qualquer preço é um fenômeno que levanta questões sobre apropriação cultural, comercialização de símbolos sagrados e perda de significado original. [Saiba mais sobre a a aculturação do Yoga aqui.]
Tão grave quanto isso, é a tentativa de professores e/ou instituições de ensino de Yoga de registrar nomes sânscritos e logo entrar em disputas sobre a propriedade de palavras que têm milênios de existência e de nenhuma maneira foram criadas pelos seus pretensos “proprietários”. A lista desses processos judiciais é gigantesca e mostra egos muito mal resolvidos e uma luta pelo poder assaz patética.
O sânscrito, uma das línguas mais antigas do mundo, carrega milênios de filosofia, espiritualidade e tradição. Palavras como namaste, dharma, karma, āsana ou Oṁ não são apenas termos; são conceitos profundos que permeiam e fazem parte da cultura, da religião e da identidade de milhões de pessoas, não apenas na Índia, Nepal ou Sri Lanka, mas igualmente dos praticantes de Yoga, Tantra e Vedānta de todas as nacionalidades, etnias e lugares.
Quando empresas e instituições registram esses nomes ou termos como marcas comerciais (muitas vezes sem contexto nem respeito pela sua origem), isso pode ser interpretado como uma coisificação de elementos sagrados para fins de lucro. A apropriação cultural ocorre quando elementos de uma cultura são retirados de seu contexto original, desvinculados de seu significado e usados de forma superficial ou exploratória por grupos dominantes.
No caso do sânscrito, isso pode incluir desde marcas de roupas e cosméticos até nomes de produtos tecnológicos ou de bem-estar, que muitas vezes sequer compreendem (ou se importam) com a essência da palavra ou do símbolo que estão utilizando. O branding não apenas desrespeita a cultura de origem, mas também contribui para a banalização de símbolos que, para muitos, são fontes de conexão espiritual, cultural ou comunitária.
Algumas empresas argumentam que o uso de termos sânscritos pode ser uma forma de homenagear a sabedoria milenar da Índia ou de promover valores universais como paz, equilíbrio ou sustentabilidade. No entanto, esse argumento só se sustenta se houver transparência, colaboração com comunidades afetadas e compromisso em dar retorno para as culturas de origem. Sem isso, o gesto corre o risco de ser apenas uma estratégia comercial vazia.
Em um mundo cada vez mais globalizado, é fundamental que empresas e instituições reflitam sobre como utilizam esses elementos da cultura do Yoga. A apropriação não é apenas uma questão ética: deve envolver dignidade e respeito. Antes de registrar um nome em sânscrito, alguém poderia perguntar-se: “Estou honrando esta cultura ou apenas explorando-a?” A resposta a essa pergunta define se o uso é legítimo ou apenas mais um exemplo de como o capitalismo pode transformar o sagrado em commodity.
Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos
