Kuṇḍalinī
“Estou muito interessada nessa energia com a qual você e Dhyānyogi estão trabalhando”.
A kuṇḍalinī é um assunto pelo qual os estudantes ocidentais de Yoga são fascinados, mas acho difícil que alguém realmente compreenda.
Eu tenho lido muitos livros sobre isso e, geralmente, fico mais confusa após terminar o livro do que estava antes de começar!
Há grande quantidade de seminários sobre essa questão, mas nem sempre fico impressionada com as credenciais dos oradores.
Tenho a ousadia de esperar que finalmente irei receber algum esclarecimento sobre esse assunto difícil de entender.
Um amigo meu, que passou a sua juventude reunindo iniciações de vários mestres, afirma que a transmissão śaktipat que recebeu de Ānandi Mā foi, de longe, a mais potente e tangível iniciação que já tinha recebido.
Se ela realmente é uma mestra dessas energias sutis, talvez Anandi Ma possa explicá-las em termos que eu possa compreender.

– O que é realmente a kuṇḍalinī? – arrisco-me, perguntando-lhe.
Acrescento que, às vezes, as pessoas têm experiências estranhas ou poderosas que acreditam significar que a sua kuṇḍalinī se manifestou, mas eu não estou convencida de que isso seja verdade.
Ānandi Mā sorri, os seus olhos escuros brilham, mas depois fica muito séria:
“A kuṇḍalinī é a parte da alma que surge primeiro e prepara o corpo antes que a alma possa realmente entrar nele. Depois que a criação do corpo físico está completa, ela fica adormecida na base da espinha.
“Os yogins utilizam essa mesma energia para alcançar novamente a alma e, depois, Deus.
“É descrita como serpentina devido à sua motilidade, a maneira como a energia se move. Baseia-se em três espirais e meia, que têm diversas interpretações diferentes.
“Por exemplo, diz-se que representam os três aspectos da criação: criação, preservação e destruição; também as três qualidades, sattva, rajas e tamas (pureza, atividade e inércia).
“Refere-se também aos três estados da consciência em diferentes níveis que conhecemos como estado de vigília, de sono e de sonho.
“E, acima de tudo, é sat, cit e ānanda, que chamamos de confiança, consciência e alegria.
“A meia espiral é o estado que todos nós devemos alcançar, conhecido como turiya, totalmente além desse nível comum de consciência.
“A kuṇḍalinī é a energia matriz, a Ādiśakti que, lenta e gradualmente, conduz a pessoa ao objetivo mais elevado. Como parte desse despertar, ela ocasiona, por assim dizer, alguma negatividade como parte do processo de limpeza.
“É isso que tem causado alguns equívocos, porque as pessoas não sabem como lidar com ela. Também há muitas interpretações incorretas, devido às quais as pessoas podem pensar erroneamente que tiveram um despertar da kuṇḍalinī.
“Nós vemos muitas daquelas pessoas. Fica claro como o dia e a noite quando a kuṇḍalinī foi despertada ou quando é alguma outra coisa.
“Na América, infelizmente, há confusão devido à formação cultural, e, muitas vezes, a mente não está disposta a aceitar (a experiência da kuṇḍalinī).
“Nessa cultura, não tomam conhecimento da kuṇḍalinī e, por isso, as pessoas acreditam que há algo de errado com elas. Esse é o problema.
“Você deve conhecer os movimentos físicos (involuntários) chamados kriyās, que são possibilitados pela kuṇḍalinī e que fazem parte da limpeza. Às vezes, você irá ouvir que há ferimentos e que surgem efeitos emocionais.
“Freqüentemente, depois que a kuṇḍalinī desperta, aparecem coisas como raiva e medo, mas são fenômenos muito efêmeros.
“É apenas um processo temporário de limpeza; os seus saṁskāras (tendências e desejos inconscientes) precisam ser liberados, para que a mente fique clara, de modo que a pessoa evolua.
“Cada indivíduo terá experiências diferentes, porque o passado é diferente de pessoa para pessoa. Apesar de tudo isso, bem no início, em algum lugar, há uma sensação de paz e de felicidade.
“Se a pessoa conseguir se relacionar com ela e trabalhar para aumentá-la, a felicidade irá se tornar cada vez maior, até que a pessoa atinja o estágio final e, depois, será uma parte permanente do seu ser.
“Esse estado interior de paz e de felicidade é idêntico para todas as pessoas”.
Ānandi Ma suspira e depois continua:
“Infelizmente, aqui nos Estados Unidos, há muitas pessoas que fazem seminários e palestras sobre a kuṇḍalinī.
“Na Índia, ninguém se torna um mestre até que os seus mestres lhe peçam para assumir o encargo. Há pouquíssimas pessoas que realmente ensinam.
“Elas têm anos e anos de práticas e experiências. Então, e só então, irão se aventurar a ensinar. Ensinar é a última coisa que passa pela cabeça.
“Você precisa ser um especialista em sua área. Somente ler umas poucas coisas não lhe dá o domínio desse assunto.
“A pessoa precisa não apenas de anos de prática e de experiência e da concessão do mestre, mas também da concessão da linhagem.
“Essa é a energia que está sendo gerada há séculos, há milênios, uma acumulação de centenas de milhares de anos de prática. Quando ela é transmitida, isso faz diferença.
“Há séculos já estava escrito nos livros sagrados que, nesta época em especial (kaliyuga, a era das trevas), os cegos estariam na liderança e conduzindo pessoas surdas que não querem ouvir de modo algum.
“Portanto, é uma péssima combinação. De qualquer maneira, é bom que se esteja falando sobre a kuṇḍalinī e fazendo referência a ela, mas, às vezes, o conhecimento parcial é prejudicial, porque induz as pessoas à deturpação, causando mais problemas.
“Não importa o que a pessoa esteja fazendo; se há alguma evolução espiritual, é a kuṇḍalinī que está trabalhando no interior da pessoa.
“Essa é a energia que ajuda você através das diversas experiências necessárias para a evolução individual e que, finalmente, o leva à compreensão, face a face com a realidade.
“Em outras palavras, a kuṇḍalinī é como os raios do Sol. Se você deseja alcançar o Sol, siga os seus raios até encontrar a fonte.
“Essa é a unidade de Śiva e Śakti, surgindo e se unindo no sublime Sadaśiva (a realidade definitiva e imperecível)”.
Extraído do livro Filhas da Deusa – As mulheres santas na Índia de hoje, Editora Nova Era. Digitado por Cristiano Bezerra.
॥ हरिः ॐ ॥
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