Amor e vairāgya: amor é o
que fica quando abrimos mão
de tudo o que “amamos”
Vairāgya, o desapego é algo totalmente natural no homem. Todos queremos viver com o mínimo. Ninguém, a menos que tenha alguma compulsão por acumular ou algum outro problema psicológico, tem prazer em acumular coisas que não têm valor. O problema é saber qual é o tamanho real desse mínimo e qual é o valor real dos objetos para cada um de nós.
A compreensão do conceito de vairāgya é essencial para entendermos a prática do Karma Yoga em toda sua extensão, uma vez que não pode haver Karma Yoga sem desapego. O sábio Patañjali deu a seguinte definição de desapego no Yogasūtra (I:15):
Quando a mente perde todo desejo pelos objetos
vistos ou imaginados, adquire um domínio e
desprendimento que chamado vairāgya, desapego.
Swāmi Dayānanda nos ensina que o verdadeiro desapego consiste em ver as coisas do jeito que elas são, e em perceber a realidade como ela é, tirando todos os valores subjetivos que nós mesmos colocamos no mundo e nas situações que vivemos.

Apego e desapego
Porém, para compreendermos o desapego, precisamos, primeiramente, entender o que é o apego. Swāmiji nos ensina que o apego por objetos ou sensações que produzem prazer está baseado no falso sentimento de segurança que esses objetos ou sensações produzem em nós.
Esse sentimento é falso, afirma o mestre, porque, quando conseguimos o que queremos, apenas estamos trocando um tipo de ansiedade por outro diferente. Vairāgya, o desapego, é o processo de compreensão da inutilidade do esforço em lutar por conseguir ou manter esses objetos.
A compreensão da inutilidade desse esforço nos livra do apego pelo prazer ou pelos bens materiais, que, aliás, nunca irão nos proporcionar a felicidade, a realização ou a plenitude que todos estamos buscando. Vyāsa, o comentarista mais importante dos Sūtras, nos esclarece ainda mais este ponto de vista:
“Quando […] a consciência desvenda a realidade [dos objetos prazerosos] e, por virtude da discriminação, se mantém completamente separada da influência produzida por eles, sendo indiferente tanto perante o bem como frente ao mal, se diz que essa consciência atingiu o estado controlado do buddhi sem fantasias, e isso é chamado vairāgya, desapego”.
Quando deixamos de colocar nossas expectativas nos desejos ou objetos, afirma Swāmiji, vemos essas realidades exatamente como elas são. Assim, conseguimos enxergar o dinheiro apenas como dinheiro, o carro como um carro, etc, e não como fontes de felicidade ou realização (muito embora não seja exatamente isso o que a mídia e a publicidade esperam de você!).
O desapego não tem nada a ver com repressão, mas com uma compreensão real que nos leva e ver as coisas como elas são de fato. Ao conseguir ver se as coisas são realmente necessárias, podemos, naturalmente, nos livrar delas. A renúncia tem um aspecto físico e outro psíquico.
Renunciar é abrir mão das coisas voluntariamente. A renúncia deve ser um processo natural, sem dor, sem lamúrias pelo que estamos deixando. Caso contrário, será apenas um ato de desprendimento forçado que irá irremediavelmente terminar em sofrimento, como arrancar um braço.
Vairāgya e esforço
Vairāgya é completamente diferente de tapas, o esforço sobre si mesmo ou a prática de austeridade.
Renunciar não tem nada a ver com sofrer ou penalizar-se, mas com livrar-se de coisas que não tem mais valor para si mesmo. Deve ser natural e sem esforço. Renunciar significa ir além da possessividade emocional e material sobre objetos e/ou pessoas.
Compreender (viveka) o que tem e o que não tem valor absoluto é o primeiro passo que deve ser dado para que este processo aconteça. Isso pode nos levar a vida inteira.
॥ हरिः ॐ ॥
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