Há dois tipos de dor que você pode sentir numa prática de āsana: uma positiva e outra negativa. Ambos estão ligados ao alinhamento, ou à falta dele, como veremos.
A dor positiva é aquela que você sente nos músculos, longe das articulações. Ela mostra que você está trabalhando e mexendo nas estruturas físicas, construindo novos tecidos musculares e fortalecendo as estruturas físicas para dar a si mesmo um novo corpo.
A dor negativa, é a que você sente dentro das articulações. Ela é sinal de que você pode estar forçando o corpo, fazendo os exercícios sem alinhamento ou praticando sem atenção e sem a atitude adequada.
Se você tiver um corpo extremadamente flexível, precisa redobrar esses cuidados. Uma opção é trabalhar dentro da margem de segurança, evitando quaisquer exageros (recomendada para pessoas muito flexíveis).
A outra, igualmente válida, seria trabalhar no limiar, no ponto onde o prazer se transforma em dor (mais adequada para pessoas não tão flexíveis assim). Neste último caso, se pede atenção redobrada para evitar acidentes.

A importância do alinhamento
Acabamos de mencionar a questão do alinhamento, mas não explicamos nada até agora. O alinhamento é um principio muito importante dentro da prática, pois ele dá segurança na execução dos āsanas.
Para um praticante novo, ouvir falar sobre alinhamento pode soar um tanto ‘etérico’, difícil de entender e mais difícil ainda de colocar em prática.
Desde o ponto de vista puramente fisiológico, o alinhamento lida com a postura ideal: ajustar e alinhar corretamente ossos e articulações pode ajudar a prevenir acidentes ou dores no corpo e potencializa o funcionamento da ‘máquina’, contribuindo desta forma para o bem-estar físico do indivíduo.
Entretanto, limitando-nos ao plano puramente físico, nos confrontamos com diferentes abordagens da questão do alinhamento: deveríamos nos transformar em autômatos iguais aos desenhos dos livros de anatomia ou existiria algum tipo de negociação entre os āsanas e o nosso corpo imperfeito, vitimado pelo esquecimento, a má postura ou o descaso?
Responderemos essa pergunta logo mais. Não obstante, neste ponto surgem outras questões de índole prática: qual seria o encaixe ideal da pelve? Devemos colocar o peso do corpo no meio ou à frente das articulações dos tornozelos?
Dentre todas as perguntas deste tipo que você possa se formular ao longo de uma prática, o maior desafio é descobrir o que significa alinhamento na sua própria experiência.
Embora o conceito de alinhamento seja uma das coisas mais difíceis de se definir no Yoga, existem diversas abordagens que podem nos ajudar a entende-lo melhor.
A primeira aproximação ao conceito de alinhamento envolve a noção dos planos sagital e frontal, que divide o corpo nos hemisférios direito e esquerdo, e partes anterior e posterior.
Desde este ângulo, o alinhamento serviria para consertar as diferenças do corpo entre os lados direito e esquerdo ou anterior e posterior, resolvendo assim casos de desvios de coluna como escoliose, cifose ou lordose.
Por exemplo, se ao fazer a inversão sobre os ombros, sarvangásana, surgirem dores nos lados do pescoço ou nos ombros, que é onde se coloca o peso, isso pode significar que está faltando alinhamento vertical.
Entretanto, a consciência dos planos sagital e frontal é apenas o começo. Alinhamento significa igualmente tomar consciência das diferentes maneiras em que as posturas podem vivenciar-se.
Significa abrir e criar espaço não apenas ao longo de um eixo, mas no organismo inteiro. Não é unicamente se encaixar ao longo de um eixo; não é algo que se impõe externamente ao corpo: existe sim uma adaptação da postura ao corpo de cada um.
Para que você possa começar a tirar alguma conclusão do diálogo interno que surgirá durante a prática, você precisa tornar-se o āsana, ser o āsana, ao invés de unicamente fazer o āsana.
Desenvolver a intuição de como o alinhamento trabalha pode despertar experiências escondidas no corpo, tornando conscientes os saṁskāras, os condicionamentos que moldam as nossas estruturas psíquicas que, por sua vez, moldam o corpo físico. Nesse plano, ainda mais sutil, o alinhamento funciona para abrir caminhos para que a energia ascenda.
Desta forma, buscar o alinhamento profundo pode comparar-se à tarefa de lapidar um diamante. Em primeiro lugar, precisamos colocar muita atenção no processo e ter claro aquilo que estamos procurando.
Partindo de uma pedra bruta, o lapidador consegue enxergar as linhas onde a pedra se abrirá de maneira que se revele a beleza da sua forma e usar essas linhas a seu favor. Uma vez identificadas as linhas de corte, há ainda muito trabalho pela frente, polindo e eliminando as asperezas da superfície da pedra.
A prática de āsana é como lapidar o diamante bruto que é o nosso corpo: só podemos chegar lá sozinhos. Obviamente, um professor competente poderá ajudar, nos mostrando o caminho através de instruções ou sugestões, mas estamos falando de algo sutil, subjetivo e pessoal. Você conseguirá entender isso na hora da prática.
॥ हरिः ॐ ॥
Extraído do livro Yoga Prático.
Leia também:
1) 22 Dicas sobre Āsana
2) Āsana: Pensando com o Corpo
3) Praticar com Segurança e Sucesso
4) 7 Myths About Yoga Alignment
(“7 Mitos sobre o alinhamento no Yoga”, em inglês).
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