Āsana, Pratique

A Importância do Alinhamento na Prática

Antes de falar de alinhamento, convém perguntar: o que é um āsana? A palavra vem da raiz sânscrita ās, que significa sentar-se, estar, permanecer. Āsana é, literalmente, o assento, o lugar onde se permanece. Não se trata de uma acrobacia nem de uma forma a ser exibida, mas de um estado em que o corpo pode ficar, estável e confortável, para que a mente possa, enfim, aquietar-se.

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alinhamento

O que é Alinhamento no Haṭhayoga?

Antes de falar de alinhamento, convém perguntar: o que é um āsana? A palavra vem do dhatu ou raiz verbal sânscrita ās, que significa sentar-se, estar, permanecer, somada ao sufixo. Essa raiz pertence ao adādigaṇa ou classe da 2.ª conjugação. Seu significado fundamental é sentar, permanecer, ficar ou habitar. A essa raiz, soma-se o pratyaya ou sufixo ana. Ele é aplicado no sentido de instrumento ou local (adhikaraṇavācya), e aponta para o lugar ou a posição na qual alguém se senta.

Assim, āsana é, literalmente, o assento, o lugar onde se permanece. Por extensão, o termo designa, ainda, a própria postura do corpo. O āsana não é uma forma a ser copiada de mais alguém, ou feita para mostrar alguma coisa, mas de um estado em que o corpo fica: estável e confortável, para que a mente possa aquietar-se junto com o organismo.

Patañjali, no Yogasūtra (II:46), oferece a definição que orienta toda a tradição: sthirasukham āsanam: o āsana é firme e confortável. Sthira é firmeza, estabilidade, ausência de oscilação. Sukha é bem-estar, conforto, aquela sensação de espaço e leveza que você sente quando encontra o prumo no āsana. Uma postura que tem apenas firmeza torna-se rígida; uma que tenha apenas conforto vira inércia ou desleixo. O āsana acontece no encontro equilibrado e consciente dessas duas qualidades.

O sūtra seguinte (II:47) diz como chegamos nesse equilíbrio: prayatnaśaithilyaanantasamāpattibhyām: ao relaxar no esforço, consegue-se meditar no Ilimitado. Ou seja, o āsana não se conquista pela força bruta, nem pela rigidez, nem pela inércia. Ele se revela quando conseguimos relaxar, apesar do esforço. A Haṭhayoga Pradīpikā (I.17) completa o quadro ao afirmar que o āsana traz estabilidade, saúde e leveza dos membros.

É nesse contexto que entendemos o alinhamento. Alinhar não é encaixar o corpo num molde, nem reproduzir a foto de um livro. Alinhamento é a organização inteligente das partes do corpo entre si, em relação à gravidade e em relação à respiração, de modo que a postura possa ser firme sem tensão inútil e confortável sem perder a integridade. É o meio através do qual a harmonia entre sthira e sukha se torna possível.

Há, portanto, duas dimensões no alinhamento:

1) A primeira é estrutural: ossos e músculos se organizam no espaço para sustentar o peso do corpo da melhor maneira. As articulações, por sua vez, trabalham dentro da sua amplitude natural e distribuem a carga de maneira eficiente;

2) A segunda está vinculada com a atitude com a qual o āsana é feito, desde a construção à permanência, e desta ao ato de desfazer a postura. Essa atitude é a calma atentividade na ação, chamada samādhana: a mente observa, pondera e repousa naquilo que o corpo faz.

Sem a segunda, a primeira é só uma ação física. Sem a primeira, a segunda não teria como acontecer.

Vale lembrar também que não existe um alinhamento universal. Cada corpo tem proporções, características, limitações e possibilidades próprias. O fêmur de uma pessoa não é igual ao de outra, e a forma do quadril muda de pessoa para pessoa, determinando o que é possível nas diferentes ações que cada quadril faz: flexão, extensão, rotação externa, rotação interna, abdução, adução e circundução (movimento circular, que combina todos os anteriores). O alinhamento correto é aquele que respeita a anatomia de quem pratica, e não o que impõe um padrão estético a todos.

A seguir, olhamos para oito aspectos que mostram por que o alinhamento é essencial para uma prática de Yoga consciente, segura e, sobretudo, coerente com os objetivos da prática. Esses objetivos são quatro:

1) consciência do corpo,
2) movimento adequado e saudável,
3) aceitação e contentamento em relação a ele, e
4) capacidade de aceitar e comandar as emoções.

Esse último ponto é cultivado através da interocepção, que é a capacidade de compreender os sinais que corpo envia para o cérebro desde o sistema nervoso entérico, que conecta os órgãos vitais no tronco com o sistema nervoso central, através do nervo vago.

Quando falamos em comandar as emoções, isto não deve ser interpretado no sentido de controlar os sentimentos, mas no sentido de tornarmo-nos conscientes deles, de maneira que possamos identificar algum transbordamento emocional e evitar que ele se manifeste de maneira a vitimizar a si mesmo(a) ou a mais alguém.

Os oito aspectos do alinhamento

1. Segurança: o alinhamento como ahiṁsā

O primeiro princípio da conduta do Yoga é ahiṁsā, a não-violência. Costumamos pensar nela em relação aos outros, mas a não-violência começa pela relação com o próprio corpo do praticante. Forçar uma articulação além do limite, exagerar na permanência, ignorar os sinais do corpo como palpitações, tremores ou dores articulares são formas sutis, e nem tanto, de violência.

O alinhamento correto distribui o esforço de maneira equilibrada entre músculos, tendões, ligamentos e articulações. Os ossos sustentam o peso pela tração e os músculos estabilizam e postura pela compressão. Esses dois princípios devem permitir que as articulações se movam dentro da sua amplitude natural, evitando os extremos de mobilidade ou rigidez.

Assim o corpo trabalha com eficiência e integridade e a prática pode acompanhar-nos pela vida inteira, e não apenas durante alguns anos de entusiasmo, que serão inevitavelmente seguidos de outros tantos anos de dores e lesões.

2. Eficiência: fazer o necessário e suficiente, e nada mais

Na Bhagavadgītā (II.50), Kṛṣṇa define o Yoga como karmasu kauśalam, habilidade ou perfeição na ação. Habilidade significa fazer exatamente o que é preciso, sem desperdício. No āsana, isso se traduz em usar o mínimo de esforço, para o máximo de estabilidade.

Uma postura com tensões desnecessárias, por exemplo quando os ombros estão tensos ou encolhidos, ou tórax colapsado e a respiração dificultosa, é uma postura em que a circulação do prāṇa, o ar vital, fica obstruída. Lembremos que um corpo bem organizado no seu eixo, onde haja amplo espaço para que a respiração e as emoções se expressem, gasta muito menos energia para realizar as ações, e a pessoa sai da prática revitalizada, e não exausta.

3. Equilíbrio: a estabilidade que acalma

Um corpo alinhado é um corpo estável. Quando o centro de gravidade está bem colocado sobre a base de apoio, o sistema nervoso não precisa ficar em alerta para evitar a queda. Esse repouso fisiológico se reflete imediatamente na mente.

Aqui o sthira, a firmeza que Patañjali menciona, ganha corpo. A estabilidade física prepara a estabilidade mental, e por isso o āsana é o terceiro dos oito membros do Yoga, antes de prāṇāyāma, pratyāhāra e da meditação. Não é possível medita adequadamente se o corpo oscilar demais, ou se não houver um mínimo de firmeza e quietude. O equilíbrio no tapete, por outro lado, nos ensina a permanecermos centrados, também diante diante dos desafios e das incertezas da vida.

4. Consciência: o corpo como objeto de estudo

O alinhamento obriga a mente a estar presente. Não é possível organizar o quadril, tracionar a coluna e soltar os ombros com a atenção dispersa. Cada ajuste é um exercício de percepção, e com o tempo essa percepção se refina e aprofunda.

Isso tem um nome: svādhyāya, ou a compreensão de si. Normalmente associado ao estudo dos textos, este svādhyāya inclui também a observação honesta de quem somos, o que inclui o corpo que habitamos. Ao reconhecer os limites naturais do corpo, ao notar eventuais compensações e perceber as características únicas do nosso corpo, aprendemos algo sobre nós, que vai além da anatomia: como reage o corpo diante dos desafios, dos desejos ou das inevitáveis frustrações que surgem do desencontro entre as nossas expectativas e aquilo que a vida nos mostra.

5. Respiração: a ponte entre corpo e mente

A respiração é o termômetro mais confiável para perceber e avaliar como estamos no āsana. Se ela fica curta, presa ou ofegante, algo na postura está errado, por mais bonita que pareça por fora. Uma postura alinhada abre espaço para o diafragma se mover, para as costelas se expandirem e para o abdômen participar do ciclo respiratório.

Quando a respiração flui, ela se torna profunda, ritmada e consciente, e passa a conduzir o movimento em vez de ser arrastada por ele. É nesse ponto que o āsana prepara naturalmente o prāṇāyāma, a regulação consciente do fluxo respiratório e, por meio dele, do prāṇa.

6. Harmonia: o contentamento que já está dentro do corpo

Um corpo naturalmente alinhado expressa leveza, naturalidade e uma certa fluidez no movimento e na auto-expressão, que não depende nem de flexibilidade extrema nem de força bruta. A Haṭhayoga Pradīpikā menciona o aṅgalāghava, ou a leveza dos membros, como um dos frutos do esforço na prática de āsana.

Essa harmonia, porém, não é algo que comece ou termine no aspecto da estética, nem na aparência. Ela é o reflexo exterior de uma atitude interna: a ausência de conflito entre o que se quer fazer e o que o corpo pode fazer. Por isso uma postura simples, feita com presença, costuma ser mais elegante do que uma postura avançada feita com esforço e ansiedade, ou com o foco no resultado a qualquer preço, como às vezes vemos em selfies nas redes sociais.

7. Crescimento: abhyāsa sobre uma base firme

Patañjali ensina no primeiro capítulo do Yogasūtra (sūtras 12 e 14) que o praticante se estabelece no Yoga por meio do abhyāsa, i.e., a prática responsável, cuidadosa e constante, sustentada por um longo tempo, sem interrupção e com dedicação verdadeira. Mas lembremos: uma prática constante, rígida ou forçada, sobre uma base mal construída, apenas aprofunda os erros, os condicionamentos e a rigidez mental.

O alinhamento é o alicerce sobre a qual a construção saudável do āsana se torna possível. Ao compreender a estrutura de cada postura e encontrar a atitude adequada, a yogiṇī ou o yogin sabem por que fazem o que fazem, e podem avançar com segurança para variações exigentes, se for o caso. O progresso na prática não se mede pela postura tecnicamente mais complexa, mas pela qualidade de atentividade que conseguimos manter a cada momento.

8. Integração: a meditação em movimento

Cada ajuste físico é também um ajuste de atitude. Quando a atenção acompanha o corpo e a respiração de maneira contínua, o āsana deixa de ser uma ação apenas física, e pode ser considerado uma forma de meditação em movimento.

A Bhagavadgītā (II:48) diz que samatvaṁ yoga ucyate: o Yoga é chamado de equanimidade. A prática alinhada busca cultivar justamente essa equanimidade: a mesma atenção serena diante da postura acessível ou desafiante, bem como a honestidade e capacidade de adaptar, dia após dia, as diferentes maneiras em que o corpo responde aos estímulos. Assim, corpo, respiração e mente deixam de ser dimensões separadas, e passam a funcionar como o todo integrado que são.

Conclusão

Cultivar o alinhamento é um ato de escuta e sensibilidade. No entanto, é importante não perder de vista o lugar que o āsana ocupa no Yoga. Ele não é o fim em si mesmo da prática, e sim um meio. O objetivo do Yoga é mokṣa, a liberdade, o que significa dar-se a oportunidade de conhecer a si mesmo(a), e dar-se igualmente o direito de repousar na sua própria natureza. O corpo é o ponto de partida para essa jornada, e não o ponto de chegada.

Por isso o alinhamento nunca se deve tornar uma fonte de ansiedade, de comparação ou de busca pela perfeição na forma, ou pela imitação daquilo que outros corpos fazem, mas um reencontro contente com as características do próprio organismo, independentemente de quais elas sejam. Noutras palavras, aceitar o corpo como ele é a cada momento.

Um praticante obcecado pela postura “certa” apenas trocará um tipo de apego por outro. A prática de Haṭhayoga não pede perfeição externa numa forma congelada, mas atentividade, honestidade e constância. O alinhamento deve servir como ferramenta para cultivar esses valores.

Quando corpo, respiração e mente se organizam em torno de um mesmo centro, algo muda. A prática deixa de ser uma sequência de movimentos e passa a ser uma experiência de presença. A firmeza e o conforto deixam de ser qualidades apenas físicas e passam a expressar um modo de estar no mundo: estável sem rigidez, aberto sem dispersão.

É aqui que o alinhamento transcende a postura física: as mesmas qualidades que ele nos permite desenvolver (respeito pelos limites, recusa da violência, a disposição de ajustar), extendem-se para as qualidades de uma vida calma, consciente e bem vivida. Alinhar-se, no sentido mais amplo, é viver de acordo com a própria natureza, com aquilo ao que a pessoa se mantém essencialmente fiel: seus próprios valores e a equanimidade diante das vicissitudes e desafios.

Alinhamento, portanto, não é apenas uma técnica. É uma atitude diante da vida: estar presente, atento e em harmonia, no āsana e fora dele.

Dica para praticantes e professores

Incentive-se, e incentive seus alunos (caso você ensine Yoga), a observar o corpo com curiosidade e compaixão. Pergunte-se menos “como esta postura deveria ficar?” e mais “o que esta postura está me mostrando hoje?”.

O alinhamento ideal não é o que se encaixa num padrão, mas aquele que respeita as características únicas de cada corpo. Fique assim à vontade para usar recursos, apoios como blocos ou uma parede sem constrangimentos. Adapte as posturas sem culpa e deixe que a respiração seja o seu guia: enquanto ela fluir com calma, lembre que você estará no caminho certo. Boas práticas.

Se quiser saber mais sobre a construção da prática pessoal, veja este vídeo: Como Montar uma Série Completa de Āsanas? — Mini-Aula em 29m

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Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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