Kaliya

A História de Kṛṣṇa e Kāliya

Por Pedro Kupfer 2 de maio de 2016 4 minutos de leitura

Kṛṣṇa e Kāliya. A história de começa assim: Kāliya era um nāga, um gênio-serpente muito poderoso que vivia no rio Yamuṇā, perto da linda cidade de Vṛndāvaṇa. Tinha tanto veneno que, quando se movimentava, as águas do rio ficavam contaminadas num raio de sete quilómetros à sua volta. O nāga não era oriundo daquele lugar, mas de Rāmaṇaka Dvīpa. Ele tinha migrado para a beira do rio, fugindo do deus-águia, Garuḍa.

Este, por sua vez, não ia para Vṛndāvaṇa, à beira do Yamuṇā, por medo de ser morto lá, uma vez que um yogi ancião o tinha amaldiçoado dizendo que, se ousasse bater as asas sobre essa cidade, encontraria nela uma morte fulminante. Assim, Kāliya, conhecendo a maldição do yogi, sentia-se seguro à beira do sagrado rio.

Um dia, Kṛṣṇa e seus amigos estavam batendo uma bola à beira do rio, quando ela foi parar na água. o deus mergulhou desde uma árvore kadamba para recuperá-la, porém o seu movimento incomodou o nāga, que o rodeou com suas cento e dez cabeças de maneira muito ameaçadora, vomitando veneno e criando uma nuvem peçonhenta ao seu redor.

No entanto, Kṛṣṇa cresceu e cresceu e cresceu, até se tornar tão grande que Kāliya teve que soltá-lo. Quando Kṛṣṇa se voltou para seus amigos de Vṛndāvaṇa percebeu que eles estavam morrendo de medo da serpente. Nesse momento, e para acalmá-los, dançou sobre o nāga, concentrando nele todo o peso do universo, ao mesmo tempo em que marcava o ritmo da dança ao bater com os pés nas suas múltiplas cabeças.

Nisso, as esposas de Kāliya, que estavam ficando muito preocupadas com a integridade do marido, pediram para Kṛṣṇa com as mãos postas para libertá-lo, o que ele naturalmente fez. Kāliya reconheceu o poder de Kṛṣṇa e foi abençoado por ele, que permitiu que o nāga fosse de volta para sua terra, Rāmaṇaka Dvīpa, garantindo que Garuḍa nunca mais o perseguiria. Kṛṣṇa é toda a bondade, toda a compaixão, toda a graça.

Simbolismo da história de Kṛṣṇa e Kāliya

O amigo leitor deve saber que as águias, das quais Garuḍa é rei, são um símbolo solar, de clareza diurna, que se contrapõe àquilo que as serpentes representam. Estas estão ligadas as profundezas, e simbolizam a noite, a escuridão, o inconsciente humano. A rivalidade entre Garuḍa e Kāliya é antiga, e já aparece, sob outros nomes e formas, na história de Indra e Vṛtra, do Ṛgveda.

Quando Indra, o rei dos deuses, vence em combate o dragão Vṛtra, este lhe diz: “não me fustigues mais, pois agora tu és quem eu era!” E pede-lhe para ser cortado em dois, o que Indra faz com um golpe só. Com a parte do dragão que continha o soma, licor sagrado, Indra criou a Lua; com a outra fez o ventre dos homens.

Essa dicotomia luz-sombra, sol-lua, céu-água, consciente-inconsciente, aponta para a peculiar condição humana e o mundo das dualidades, onde a vida acontece. A dança de Kṛṣṇa sobre a serpente representa a vitória do sol sobre a sombra, ou a vitória do conhecimento sobre a ignorância existencial. Noutras palavras, a transcendência das dualidades, que aponta para a possibilidade de uma vida livre e plena. Uma vida de mokṣa.

॥ हरिः ॐ ॥


Esta história é da Bhagavāta Purāṇa, X:16
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॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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2 respostas

  1. Paulo Roberto Triguis Schimit

    Linda! Mas qual o significado oculto desta história?

    1. Pedro Kupfer

      Simbolismo da história de Kṛṣṇa e Kāliya.
      O amigo leitor deve saber que as águias, das quais Garuḍa é rei, são um símbolo solar que se contrapõe àquilo que as serpentes representam. Estas estão ligadas as profundezas, e simbolizam o inconsciente humano. A rivalidade entre Garuḍa e Kāliya é antiga, e já aparece, sob outros nomes e formas, na história de Indra e Vṛtra, do Ṛgveda.
      Quando Indra, o rei dos deuses, vence em combate o dragão Vṛtra, este lhe diz: “não me fustigues mais, pois agora tu és quem eu era!” E pede-lhe para ser cortado em dois, o que Indra faz com um golpe só. Com a parte do dragão que continha o soma, licor sagrado, Indra criou a Lua; com a outra fez o ventre dos homens.
      Essa dicotomia luz-sombra, sol-lua, céu-água, consciente-inconsciente, aponta para a peculiar condição humana e o mundo das dualidades, onde a vida acontece. A dança de Kṛṣṇa sobre a serpente representa a vitória do sol sobre a sombra, ou a vitória do conhecimento sobre a ignorância existencial. Noutras palavras, a transcendência das dualidades, que aponta para a possibilidade de uma vida livre e plena. Uma vida de mokṣa.

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