As diversas correntes da variada tradição hindu apresentam distintas interpretações sobre quem são e qual é a função dos Avatāras.
O termo Avatāra significa “Aquele que Desce”, e indica uma encarnação terrestre da forma divina de Viṣṇu, o Preservador da Criação.
Um Avatāra é uma encarnação viva do Divino, nascido de pais humanos, que apresenta uma sucessão de virtudes divinas com características humanas.
Os Avatāras não aparecem necessariamente como renunciantes, mas enfatizam, em seus ensinamentos, a importância da vida de ação em harmonia com a vida de contemplação.
Cada um deles chega à Terra com uma missão específica, estando todas estas vinculadas à restauração da harmonia na sociedade ou no universo.
A Gāruḍa Purāṇa fornece uma lista de dez encarnações, enquanto que a Bhagavata Purāṇa menciona 22 e posteriormente mais três, levando o número total de encanações divinas a 25.
Na Gāruḍa Purāṇa, Kalki aparece como a décima e última encarnação de Viṣṇu. Na Bhagavata Purāṇa, ele é considerado a vigésima segunda.
Não obstante, há unanimidade nas tradições hindus em considerar que todas e cada uma das formas de vida, humanas, animais ou vegetais, são manifestações de Brahman, o Ilimitado. Nesse sentido, cada ser vivo é um Avatāra, uma encarnação divina.
A diferença entre todos os seres vivos e os Avatāras de Viṣṇu é que estes últimos são plenamente conscientes da própria identidade divinal e reencarnam voluntariamente para ensinar e relembrar a importância de uma vida dentro do dharma a uma Humanidade frequentemente amnésica.
Imagens baseadas na descrição da Viṣṇu Purāṇa descrevem Kalki cavalgando um cavalo branco alado, chamado Devadattā.
O nome Kalki significa em sânscrito “Aquele que é feito de ferro”, ou ainda, “Aquele que destrói as impurezas (ou a escuridão, que representa a ignorância)”.
Kalki brande uma espada flamígera na mão direita, que representa o discernimento, a capacidade de separar equivocação e realidade.
É usando essa espada que Kalki irá erradicar a corrupção inerente à kaliyuga.
Às vezes, no sul da Índia, Kalki aparece sob a forma de um homem com cabeça de cavalo, carregando os atributos de Viṣṇu, a concha e o disco.
Dentro das escrituras hindus, a mais antiga a mencionar este Avatāra é a Viṣṇu Purāṇa, que data da dinastia Gupta (séc. VII d.C.).
Posteriormente, ele aparece mencionado na Agni Purāṇa, na Kalki Purāṇa, na Bhagavata Purāṇa, na Padma Purāṇa, no Mahabhārata, no Śrīmad Bhagavatam, na Brahmavaivarta Purāṇa, na Harivaṁśa Purāṇa, na Brahmāṇḍa Purāṇa e na Viṣṇudharmottāra Purāṇa.
O papel de Kalki Avatāra
Kalki é aquele que ainda não veio. Sua aparição aparece injustamente ligada à dissolução e apocalipse, tendo sido equivocadamente associado, como veremos mais adiante, à violência e belicosidade.
Em todos estes textos, as predições indicam Kalki como o restaurador da justiça e daquilo que é correto, como o destruidor do egoísmo, da violência e dos abusos.
Kalki aparece igualmente como vencedor dos usurpadores do poder e da má governança e construtor de uma sociedade mais justa.
Porém, fundamentalmente, vaticina a Viṣṇu Purāṇa, Kalki irá iluminar com seu ensinamento uma Humanidade sedenta pelo conhecimento libertador, “tornando as mentes claras como o cristal”.
Essa obra nos dá a seguinte descrição da missão de Kalki:
“Quando as práticas sancionadas nos Vedas e as instituições que sustentam o dharma tiverem quase cessado, e o fim da era do conflito (kaliyuga) for iminente, uma manifestação do Ser Divino que existe na própria natureza essencial sob o aspecto de Brahman, aquele que é o início e o fim, e que abrange todas as coisas, descerá à Terra (…) sob a forma de Kalki, dotado dos oito poderes paranormais.
“Destruirá, por seu poder irresistível, todos os delinqüentes e ladrões, e todos aqueles cujo espírito esteja devotado à injustiça.
“Restabelecerá a justiça sobre a Terra, e os espíritos daqueles que vivem no fim da idade de Kali serão despertados e por tal maneira se tornarão transparentes, como o cristal.
“Aqueles que assim forem transformados, pela virtude desta época particular, serão as sementes dos novos seres humanos, e darão nascimento a uma sociedade que seguirá as leis da kṛtayuga, a era da pureza.” Viṣṇu Purāṇa, IV:24.
Kṛṣṇa veio para lembrar, no diálogo como o guerreiro Arjuna plasmado na Bhagavadgītā, o quanto é fundamental conhecer o próprio dever para levar uma existência tranquila e feliz, apesar das dificuldades inerentes à própria condição humana.
Buddha encarnou para relembrar à Humanidade da importância de uma vida no dharma, da compaixão e falou sobre a necessidade de abandonar as formas ritualísticas ocas.
Comparando Kalki com estas últimas duas encarnações divinas, percebemos que ele virá para lembrar da importância do discernimento.
Nesse sentido, cabe lembrar que Kalki é igualmente chamado Viṣṇuvyāsa na Harivaṁśa, fazendo uma clara alusão ao professor que recolheu e preservou a história, a mitologia e o conhecimento espiritual no grande épico Mahabhārata.
O papel de Kalki, portanto, não precisa ser interpretado necessariamente como o do destruidor ou aniquilador do mundo corrompido pela ausência de valores, mas como aquele que destrói a ignorância.
A espada, principal atributo de Kalki, assim como o machado do deus-elefante Gaṇeśa, sempre esteve associada ao discernimento, à capacidade de separar o correto do errado, o que tem valor daquilo que não tem.
Assim, podemos considerar Kalki um educador, alguém que virá para instruir a Humanidade e nos relembrar daquilo que é verdadeiramente importante.
As tradições da Índia apontam para o fato de que o tempo é cíclico e que, no fim de cada era, há uma renovação natural.
Assim, Kalki é aquele que dá fim ao ciclo presente, em que estamos mergulhados na ignorância, no egoísmo e na busca de conforto e prosperidade material, e inicia o novo ciclo da idade da verdade, satyayuga, onde novamente prevalecerão a harmonia, a paz e a felicidade.
“Kalkis” modernos
Infelizmente, a imagem de Kalki que surge da leitura das Purāṇas, como destruidor do mal, montado num cavalo, com a espada em punho, tem instigado a imaginação de alguns falsos mestres, que não raramente afirmam ser eles próprios esta encarnação de Viṣṇu e que, atualmente, se contam às dúzias.
A irresistível tentação de alguns líderes messiânicos contemporâneos de apresentar-se como a “verdadeira e única” encarnação de Viṣṇu, na forma de Kalki, rendeu curiosos frutos ao longo dos últimos tempos.
Nas primeiras décadas do século XX, uma série de cínicos estudiosos das tradições indianas, como Savitri Devi, Julius Evola, Maximiani Portaz e Miguel Serrano, chegaram ao absurdo de declarar que Adolf Hitler era Kalki Avatāra, tentando integrar a visão hindu com a mitologia nórdica e a pregação nazista.
Outras figuras controversas que se autoproclamaram Kalki incluem o colombiano Víctor Manuel Gómez Rodríguez (Samael Aun Weor), fundador do gnosticismo, e os indianos Shrikant Mahajan, de Jalgaon, Maharastra, e Vijay Kumar, de Perambur, Chennai, este último o mais fraudulento e perigoso dos “avatāras” atuais.
[Leia mais sobre os “Kalki” modernos aqui]
Sobre essa peculiar situação, que pode confundir a opinião pública, nosso mestre, Swāmi Dayānanda, disse-nos uma vez: “essas pessoas têm o direito de afirmar serem encarnações de Viṣṇu, mas você tem também o direito de não acreditar nelas”.
Cabe lembrar que, de acordo com a cronologia purânica, Kalki Avatāra irá manifestar-se no fim da kaliyuga, a era do conflito que estamos vivendo presentemente, dando lugar a um novo ciclo do tempo, que recomeçará com uma nova kṛtayuga, era da verdade.
Segundo o Mahabhārata, Vāṇaparva, a atual kaliyuga estender-se-á por um período de 432.000 anos.
Havendo começado esta era há apenas 3.500 anos, com a guerra narrada no Mahabhārata, temos uma certa espera até testemunharmos o advento do décimo Avatāra. Portanto, isso acontecerá apenas daqui a mais 428.500 anos. Ou seja, temos bastante tempo ainda…
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