Por onde anda ahimsa?
Aquilo que deveria ser o princípio básico das relações humanas é na verdade quase uma utopia nos tempos atuais. Tenho uma amiga que sempre esteve envolvida em movimentos e causas de cunho político. Desde os tempos do colégio sempre foi ativista em grêmios, ongs e coordenou e chefiou grandes iniciativas de modificação em sua faculdade. Porém é assustadora a insensibilidade com que se refere à ‘empregada de sua casa’, que ‘não faz o trabalho como é mandada’.
A frieza dessa relação entre patroa e empregada, que deveria ser uma relação de companheirisimo, visto que a segunda toma conta e cuida de lar da primeira, lembra as relações de hierarquia que existiam entre servos e senhores não muito tempo atrás.
Sem ahimsa, sem não-violência verdadeira, todos os discursos sociais e políticos de intenções mais nobres ficam vazios. Mas em que época essa realidade foi diferente? A agressividade, a violência e as relações de poder são tão presentes em nossos dias, quanto eram em tempos mais remotos da humanidade. Uma história permeada de crises, conflitos e acontecimentos que destoam do que conhecemos como Dharma.
O Dharma está em crise desde que o homem começou a se relacionar com o poder. Talvez desde que o homem descobriu o fogo. A valorização do poder ocupa um papel de grande destaque na nossa história. A busca por ele resistiu ao tempo e norteia ainda hoje nossos objetivos e condutas.
O desejo por ele infiltra-se pelas ‘arestas’ de nossa personalidade, manipulando pelos bastidores os impulsos que conduzem as nossas ações. Tamanha é a capacidade de persuasão do ego quando imbuído desta ‘sede’ pelo poder, que a encontramos camuflada nos gestos mais nobres.
O poder em si não é o vilão, mas a relação que estabelecemos com ele é que é problemática. Levamos muito a sério essa história de seleção natural, e na busca por sermos os mais fortes, comprometemos nossa relação com os valores, perdendo os referenciais corretos.
Encontramos algumas expressões de ahimsa em alguns momentos na vida e em restritas relações. A ironia maior é que tais momentos nos proporcionam uma grande satisfação, mas esta extingue-se logo após estes momentos, quando na verdade essa sensação deveria servir de ponto de partida para questionarmos nossos padrões comportamentais e deixarmos de nos mover pelas nossas conveniências.
Em nosso mundo crescem cada vez mais barreiras entre eu e você, meu e seu, proporcionalmente ao aumento da competitividade e do desenvolvimento tecnológico em nossas vidas. Proliferam fatores que incentivam as dualidades, ao invés de reduzi-las. Como o movimento feminista, por exemplo, que começou com uma finalidade nobre de diminuir diferenças, mas criou um novo problema afastando as mães de seus filhos, terceirizando a função primordial da educação e interferindo no estabelecimento de ahimsa na sociedade como um todo.
O maior referencial de educação e valores deve estar em casa e não nas escolas onde os padrões de educação seguem a demanda dessa sociedade enferma.
As crianças não podem ter os referenciais da TV, do Playstation, da Internet, do Messenger, do Orkut, ou das revistas Capricho para formar sua visão das coisas. Os valores, a começar por ahimsa, devem inicialmente ser aprendidos no lar, em pequenas atitudes, em exemplos e diálogos.
As crianças high-tech de hoje são extremamente estimuladas e desenvolvidas intelectualmente, porém, muito pouco amadas. Sairão de casa preparadas para o mercado de trabalho porém emocionalmente frágeis e carentes. Enquanto isso, as mães e pais recebem aplausos e honrarias em seu trabalho, e as ‘sementes’ de valores que não estão sendo lançadas no tempo certo farão falta, contribuindo para a escassez de amor no solo do mundo.
O mundo parece extremanente infértil para o amor. Sofremos de insuficiência afetiva e inabilidade crônica para lidarmos com isso.
Percebe-se no teor das conversas, na realização das prioridades diárias, nos hábitos cotidianos, nas relações entre as pessoas, que não há espaço para cordialidade desinteressada, para a gentileza sem segundas intenções, para a fraternidade sem merchandising. A competitividade é o orientador geral das ações; compaixão é algo démodé; caridade, algo piegas; doçura, um sinal de fraqueza; e só se faz algo bom para alguém se isso trouxer um benefício em troca, uma compensação futura.
Fica difícil de encontrar espaço para o tal do amor, que acaba sendo mais bem expresso nos poemas e letras de música, muitas vezes banalizado na boca das pessoas, mas cada vez menos presente nas relações humanas.
‘Faça aos outros aquilo que gostaria que lhe fizessem’, ‘ame o próximo como a ti mesmo’, tantas vezes isso é repetido, mas tão pouco aplicado.
Para erradicarmos um mal, é preciso que primeiro o reconheçamos como tal. Esse padrão de imposições e sobreposições de ‘espaços’, de opiniões e idéias, onde predomina a ‘lei do quem pode mais’ é a regra geral, aceita e muitas vezes louvada.
Precisamos nos conscientizar dessa necessidade de ahimsa, de benevolência e bondade gratuita e desinteressada, de compaixão e amor, não apenas com o intuito de criarmos movimentos e revoluções sociais (apesar de que são necessários), mas para aplicarmos primeiramente em nossas condutas diárias, em atitudes pequenas que fazem grandes diferenças.
A verdade é que estamos nesse século cheio de ‘maravilhas’ científicas e tecnológicas, mas somos muito rudes ainda, embrutecidos em termos de sentimentos, e de civilização mesmo nós só temos o verniz, encobrindo uma mentalidade rudimentar como a de nossos antepassados primitivos.
Devemos começar a buscar ahimsa avaliando a qualidade da relação que estabelecemos conosco, com nossa individualidade. De que forma ahimsa pode melhorar o tratamento que direciono a mim mesmo?
Melhorando essa relação, naturalmente estendo essa qualidade aos meus filhos, marido, animais de estimação, fazendo de minha casa um ambiente estabelecido em ahimsa, um templo de paz. Através de simples atitudes podemos começar a trazer ahimsa para nosso lar. Evitando alimentar-se às custas do sofrimento de animais, reciclando o lixo, evitando desperdícios e poupando o planeta da agressividade do consumo, sendo cordial com os vizinhos, com as pessoas que lhe prestam serviços, dentre outras variadas formas.
Isso, por si só, já e capaz de produzir uma grande revolução e contribuição para o mundo.
Cristiane é yogini e professora em Belo Horizonte. Seu email é crislacorte@yahoo.com.br.
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