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Bhairavastotram de Abhinavagupta

Bhairavastotram de Abhinavagupta: o Hino a Bhairava (992 d.C.) em sânscrito, com transliteração, tradução e pādapāṭha palavra por palavra.

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Pintura do Sul da Índia, c. 1820: Śiva como Bhairava, de quatro braços com tridente, tambor ḍamaru e crânio, diante do seu cão, com Brahmā de quatro cabeças ajoelhado em adoração

श्रीः

भैरवस्तोत्रम्

Bhairavastotram

O Hino a Bhairava · Abhinavagupta

Bhairavastotram (भैरवस्तोत्रम्), também chamado Bhairavastava, quer dizer «Hino a Bhairava». Stotra e stava vêm da raiz stu, louvar, e designam o poema de louvor que se canta ou se recita diante da divindade. Bhairava, «o Terrível», é o nome de Śiva na sua forma mais intensa e, no Tantra do Trika da Caxemira, o nome da própria Consciência absoluta. A tradição glosa a palavra pelas suas três sílabas: bha, de bharaṇa, sustentar; ra, de ravaṇa, ressoar e reabsorver; va, de vamana, projetar, emanar. Bhairava é, portanto, aquele que manifesta, sustenta e reabsorve o universo; e é também, numa segunda etimologia, bhīrūṇām avitā, o protetor dos que temem. É exatamente esse o tema do poema: diante da morte, o devoto que reconhece que sua própria natureza é Bhairava deixa de temer.

Uma breve glossa

São dez estrofes, nove delas na métrica (chandas) dodhaka, de onze sílabas por verso; a décima, que serve de colofão, muda de métrica para dizer o nome do autor e a data. Foram compostas pelo grande mestre Abhinavagupta (c. 950–1016), o maior expoente do Śivaísmo da Caxemira. A última estrofe traz a data: o décimo dia da quinzena escura de Pauṣa do ano 68 do ciclo laukika (4068 da era Saptarṣi), ou seja, por volta de dezembro de 992 da nossa era. É um dos poucos textos de Abhinavagupta datados pelo seu próprio punho.

Diferentemente do Anuttarāṣṭikā, que instrui, este hino é uma prática de entrega. Abhinavagupta fala na primeira pessoa e dirige-se a Bhairava, a Maheśa, a Śaṅkara, a Antaka (a Morte) e a Nātha, o Senhor, com uma única certeza: tudo isto é feito de ti (tvanmaya), e por isso o meu próprio ser é o teu. Dessa certeza decorrem os temas do poema: o fim do medo do saṁsāra (estrofes 3 a 5), a chuva de néctar que cai sobre a mente assim que a dor aparece (7), a superioridade do estudo do śāstra sobre jejuns, banhos e austeridades (8) e a alegria da consciência que dança e canta (9). Quem conhece o Vijñānabhairava Tantra reconhecerá aqui o mesmo Bhairava: não um deus distante, mas a consciência que o praticante é.

A seguir, apresentamos o texto em devanāgarī e sua transliteração, com a tradução de cada estrofe e, ao pé delas, o pādapāṭha, a tradução palavra por palavra.

Primeira estrofe: o refúgio dos desamparados

व्याप्तचराचरभावविशेषं चिन्मयमेकमनन्तमनादिम् ।
भैरवनाथमनाथशरण्यं त्वन्मयचित्ततया हृदि वन्दे ॥ १ ॥

vyāptacarācarabhāvaviśeṣaṁ cinmayamekamanantamanādim |
bhairavanāthamanāthaśaraṇyaṁ tvanmayacittatayā hṛdi vande || 1 ||

Ó Bhairavanātha! Te manifestas em todas as formas, dinâmicas e ativas, bem como nos objetos inanimados. Essa é a tua existência significativa, plena de emoção. És ilimitado, sem início. Ofereces refúgio aos desamparados e sem ajuda. Rendo-te homenagem desde o mais profundo do meu coração. || 1 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

vyāpta: que permeia, que preenche, penetrado; cara: móvel, o que se move, os seres animados; acara: imóvel, o que não se move, o inanimado; carācara: tudo o que se move e não se move, o universo inteiro; bhāva: ser, existência, estado, coisa, sentimento; viśeṣa: particularidade, distinção, cada coisa específica; vyāptacarācarabhāvaviśeṣam: que permeia cada ser particular, móvel ou imóvel; cinmayam: feito de consciência, cuja natureza é consciência (cit + maya); ekam: uno, único; anantam: infinito, sem fim; anādim: sem começo, sem origem; bhairava: Bhairava, o Terrível, nome de Śiva; nātha: senhor, protetor, amparo; bhairavanātham: o Senhor Bhairava; anātha: sem senhor, sem protetor, desamparado; śaraṇya: refúgio, que dá abrigo; anāthaśaraṇyam: refúgio dos desamparados; tvanmaya: feito de ti, pleno de ti (tvat + maya); citta: mente, consciência individual; tvanmayacittatayā: com a mente plena de ti, por ter a mente feita de ti (instrumental do abstrato em -tā); hṛdi: no coração (locativo de hṛd); vande: eu saúdo, reverencio, presto homenagem.

Segunda estrofe: tudo é feito de ti

त्वन्मयमेतदशेषमिदानीं भाति मम त्वदनुग्रहशक्त्या ।
त्वं च महेश सदैव ममात्मा स्वात्ममयं मम तेन समस्तम् ॥ २ ॥

tvanmayametadaśeṣamidānīṁ bhāti mama tvadanugrahaśaktyā |
tvaṁ ca maheśa sadaiva mamātmā svātmamayaṁ mama tena samastam || 2 ||

Ó Maheśa! Pela graça da tua bênção, todo este universo é uma manifestação [do teu poder]. Onde quer que eu olhe, vejo-te, e a minha consciência é transbordada pela tua presença. || 2 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

tvanmayam: feito de ti, pleno de ti; etat: isto, este (universo); aśeṣam: sem resto, inteiro, todo; idānīm: agora, neste momento; bhāti: brilha, aparece, manifesta-se; mama: para mim, meu; tvat: de ti, teu; anugraha: graça, favor, bênção; śakti: poder, força, energia; tvadanugrahaśaktyā: pelo poder da tua graça (instrumental); tvam: tu; ca: e; maheśa: ó Grande Senhor (mahā + īśa), Śiva; sadā: sempre; eva: mesmo, de fato, exatamente; sadaiva: sempre, sem exceção; mama: meu; ātmā: ser, si mesmo, essência, Ātma; sva: próprio; svātmamayam: feito do próprio Ser, da natureza do meu Si mesmo; tena: por isso, portanto; samastam: tudo, o conjunto, a totalidade.

Terceira estrofe: sem medo do ciclo

स्वात्मनि विश्वगते त्वयि नाथे तेन न संसृतिभीतिकथास्ति ।
सत्स्वपि दुर्धरदुःखविमोहत्रासविधायिषु कर्मगणेषु ॥ ३ ॥

svātmani viśvagate tvayi nāthe tena na saṁsṛtibhītikathāsti |
satsvapi durdharaduḥkhavimohatrāsavidhāyiṣu karmagaṇeṣu || 3 ||

Neste mundo, és o Senhor do meu ser; por isso, não temo as dificuldades nem a dor decorrentes deste ciclo de nascimentos e mortes. || 3 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

svātmani: no meu próprio ser (locativo de svātman); viśva: universo, tudo, o todo; gata: ido, presente em, que penetra; viśvagate: presente em tudo, que penetra o universo (locativo); tvayi: em ti; nāthe: ó Senhor, no Senhor (locativo; com tvayi e svātmani forma um locativo absoluto: «estando tu, o Senhor presente em tudo, no meu próprio ser»); tena: por isso, portanto; na: não; saṁsṛti: o ciclo de nascimentos e mortes, o saṁsāra; bhīti: medo, temor; kathā: conversa, menção, questão; asti: há, existe; saṁsṛtibhītikathāsti: há sequer menção de medo do saṁsāra (com na: não há sequer); satsu: existindo, embora existam (locativo plural de sat); api: mesmo, ainda que, embora; durdhara: difícil de suportar, insuportável; duḥkha: dor, sofrimento; vimoha: confusão, ilusão, perda de discernimento; trāsa: terror, pavor; vidhāyin: que produz, que causa; durdharaduḥkhavimohatrāsavidhāyiṣu: que produzem dor insuportável, confusão e terror (locativo plural); karma: ação e os seus frutos; gaṇa: conjunto, multidão, acúmulo; karmagaṇeṣu: nas multidões de ações, nos acúmulos de karma (locativo plural).

Quarta estrofe: não me olhes com ira

अन्तक मां प्रति मा दृशमेनां क्रोधकरालतमां विनिधेहि ।
शङ्करसेवनचिन्तनधीरो भीषणभैरवशक्तिमयोऽस्मि ॥ ४ ॥

antaka māṁ prati mā dṛśamenāṁ krodhakarālatamāṁ vinidhehi |
śaṅkarasevanacintanadhīro bhīṣaṇabhairavaśaktimayo’smi || 4 ||

Ó Antaka, o Destruidor! Não olhes para mim com os teus olhos aterrorizantes, pois estou continuamente absorto no seva e na devoção a Śaṅkara. Essa devoção elevou-me até Bhairava, a grande força da criação, da sustentação e da reabsorção. || 4 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

antaka: ó Antaka, «o que põe fim», a Morte, Yama; mām: a mim; prati: em direção a, para, contra; mā: não (proibitivo); dṛśam: olhar, olho, vista; enām: este, esta; krodha: ira, cólera; karāla: terrível, medonho, de dentes à mostra; -tama: sufixo de superlativo: o mais; krodhakarālatamām: o mais terrível pela ira, medonho de cólera; vinidhehi: dirige, lança, põe (imperativo de vi-ni-dhā); śaṅkara: Śaṅkara, «o que faz o bem», Śiva; sevana: serviço, adoração, devoção; cintana: reflexão, contemplação, pensamento constante; dhīra: firme, estável, sábio; śaṅkarasevanacintanadhīraḥ: firme no serviço e na contemplação de Śaṅkara; bhīṣaṇa: aterrador, temível; bhairava: Bhairava; śakti: poder, força; maya: feito de, pleno de; bhīṣaṇabhairavaśaktimayaḥ: pleno do poder do temível Bhairava; asmi: eu sou.

Quinta estrofe: a escuridão rasgada

इत्थमुपोढभवन्मयसंविद्दीधितिदारितभूरितमिस्रः ।
मृत्युयमान्तककर्मपिशाचैर्नाथ नमोऽस्तु न जातु बिभेमि ॥ ५ ॥

itthamupoḍhabhavanmayasaṁviddīdhitidāritabhūritamisraḥ |
mṛtyuyamāntakakarmapiśācairnātha namo’stu na jātu bibhemi || 5 ||

Ó Śaṅkara! Este mundo é, na verdade, o teu próprio ser. Compreendi essa realidade através do Poder da Consciência (saṁvit śakti), que me afasta da ignorância. Graças a essa verdadeira natureza, não temo [as quatro faces da morte]: fantasmas, demônios, morte e destruição. || 5 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

ittham: assim, desta maneira; upoḍha: obtido, adquirido, trazido para perto (particípio de upa-vah); bhavat: tu (forma respeitosa), Vossa Senhoria; bhavanmaya: feito de ti, pleno de ti; saṁvit: consciência, o poder de conhecer; dīdhiti: raio, luz, esplendor; dārita: rasgado, dissipado, destruído; bhūri: abundante, imensa; tamisra: escuridão, trevas; upoḍhabhavanmayasaṁviddīdhitidāritabhūritamisraḥ: (eu,) cuja imensa escuridão foi rasgada pelos raios da consciência plena de ti, uma vez obtida; mṛtyu: a morte; yama: Yama, o senhor dos mortos; antaka: o Destruidor, o que põe fim; karma: ação, destino; piśāca: demônio, espírito devorador; mṛtyuyamāntakakarmapiśācaiḥ: diante da morte, de Yama, de Antaka, do karma e dos piśācas (instrumental plural); nātha: ó Senhor; namaḥ: reverência, saudação; astu: que seja; namo’stu: que haja reverência, eu te saúdo; na: não; jātu: nunca, jamais, de modo algum; bibhemi: eu temo, tenho medo.

Sexta estrofe: o néctar do ser

प्रोदितसत्यविबोधमरीचिः प्रेक्षितविश्वपदार्थसतत्त्वः ।
भावपरामृतनिर्भरपूर्णे त्वय्यहमात्मनि निर्वृतिमेमि ॥ ६ ॥

proditasatyavibodhamarīciḥ prekṣitaviśvapadārthasatattvaḥ |
bhāvaparāmṛtanirbharapūrṇe tvayyahamātmani nirvṛtimemi || 6 ||

Ó Śaṅkara! É o teu poder que coloca todos os objetos da natureza e elementos em movimento. Sinto em mim o esplendor consciente da imortalidade, naturalmente grandiosa, graças ao conhecimento real da consciência, Śiva. || 6 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

prodita: surgido, nascido, que se elevou (pra-ud-ita); satya: verdade, real; vibodha: despertar, conhecimento pleno; marīci: raio de luz; proditasatyavibodhamarīciḥ: (eu,) em quem surgiram os raios do despertar para a verdade; prekṣita: visto, percebido, contemplado; viśva: universo, tudo; padārtha: objeto, coisa, categoria (literalmente «o sentido da palavra»); satattva: natureza verdadeira, essência; prekṣitaviśvapadārthasatattvaḥ: (eu,) que vi a verdadeira natureza de todos os objetos do universo; bhāva: ser, existência, sentimento; para: supremo; amṛta: néctar, imortalidade; nirbhara: repleto, cheio, intenso; pūrṇa: pleno, completo; bhāvaparāmṛtanirbharapūrṇe: (em ti,) pleno e repleto do supremo néctar do ser (locativo); tvayi: em ti; aham: eu; ātmani: no Ser, no Si mesmo (locativo); nirvṛtim: beatitude, contentamento, paz, cessação do sofrimento; emi: eu vou, alcanço, atinjo.

Sétima estrofe: a chuva de imortalidade

मानसगोचरमेति यदैव क्लेशदशा तनुतापविधात्री ।
नाथ तदैव मम त्वदभेदस्तोत्रपरामृतवृष्टिरुदेति ॥ ७ ॥

mānasagocarameti yadaiva kleśadaśā tanutāpavidhātrī |
nātha tadaiva mama tvadabhedastotraparāmṛtavṛṣṭirudeti || 7 ||

Ó Nātha! Quando sofro ou sinto dores abrasadoras, percebo imediatamente o efeito refrescante da chuva da imortalidade, que é a não-separação entre ti e eu. || 7 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

mānasa: mente, mental; gocara: campo, alcance, domínio (literalmente «pasto das vacas»); mānasagocaram: o campo da mente; eti: vai, chega, entra; yadā: quando; eva: mesmo, exatamente; yadaiva: assim que, no mesmo instante em que; kleśa: aflição, sofrimento, impureza; daśā: estado, condição; kleśadaśā: um estado de aflição; tanu: corpo; tāpa: calor, tormento, queimação; vidhātrī: que produz, que causa (feminino); tanutāpavidhātrī: que produz tormento ao corpo; nātha: ó Senhor; tadā: então; tadaiva: nesse mesmo instante; mama: para mim, minha; tvat: de ti; abheda: não-diferença, não-separação, identidade; stotra: hino, louvor; para: supremo; amṛta: néctar, imortalidade; vṛṣṭi: chuva; tvadabhedastotraparāmṛtavṛṣṭiḥ: a chuva do supremo néctar do hino da não-separação de ti; udeti: surge, levanta-se, nasce.

Oitava estrofe: o estudo do śāstra

शङ्कर सत्यमिदं व्रतदानस्नानतपो भवतापविदारि ।
तावकशास्त्रपरामृतचिन्ता स्यन्दति चेतसि निर्वृतिधाराम् ॥ ८ ॥

śaṅkara satyamidaṁ vratadānasnānatapo bhavatāpavidāri |
tāvakaśāstraparāmṛtacintā syandati cetasi nirvṛtidhārām || 8 ||

Ó Śaṅkara! É verdade que o jejum, a caridade, o banho nos rios sagrados e as austeridades purificam o corpo. Contudo, o estudo e a compreensão do śāstra vertem as bênçãos da imortalidade instantaneamente, assim que o devoto pensa em Śiva. || 8 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

śaṅkara: ó Śaṅkara; satyam: verdade, é verdade; idam: isto; vrata: voto, observância, jejum; dāna: doação, caridade; snāna: banho ritual, nos rios sagrados; tapas: austeridade, ascese; vratadānasnānatapaḥ: votos, doações, banhos e austeridades; bhava: a existência mundana, o devir, o saṁsāra; tāpa: tormento, ardor; vidārin: que rasga, que dissipa; bhavatāpavidāri: que dissipa o tormento da existência; tāvaka: teu, relativo a ti; śāstra: ensinamento, escritura, tratado; para: supremo; amṛta: néctar; cintā: reflexão, pensamento, contemplação; tāvakaśāstraparāmṛtacintā: a contemplação do supremo néctar do teu ensinamento; syandati: verte, faz fluir, destila; cetasi: na mente, no coração (locativo de cetas); nirvṛti: beatitude, paz, contentamento; dhārā: corrente, fluxo, jorro; nirvṛtidhārām: a corrente de beatitude.

Nona estrofe: a consciência dança

नृत्यति गायति हृष्यति गाढं संविदियं मम भैरवनाथ ।
त्वां प्रियमाप्य सुदर्शनमेकं दुर्लभमन्यजनैः समयज्ञम् ॥ ९ ॥

nṛtyati gāyati hṛṣyati gāḍhaṁ saṁvidiyaṁ mama bhairavanātha |
tvāṁ priyamāpya sudarśanamekaṁ durlabhamanyajanaiḥ samayajñam || 9 ||

Ó Bhairavanātha! Às vezes, danço, canto e regozijo-me com entusiasmo. É assim que me sinto; é isso que saṁvit (a Consciência) representa para mim. Pois vejo-te perto, com o radiante esplendor da plenitude do teu ser. || 9 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

nṛtyati: dança; gāyati: canta; hṛṣyati: exulta, regozija-se, arrepia-se de alegria; gāḍham: intensamente, profundamente; saṁvit: consciência; iyam: esta; mama: minha; bhairavanātha: ó Senhor Bhairava; tvām: a ti; priyam: querido, amado; āpya: tendo alcançado, tendo obtido (gerúndio de āp); sudarśana: belo de ver, de bela aparência, de visão auspiciosa; ekam: único, uno; durlabham: difícil de obter, raro; anya: outro; jana: gente, pessoas; anyajanaiḥ: pelas outras pessoas, para os outros (instrumental plural); samaya: regra, convenção, doutrina, pacto; também tempo oportuno; jña: que conhece; samayajñam: conhecedor da doutrina e das suas regras; o que sabe a hora certa.

Décima estrofe: o poeta assina e coloca a data

वसुरसपौषे कृष्णदशम्यामभिनवगुप्तः स्तवमिममकरोत् ।
येन विभुर्भवमरुसन्तापं शमयति झटिति जनस्य दयालुः ॥ १० ॥

vasurasapauṣe kṛṣṇadaśamyāmabhinavaguptaḥ stavamimamakarot |
yena vibhurbhavamarusantāpaṁ śamayati jhaṭiti janasya dayāluḥ || 10 ||

Abhinavagupta compôs este stotra no Daśamī Tithi, décimo dia lunar da quinzena de lua minguante do mês de Pauṣa, no ano 4068 da era Saptaṛṣi Saṁvat [dos Paṇḍitas de Kashmir], para o benefício dos devotos. Ele dissipa todas as formas de sofrimento: é como encontrar água no deserto. || 10 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

vasu: os Vasus, que são oito: na notação numérica por palavras (bhūtasaṁkhyā), o número 8; rasa: os sabores, que são seis: o número 6; vasurasa: 68, lido de trás para a frente, como manda a convenção: o ano 68 do ciclo laukika, isto é, 4068 da era Saptarṣi; pauṣa: o mês de Pauṣa (dezembro–janeiro); vasurasapauṣe: no mês de Pauṣa do ano 68 (locativo); kṛṣṇa: escura: a quinzena da lua minguante; daśamī: décimo dia lunar; kṛṣṇadaśamyām: no décimo dia da quinzena escura (locativo); abhinavaguptaḥ: Abhinavagupta; stavam: hino, louvor; imam: este; akarot: fez, compôs (imperfeito de kṛ); yena: pelo qual, graças ao qual; vibhuḥ: o Senhor onipresente, o Todo-poderoso; bhava: a existência mundana; maru: deserto; santāpa: ardor, tormento; bhavamarusantāpam: o tormento do deserto da existência; śamayati: apazigua, acalma, extingue; jhaṭiti: imediatamente, num instante; janasya: das pessoas, da gente; dayāluḥ: compassivo, misericordioso.

Colofão: assim conclui-se o stotra

इति श्रीअभिनवगुप्तपादाचार्यकृतः भैरवस्तवः सम्पूर्णः ॥

iti śrīabhinavaguptapādācāryakṛtaḥ bhairavastavaḥ sampūrṇaḥ ||

Assim se conclui o Bhairavastava, composto pelo venerável mestre Abhinavagupta.

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

iti: assim, desta forma; śrī: venerável, auspicioso; abhinavagupta: Abhinavagupta; pāda: «pés», título honorífico que se acrescenta ao nome dos mestres; ācārya: professor, preceptor, mestre; kṛtaḥ: feito, composto; bhairavastavaḥ: o Hino a Bhairava; sampūrṇaḥ: completo, concluído.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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