Esta pergunta tem sido feita e ouvida por muitos de nós no mundo do Yoga, pois ela parece necessária para podermos nos posicionar com objetividade perante as práticas. Convidamos alguns praticantes, mais ou menos experientes, para exporem sua visão sobre o assunto, para estimular o debate em torno à esta questão.
Surendranath Dasgupta, no livro Yoga as philosophy and religion (“Yoga como filosofia e religião“):
É errôneo pensar – como muitas pessoas fazem – que o único interesse do Yoga seja seu lado prático. Suas doutrinas filosóficas, psicológicas, cosmológicas, éticas e religiosas, assim como suas doutrinas em relação à matéria e à mudança, são extremamente interessantes e têm, definitivamente, assegurado um lugar na história do progresso do pensamento humano. Dessa forma, para uma compreensão correta dos assuntos essenciais dos mais elevados pensamentos da Índia, assim como para uma compreensão correta do lado prático do Yoga, esses conhecimentos são indispensáveis.
Georg Feuerstein, no livro A Tradição do Yoga:
O Yoga não é uma religião no sentido convencional, mas uma espiritualidade, um esoterismo e um misticismo. Não obstante, quando examinamos com atenção o Hinduísmo, o Budismo, o Jainismo e o Sikhismo, vemos que o Yoga, via de regra, não se vincula apenas às cosmologias, mas também às crenças e práticas religiosas dessas tradições. Esse fato se erigiu em obstáculo para muitos dentre os que praticam o Yoga no Ocidente, que nem dispõem de informações seguras acerca dessas tradições nem, muitas vezes, se sentem à vontade dentro da sua própria tradição religiosa, seja ela o Cristianismo ou o Judaísmo. Em particular, esses praticantes se assustam com o grande número de divindades dos panteões hindu, budista e jainista, e ficam a se perguntar de que modo essas divindades se relacionam com a prática do Yoga propriamente dito e com a doutrina do não-dualismo (adwaita) que caracteriza a maioria das formas de Yoga. Os estudantes de tendência monoteísta podem até sentir-se ameaçados de sucumbir ao politeísmo, que é considerado pecado na tradição judaico-cristã. Uma vez que o livro A tradição do Yoga trata sobretudo do Yoga no Hinduísmo, proponho-me agora a fazer uma breve apresentação dos deuses e deusas dessa tradição, que são mencionados freqüentemente nos textos sobre Yoga, quer nos escritos em sânscrito, quer nos escritos em línguas populares. Os jainas, em sua maioria, conservaram as mesmas divindades, e muitas dentre elas também integram o enorme panteão budista.
Cláudio Roberto Freire de Azevedo, no livro O Yoga e as Tradições Sapienciais:
A palavra Yoga, que deriva da raiz yuj, significa unir ou religar, no sentido de ligar novamente o homem a algo essencial de seu ser, do qual era unido e que agora vive distante: é o matrimônio da matéria com o espírito. Não é à toa que a palavra religião tem o mesmo significado, pois deriva do latim religare, que significa religar. Da mesma forma, o sufismo considera o espírito humano como uma emanação do divino, ao qual se esforça por se reintegrar. Nesse ponto, pode-se afirmar que Yoga é uma forma de religião, mas no sentido de que há uma transmissão de conhecimentos, a criação de um código de uma conduta ética e uma prática espiritual. Entende-se por prática espiritual o ponto comum entre Yoga e qualquer religião: a idéia de que o homem pode desejar algo que lhe é infinitamente superior e que está além de si próprio, mas, paradoxalmente, profundamente imerso dentro de si mesmo. O Yoga, como todas as tradições sapienciais, é uma forma de ver o mundo (na literatura hindu existem seis formas de se ver o mundo ? os seis darshanas (pontos de vista): Samkhya, Yoga, Vedānta, Mimansa, Nyaya e Vaisheshika), é o conhecimento da Religião-sabedoria e a sua prática, uma forma de transformação pessoal que exige prática constante a fim de que se consiga mergulhar em todos os níveis de realidade existentes, vencendo-as e vendo-as como ilusões, em direção ao Vazio Infinito (Brahman), a única Realidade.
Loreni Marcon:
Depende como você olhar para o Yoga. Muito embora, seja fundamentado na filosofia indiana, o Yoga pode fazer parte da sua cultura, pois é um estilo de vida que leva o ser humano ao auto-conhecimento através da experimentação pessoal de suas diversas práticas. E mais, o Yoga é conhecido e praticado por pessoas de outras partes do mundo e com outros credos, sem que as pessoas precisem abdicar deles.
Daniele Tatuí:
Me parece que o Yoga deve ser entendido nas suas diferentes práticas, ou seja, da maneira que cada indivíduo se relaciona com ele. Isso fica claro no Ocidente, pois há muitos praticantes apenas das técnicas corporais como forma de ginástica ou terapia. Fica complicado atribuir alguma espiritualidade ou religiosidade a essa prática. Acredito ser na Índia, como pude observar, mais clara a questão da religiosidade ou espiritualidade da prática. Basta ver os pujas, os aratis, enfim, toda a ritualística que envolve a adoração à Consciência Única. Muitos Mestres, como Swami Dayananda Sarasvati, classifica o dharma como religião, ou seja, seguir o dharma, segundo ele, é seguir certos preceitos de fazer e não-fazer sempre com um objetivo único, a libertação. E seguir o dharma é viver uma vida religiosa. O conceito cristão e judaico de religião, que nos é mais comum, não se enquadra no Hinduísmo. Mas isso não quer dizer que não seja uma religião. Tudo depende do ponto de vista. Para os orientais, toda a prática ritualística constante dos Vedas é feita de maneira a contemplar e honrar as chamadas divindades. Claro, para o hindu, deva significa “o brilhante” e não Deus. Mudam os nomes, mudam as pessoas, mudam os lugares, mas a intenção é a mesma.
Constanza Gárate:
Yo respondería que no lo es. Una religión plantea el seguir y creer en ciertos preceptos, dogmas y creencias y el yoga no obliga a esto. El yoga es una corriente de pensamiento, arraigada en siglos de tradición y práctica, que entrega respuestas sobre la vida, la existencia, el comportamiento y la formación del Universo, ente otras cosas.
Quien practica yoga no está obligado a seguir ni creer en estos preceptos, sin embargo, la practica del yoga (ya sea por un camino físico, de meditación, o trabajo para la comunidad, por ejemplo) provoca y lleva naturalmente a cuestionamientos, sentimientos y emociones, que encuentran respuestas y explicaciones en la tradición del yoga.
Todo este proceso es de carácter individual, respetando el ritmo, las necesidades, el carácter, los conocimientos y sistema de creencias de cada individuo. La espiritualidad no es lo mismo que la religión. Ser creyente en un poder superior no es lo mismo que creer en un único poder superior dado por una religión.
Contribua com este debate colocando nos comentários o seu ponto de vista. Obrigado.
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