Você sabia que Mahātma Gandhi escreveu cartas para Adolf Hitler em duas ocasiões? Já vamos entrar no tema, mas antes gostaria de começar contando um breve capítulo da minha família, para contextualizar o amigo leitor.
A família Kupfer-Biske fugiu da Europa no início da II Guerra Mundial. Dona Helena, judia de família ucraniana, havia nascido na Suíça e não escaparia ao destino de tantos milhões de judeus naqueles anos de intolerância e horrores, quando Hitler invadisse seu país.

Seu Markus, austríaco de nascimento, mesmo sendo de família cristã, não escaparia ao mesmo destino, uma vez que era um ativista antifascista, que lutava contra o totalitarismo nacional-socialista de Hitler. Eles fugiram um pouco antes do início da guerra, buscando um lugar onde pudessem recomeçar de zero, onde lhes fosse permitido, pelo menos, viver.
Meus avós fugiram em diferentes navios (primeiro ele, depois ela) para o Uruguai e ficaram em Montevidéu, no gueto judeu. Foi lá que meu pai, Juan, nasceu. O menino Hansi, como era chamado por meus avós, falava em iídiche (a língua dos judeus da Europa do Leste) na rua, alemão em casa e somente veio aprender espanhol na hora de ir à escola.
Como gente trabalhadora e honesta que estas pessoas sempre foram, devagarzinho e apesar das dificuldades, saíram adiante e conseguiram uma bela descendência, que hoje se espalha pelo mundo, na forma de netos e bisnetos saudáveis e de mente aberta.
Faço esta introdução para contextualizar o assunto do título, pois li, pouco tempo atrás, uma declaração que Gandhi fez naqueles anos da pré-guerra, dizendo o que ele teria feito se tivesse nascido judeu na Europa. Veremos isso mais adiante neste texto.
Muito se romantiza atualmente a imagem de Mahatma Gandhi, mas o amigo leitor já se perguntou se a imagem que nós temos atualmente deste carismático líder é 100% verdadeira?
Em 1982, na ocasião do lançamento daquele filme que narrava a vida dele protagonizado pelo ator Ben Kingsley, poucos ocidentais questionaram porquê o filme não havia tido nenhum sucesso na Índia, um país que ama o cinema acima de quase todas as coisas.
Gandhi: santo político ou político santo?
Porém, vamos aos fatos: disse alguém com muita propriedade que Gandhi foi “um santo entre os políticos e um político entre os santos. Muitas pessoas, hoje em dia na Índia, não tem uma boa imagem do legado e da pessoa de Mohandas K. Gandhi.
Há muitos indianos que o responsabilizam diretamente pela partilha Índia-Paquistão e o mais de um milhão de mortes que aconteceram nos massacres de violência comunal que aconteceram depois da Independência, em 15 de agosto de 1947.
Tenho vários grandes amigos, dentre eles o físico quântico Harbans Arora e sua esposa Ved Arora, e a família Agnihotri Kukreja, que moravam em Lahore (hoje dentro do território paquistanês), e perderam seus pais, irmãos e amigos nos massacres que poderiam perfeitamente ter sido evitados se a articulação política tivesse sido mais hábil e se tivessem sido evitadas as concessões excessivas que foram feitas aos separatistas na época.
O motivo dessas concessões, me explicaram, era a necessidade que Gandhi tinha de ser reconhecido como líder, não apenas pela massa dos hindus, mas igualmente pela minoria islâmica, como já havia acontecido nos anos em que ele viveu na África do Sul.
Muito embora da boca para fora, Gandhi fosse contrário à idéia da divisão Índia-Paquistão, a percepção de muitos indianos, à época e atualmente, é que essa partição poderia ter sido evitada, e colocam a responsabilidade pelo fracasso nesse líder.
Atualmente, testemunhamos uma relação de amor-ódio entre os dois países que é muito mais grave do que a rivalidade futebolística entre o Brasil e a Argentina, já que aqueles dois países tiveram várias guerras e até hoje não se puseram de acordo com a questão da Cachemira. Da mesma forma que palestinos e israelenses, indianos e paquistaneses, sendo uma mesma e única família, foram divididos pela ganância e sede de poder de alguns poucos políticos.
Um dado curioso, mas que pouca gente conhece desde lado do mundo é que, quando Gandhi foi morto, seu último desejo, que era ter suas cinzas espalhadas em todos os rios sagrados da Índia livre, não pôde ser cumprido, uma vez que o governo paquistanês recusou a permissão para que as cinzas fossem espalhadas sobre o rio Indo.
Isso mostra o grau de desprezo que os muçulmanos nutriam por ele. Disseram na ocasião que, se permitissem que as cinzas tocassem o rio deles, a “Terra dos Puros” iria virar “Terra dos Impuros”. Pakisthan significa literalmente Terra dos Puros (pak = puro, than = terra). Esse desprezo, misturado com a dor pela perda de familiares e amigos, é compartilhado por muitos punjabis, os habitantes do norte da Índia, que foram os que mais sofreram na partilha.
Por outro lado, Gandhi foi um dos principais líderes, junto com Jawaharlal Nehru, do Indian National Congress (INC), Partido do Congresso, o partido político que, liderado pela dinastia Nehru-Gandhi, governa o país até hoje.
A hegemonia política nesses 60 anos de independência da Índia tem se mantido com poucas interrupções. Embora não exista vínculo familiar entre Jawaharlal Nehru e Mohandas Gandhi, havia sim concordância política e articulação sobre a questão da independência da Índia e outros importantes assuntos políticos.
Após Nehru ter sido o primeiro Primeiro Ministro da Índia independente, foi sucedido por sua filha Indira Gandhi, que por sua vez foi substituída pelo seu filho Rajiv Gandhi e, indiretamente, por sua nora Sonia Gandhi (que preside atualmente o partido e governa através do Primeiro Ministro títere Manmohan Singh).
Todos pertencem à mesma família e todos têm se envolvido em gritantes casos de corrupção, nepotismo, demagogia, prepotência e autoritarismo que em muito lembram os atropelos cometidos pelo atual governo de um belo e grande país da América do Sul onde se fala a língua de Camões.
A não-violência tem limites?
A declaração de Gandhi da que falamos acima foi publicada no periódico Harijan, quando os nazistas já começavam a aplicar a eufemisticamente chamada Solução Final: o extermínio total dos judeus, ciganos, homossexuais e pessoas com discapacidades. Lembre-se que a perseguição e a discriminação dessas pessoas começou em 1933 e que, a partir de 1938, teve início o genocídio sistemático. Ela diz o seguinte:
“Se eu fosse um judeu e tivesse nascido na Alemanha e tivesse feito a minha vida lá, chamaria a Alemanha de meu lar, da mesma forma que o mais alto gentil-homem alemão, e o desafiaria a me matar ou me jogar num calabouço; eu me recusaria a ser expulso ou submetido a tratamento discriminatório.
“E, fazendo isto, eu não iria aguardar pelos meus colegas judeus para se juntarem a mim na resistência civil, mas teria confiança em que, no fim, os demais seguiriam meu exemplo. Se um judeu ou todos os judeus aceitassem a prescrição aqui oferecida, ele, ou eles não estariam pior do que estão agora. E, sofrendo voluntariamente, terão mais força interior e alegria. (…)
“A violência calculada de Hitler pode mesmo resultar num massacre geral dos judeus, considerando sua primeira resposta à declaração de tais hostilidades. Mas se a mente judaica estivesse preparada para o sofrimento voluntário, até mesmo o massacre que eu imagino poderia se tornar um dia de ação de graças e alegria no qual Jeová traria a redenção da raça, mesmo pelas mãos do tirano. Pois, ao temente de Deus, a morte não aterroriza”.
[Publicado no periódico Harijan, artigo The Jews, 26 de Novembro de 1938.]
Historicamente falando, é totalmente inadequado fazer, como o grande líder faz nestas afirmações, um paralelismo entre a situação do colonialismo inglês na Índia e o genocídio dos judeus na Europa. Até mesmo porque, face às perseguições que os indianos sofriam, Gandhi chegou a justificar o uso da força para auto-defesa.
Concedeu aos indianos aquilo que neste texto nega aos judeus, que foram chamados por ele “os descastados da Europa”. Quando li isto por primeira vez, não pude deixar de lembrar as histórias de horror que os sobreviventes dos campos de concentração contavam para meus irmãos e para mim quando éramos crianças, através das suas palavras ou das marcas das torturas ou tatuagens em seus corpos.
Pode parecer muito nobre pedir aos outros para morrer como mártires, prometendo que eles “terão mais força interior e alegria” ou que isso trará a “redenção da raça”, mas eu não aceitaria o conselho de Gandhi. Se meus avôs tivessem seguido essa recomendação, eu certamente não teria nascido nessa família. Assim sendo, creio que tenho o direito de dar a ele uma resposta, mesmo que tardia, como descendente desses sobreviventes que optaram por fugir e recomeçar a vida num lugar tranqüilo.
Como filho de pai judeu, que durante toda a infância conviveu com os sobreviventes judeus que conseguiram chegar até o Uruguai, onde se refugiaram após terem perdido suas famílias, trabalhos e posses, fico indignado com as palavras que Gandhi dirige aos judeus. Não me considero judeu, mas levo em mim a memória dessas pessoas com quem cresci.
Genetica, cultural e etnicamente, carrego esse sangue e essa memória. Nenhum dos judeus daquela geração com quem convivi, aliás, era especialmente religioso. Alguns se manifestavam contrários até mesmo à existência do estado de Israel. Ou seja, eram gentes de mente aberta, muito diferentes dos judeus fundamentalistas que se acham o povo eleito.
Ahiṁsā e autodestruição
Duvido que se de fato Gandhi tivesse nascido como judeu alemão, e Kasturba, sua esposa, lhe pedisse para fugirem junto com seus quatro filhos, ele tivesse feito aquilo que recomendou aos meus avós. O princípio da não-violência (ahiṁsā) tem certamente uma tremenda força e é um poderoso fator de transformação, tanto coletiva quanto individual.
Porém, não podemos confundir não-violência com passividade, nem deveríamos considerar que a não-violência não deva ser dirigida a si mesmo. Se ele fizesse, como recomendou aos judeus, um ato solitário de resistência não-violenta e se deixasse prender, torturar e matar, a lápide no seu túmulo poderia dizer: “Aqui jaz Jakob Gandhinstein, um homem que não soube cuidar da própria sobrevivência e arrastou toda a sua família para uma morte inútil”.
Então, chegamos ao âmago da questão. No calor da partição Índia-Paquistão, muita gente teve que trocar de lado na fronteira. Havia bandos de fundamentalistas hindus e muçulmanos, de ambos os lados da fronteira, prestes a massacrar as caravanas de refugiados. Isso acontecia nas estradas, nas rodoviárias e nas estações de trem.
Qual seria a atitude do amigo leitor se se visse na contingência de defender a própria família na beira de uma estrada de um bando de ladrões e estupradores? Não-violência não é ficar de braços cruzados assistindo a cena. Pelo que entendo, mas posso estar equivocado, corresponderia assumir uma atitude firme de defesa dos mais fracos e usar a força física para afastar os malfeitores, não é mesmo?
Qual seria a atitude do amigo leitor se se visse na contingência de ter que fugir do próprio país ou morrer torturado? Cabe lembrar que, na época em que Gandhi escreveu o texto citado, o genocídio dos judeus já tinha começado. A partir de março de 1938, eles começaram a ser massacrados ao ar livre e jogados em valas comuns por esquadrões da morte conhecidos como Einsatzgruppen (“grupos de intervenção”).
Posteriormente, a partir de 1941, eles conduzidos como animais até os campos de concentração, onde eram condenados a trabalhos forçados até a exaustão. Depois eram jogados numa câmara de gás. Com a gordura remanescente dos cadáveres, os nazistas fabricavam sabão. Com a pele das vítimas, faziam luminárias.
Os dentes de ouro eram arrancados e fundidos em barras que terminavam num banco suíço. Para abreviar, não irei mencionar a situação de degradação física e moral à qual estes inocentes eram submetidos. Sabendo desses horrores, o amigo leitor iria seguir o conselho de Gandhi?
Ele disse uma vez que, se seguíssemos o conselho bíblico do “olho por olho, o mundo inteiro iria ficar cego”. Concordo. Mas, existe certa distância entre ser não-violento, e permitir que a própria vida seja arrancada sem tentar a preservar. Há uma enorme distância também entre ser equânime e escrever cartas a um genocida como Adolf Hitler chamando-o de “meu querido amigo”. Gandhi fez isso em duas ocasiões.
Não estamos dizendo aqui que o ideal teria sido que os judeus oferecessem resistência armada aos nazistas (como aconteceu de fato no gueto de Varsóvia), mas propondo quem sabe um caminho do meio, em que é preservada própria vida daquele que está sendo perseguido e dá-se a ele o direito, pelo menos, de fugir. É o que parece o mais lógico.
Não quero, com estas palavras, diminuir o legado de Gandhi em termos de não-violência, resistência pacífica, autossuficiência e vida simples aplicados politicamente e em grande escala. Porém, incomoda-me o fato de que atualmente fala-se no Ocidente como se ele fosse um santo iluminado. É bom lembrarmos que todos os santos têm seu lado de sombras, como qualquer outro ser humano.
O milhão de vítimas do massacre que aconteceu durante a partição Índia-Paquistão e a memória dos seis milhões de judeus exterminados não deveriam ser esquecidos ou varridos para baixo do tapete da história no afã de elogiar um político-santo.
Se Gandhi se equivocou ao avaliar as mortes que aconteceriam por causa da divisão da Índia em dois países, ou se errou em recomendar a melhor atitude perante a brutalidade nazista, fica aqui a nossa pontualização e lembrança.
॥ हरिः ॐ ॥
Mais sobre Yoga e sociedade aqui
Continue a leitura no yoga.pro.br: Nazistas Místicos · Proibido Praticar? · O Yoga e a espiritualidade engajada
Mais textos em Yoga Clássico.


Deixe um comentário