A Segunda Guerra Mundial ceifou a vida de aproximadamente 75 milhões de seres humanos. Muitos civis morreram por causa do genocídio deliberado, crimes de guerra, massacres em campos de concentração, bombardeios, doenças e fome.
Afora isso, para alimentar a máquina de guerra, o nazismo drenava constantemente os recursos dos territórios conquistados. O custo desse conflito, de cerca de um trilhão de dólares, não contabiliza o sofrimento das pessoas, a miséria, a privação, a deslocação dos povos e da vida económica, a destruição física, os traumas e as sequelas psicológicas que a ela provocou durante gerações.
Escrevo isso, não como uma abstração, não como informação na mente de alguém que leu um livro de história, mas desde a primeira pessoa, pois fui testemunha desses traumas horripilantes, muito presentes na minha família, nos meus avôs, no meu pai e nos demais sobreviventes que fugiram para o Uruguai: a fome, a miséria, a necessidade de matar e comer cachorros para não passar fome, as perseguições, as fugas constantes, a privação, a dor, as tatuagens para numerar os prisioneiros dentro dos campos de concentração, as câmaras de gás, as histórias horripilantes dos kapos sobre as pilhas de cadáveres arrancando dentes de ouro para fundir em barras e enviar para a Suíça, as luminárias feitas com as peles das vítimas do Holocausto, todas essas histórias fizeram parte da minha infância e todas essas histórias estão na minha memória hoje.
E, a pior de todas: o meu pai dizendo para nós, crianças, que, se o nazismo tivesse vencido a guerra, ou se o nazismo voltasse, os meus irmãos e eu seríamos exterminados também. Todas essas coisas moldaram, em parte, a pessoa que sou hoje, e a minha visão do mundo.
Esse é o motivo pelo qual a minha primeira reação quando percebo pessoas a distorcer as verdades históricas relativas ao nazismo, é querer explicar a gravidade desses fatos, para evitar que eles se repitam neste presente no qual as posturas políticas ficam cada vez mais polarizadas.
A razão da insensatez genocida? O desejo da ditadura nazista de impor a sua ideologia, expandir o “espaço vital” alemão ocupando os países vizinhos e aplicar a eugenia, ou seja, a “depuração” e “melhoria” da humanidade através do extermínio de indivíduos e povos considerados inferiores.
Dissonância cognitiva
A dissonância cognitiva que estas atrocidades produziam precisava ser contrabalançada de alguma forma, pois os apoiadores dessa ditadura, as pessoas que seguiam cegamente Adolf Hitler, sabiam perfeitamente que o genocídio estava a acontecer, e viam diariamente o custo absurdo da guerra em todos os aspectos das suas próprias vidas.
Esclarecendo: dissonância cognitiva é um estado de tensão psicológica constante que ocorre quando uma pessoa possui crenças, valores ou atitudes conflitantes entre si, com o que ela vive, ou com suas próprias ações. Esse desconforto surge, por exemplo, quando agimos de forma contrária aos nossos valores ou justificamos escolhas que sabemos serem incoerentes com nossas crenças.
Para aliviar essa tensão, as pessoas tendem a fechar os olhos, modificando as crenças conflitantes, minimizando a importância dos conflitos ou buscando justificativas que sustentem o comportamento e anulem a dissensão.
Esse processo é muito frequente em seitas de Yoga, onde por exemplo os seguidores de um guru abusador inventam desculpas para justificar ou evitar admitir os abusos por ele cometidos. É igualmente visível em diversos aspectos da política extremista da atualidade.
Assim, para mostrar o seu “lado humano” e “compensar” o extermínio dos povos judeu, roma e sinti (da etnia cigana), dos homossexuais e de pessoas com limitações físicas ou cognitivas em seu afã de “depurar” a raça humana dos considerados impuros e não merecedores da vida, o nazismo defendeu o bem-estar e os direitos dos animais. Igualmente, promoveu leis de proteção ao meio ambiente que vigoram até os dias atuais na Alemanha.
Psicopatas genocidas, mas espiritualizados
Além de apossar-se da mitologia nórdica, o nazismo também tentou apropriar-se da espiritualidade indiana, alegando que o berço da “raça superior” ariana seria os atuais territórios da Índia e o Tibete. Assim, criou-se uma mitologia bizarra na qual integravam-se as teorias conspiratórias da supremacia ariana com elementos da mitologia hindu e, evidentemente, do Yoga.
Heinrich Himmler, líder da SS, tropa de elite do regime nazista, tinha a Bhagavadgītā como livro de cabeceira mas não entendeu nada do ensinamento de Kṛṣṇa: achava que a Gītā justificava a guerra e o extermínio dos “impuros”. E citava este śāstra para legitimizar as atrocidades cometidas pelos seus soldados, que não foram poucas.
Para dar um pouco de contexto, a Bhagavadgītā é o mais importante śāstra do Yoga, cujos grandes temas são o Yoga da vida (Karmayoga), o autoconhecimento, a ética, o dharma, a lei do karma e os valores necessários para construir indivíduos livres e uma sociedade harmoniosa e tolerante, que é exatamente o oposto do regime de ódio e intolerância que o nazismo tentou impor ao mundo.
Outra mística do regime foi a ítalo-grega Savitri Devi Mukherji, nascida Maximiani Julia Portas (1905–1982), a maior ideóloga do nazismo ocultista. Esta senhora aparentemente aprazível e espiritualizada dizia que Adolf Hitler era Kalki Avatāra, a décima e última encarnação de Viṣṇu, que se havia manifestado na terra para acabar com a era das trevas, kaliyuga.
Savitri Devi era fascista, grande admiradora do Anjo Negro, e viveu por anos na Índia, onde casou com um brâmane. Esta sacerdotisa de Hitler pontificava que quem comesse animais deveria ser executado: era vegetariana, ecologista e furiosamente racista e antissemita.
Ela era uma espécie de Olavo de Carvalho de sári, e é venerada até hoje como uma santa pelos neonazistas e a extrema direita. Suas cinzas descansam na sede do Partido Nazista Americano, em Arlington, Virginia, EUA.
Cabe lembrar que o Führer também seguia a dieta vegetariana, e não suportava que fumassem à sua frente. Além das leis de preservação da natureza que mencionamos no início, ele promulgou igualmente as primeiras leis de proibição do tabaco em ambientes fechados.
A suástica é um símbolo hindu, budista e jainista
O interesse dos alienados nazistas pela espiritualidade hindu e budista aparece claramente na apropriação da cruz suástica (svāstika) para identificar essa ideologia de ódio.
Svāstika (卐) significa “auspicioso” em sânscrito. A cruz gamada representa o sol e é o símbolo do hinduísmo, assim como o peixe é o símbolo do cristianismo ou a Estrela de David (✡︎) é o símbolo do judaísmo.
Este poderoso símbolo foi usado por muitos povos da Eurásia, estando presente da mesma maneira em povos nativos da África e das Américas.
Por causa da sua associação com o Holocausto, a suástica no Ocidente está firmemente vinculada ao nazismo, ao antissemitismo e à supremacia branca. Consequentemente, o seu uso com fins políticos, em alguns países, incluindo o Brasil e a Alemanha, é proibido por lei.
Ainda assim, tanto no subcontinente indiano como no sudeste asiático, esta cruz continua simbolizando coisas boas, como o sol, a prosperidade, a espiritualidade e tudo aquilo que é auspicioso.
Racismo científico, ontem e hoje
Hitler quis justificar a dominação nazista sobre a Europa baseando-se em certas teorias em voga na época que falavam sobre a suposta supremacia da “raça” ariana sobre os demais povos, tanto na Índia como no Oriente Médio.
Para tanto, assumiu os preceitos da eugenia, da “higiene racial” e do racismo científico, uma doutrina pseudocientífica que surgiu no século XIX para justificar a crença na superioridade de certas raças sobre outras.
O oficial da SS Ernst Schäfer liderou três expedições “científicas” ao Tibete na década de 1930, das quais voltou cheio de presentes para o titio Adolf. Nessas expedições, Schäfer e outros pseudo-cientistas mediram centenas de crânios humanos no subcontinente indiano (uma das práticas favoritas da eugenia), na tentativa de fundamentar e demonstrar a superioridade ariana sobre as demais “raças”.
Tanto Schäfer quanto Hitler e o resto do alto comando nazista acreditavam que o povo alemão havia se enfraquecido e corrompido pela presença de judeus, ciganos, homossexuais e pessoas portadoras de qualquer tipo de limitação cognitiva ou física.
Portanto, a solução seria eliminar totalmente essas pessoas e, buscando alianças com os supostos ancestrais tibetanos dos arianos alemães que viveriam em Shambhala, dentro da Terra Oca, criar uma elite de eleitos que governasse a terra.
A mosca muda mas as fezes ideológicas permanecem, pois esse é exatamente o mesmo discurso que D. Trump assumiu como plataforma política para ser reeleito presidente dos EUA: os imigrantes “envenenam o sangue do povo” estadunidense e é necessário expulsá-los da pátria.
Hitler chamava os judeus de parasitas. Trump usa exatamente a mesma palavra para desqualificar e desumanizar as pessoas de cor, os afrodescendentes e os imigrantes, sejam da América do Sul, sejam de outros lugares.
Só há uma raça: a raça humana
Usamos o termo raça entre aspas, para destacar o fato que raça só existe uma: a raça humana e que, as diferenças entre os fenótipos individuais ou entre os povos são limitadas a etnias.
Noutras palavras, as diferenças perceptíveis entre as pessoas como a cor da pele ou dos olhos não faz os humanos diferentes uns dos outros. Pessoas com diferentes características são idênticas em tudo, da mesma maneira que carros com motores idênticos têm a mesma performance e fazem as mesmas tarefas, apesar de que a cor da carroçaria possa variar de um para o outro.
Ensina a Enciclopédia Britânica:
“Os estudos genéticos no final do século XX refutaram a existência de raças biogeneticamente distintas, e os estudiosos argumentam agora que as “raças” são intervenções culturais que refletem atitudes e crenças específicas que foram impostas a diferentes populações na sequência das conquistas da Europa Ocidental a partir do século XV.”
Noutras palavras, não existem raças diversas. Só há uma raça, e essa raça é a raça humana.

Shambhala e a Terra Oca
Baseando-se na menção que Heródoto, o grande geógrafo e historiador grego da antiguidade, fez de Hiperbórea, e achando que esse continente perdido seria o lar das cidades de Shambhala e Agartha das lendas tibetanas, Hitler e seus lunáticos correligionários organizaram expedições anuais até 1943 para encontrar esse suposto paraíso perdido e estabelecer alianças com os supostos ancestrais dos arianos para governar o planeta inteiro.
O típico “take me to your leader” dos filmes B de ficção científica, mas levado a sério por extremistas violentos, com muitos recursos e tempo disponível.
O objetivo dessas expedições era achar o caminho para aquela fortaleza celestial, que ficaria dentro da terra, que segundo a demencial teoria desses malucos seria oca, e cuja entrada estaria em algum lugar do planalto tibetano, no alto Himalaia.
A teoria da Terra Oca data do século XVII mas ressurgiu com força no século XIX. O romance de Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, publicado em 1864, faz referência a essa teoria.
Obviamente, esse paraíso jamais foi encontrado: ele é o equivalente, na década de 1940, de Ratanabá, a “cidade perdida” amazônica que supostamente foi fundada milhões de anos antes da existência dos dinossauros (e da raça humana, diga-se de passagem) promovida pelos bizarros extremistas do Brasil.
Perigos do misticismo nazista
O problema que surge quando malucos radicais dessa laia, armados e com poder político e econômico levam a sério pseudociências populares, não é muito diferente do outro grande problema criado por aqueles evangelizadores que pretendem converter à força povos que não pediram nem têm interesse nas ficções ou lendas defendidas por esses religiosos fundamentalistas.
É nesse crisol nefasto que se amalgamam o extremismo político, o sectarismo e as religiões cegas pelo poder, que hoje em dia tomam conta das estruturas de poder, destróem as democracias e eternizam as injustiças, a violência e a intolerância.
Meus encontros com nazistas místicos no Brasil
Lembro que, quando abri uma escola de Yoga no início do século em Florianópolis, pendurei na porta um quadro de Gaṇeśa, o Deus-elefante.
Um dia, um senhor com alguma idade chegou àquele espaço e disse: “Esse é o nosso símbolo”, apontando para a suástica que Gaṇeśa tinha na palma da mão. Demorei um minuto para dar-me conta que estava falando com um nazista, que não se referia à cruz gamada como símbolo hindu, mas como emblema nazista.
Noutra oportunidade, achei na casa do pai de uma ex-aluna de Curitiba uma edição de Os Protocolos dos Sábios de Sião, um libelo antissemita que defende a velha conspiração que diz que os judeus têm um plano secreto para dominar o mundo e destruir a civilização. Quando perguntei, horrorizado, o que ele estava fazendo com esse livro, o sujeito desconversou.
Depois, unindo os pontos, percebi que essas mesmas pessoas só tinham amigas brancas, e desprezavam (sutilmente, nunca de maneira explícita, como fazem certos políticos brasileiros) quem tivesse pele escura. Nunca mais voltei naquele lugar. Nunca mais falei com aquelas pessoas.
O detalhe: cidadãos desse tipo estão perdendo a vergonha e começando a sair das sombras com o ressurgimento dos populismos extremistas no mundo inteiro, animados pela perigosa impunidade que vigora nas redes sociais sob o pretexto da “liberdade de expressão” e pelo exemplo de celebridades racistas, homofóbicas, misóginas, apologistas da violência e ultraconservadoras como Elon Musk e outros da mesma laia.
Também já recebi ameaças e insultos antissemitas neste website por parte de pessoas que conhecem (ou pressupõem) a minha ascendência judaica e consideram como verdadeiras essas teorias conspiratórias antissemitas.
E o que você tem a ver com isso?
Se hoje em dia você achar um desmiolado desse naipe nas suas aulas de Vedānta ou práticas de Yoga, considere que eles estão entre nós há várias gerações, promovendo suas teorias conspiratórias, posturas anti-ciência, pseudoterapias, misoginia, fobias e ideologias odiosas.
A esses malucos, sejam místicos ou não, sejam praticantes de Yoga ou não, sejam estudantes de Vedānta ou não, cabe dirigir uma atitude equânime e, se houver ocasião, uma aula de história sem passar pano.
Também lembre que, se você não se sente confortável convivendo com pessoas desse tipo em escolas de Yoga ou lugares similares, ninguém pode obrigar você a forçar a barra em nome da espiritualidade ou do autoconhecimento.
Para concluir, lembremos que a apologia do nazismo não é liberdade de expressão. Apologia do nazismo é crime. O mesmo vale para a homofobia e o racismo: são crimes.
Parece ridículo ter que escrever sobre estes temas na atualidade, pois essas crenças já deveriam ter sido descartadas gerações atrás.
No entanto, em parte graças à facilidade com a qual as redes sociais divulgam teorias conspiratórias, racismo e ideologias extremistas, se faz necessário usar o nosso tempo para escrever sobre este assunto, pois a presença do extremismo e suas manifestações é uma realidade no mundo do Yoga e do Vedānta, infelizmente.
Obrigado por ler. Se quiser usar a seção de comentários para colocar o seu ponto de vista ou compartilhar suas experiências em relação a isto, fique por favor à vontade. Bem-haja. ॥ हरिः ॐ ॥
***
1) Se quiser conhecer outra história curiosa sobre a relação epistolar entre Hitler e Gandhi, leia este artigo: Gandhi, Hitler e a não-violência.
2) Se quiser saber mais sobre como os nazistas distorciam a Bhagavadgītā, leia isto:
The Nazi Kṣatriya Ethos: Hauer and Himmler
Bhagavad Gītā and its impact on Nazis
3) Se quiser saber mais sobre Savitri Devi:
Savitri Devi, Miguel Serrano and the global phenomenon of esoteric Hitlerism
4) Se quiser saber mais sobre a conexão entre Shambhala e o nazismo, leia isto:
The Nazi Connection with Shambhala and Tibet
Himmler’s crusade: the Nazi expedition to find the origins of the Aryan race
1938–1939 German expedition to Tibet
5) Se quiser ficar por dentro da relação de Hitler com o vegetarianismo:
The remains of Adolf Hitler: A biomedical analysis and definitive identification
Adolf Hitler and vegetarianism
Restos mortais de Hitler confirmam que ele era vegetariano – e só tinha 4 dentes
The remains of Adolf Hitler: A biomedical analysis and definitive identification
#shambala #shambala #agartha #bhagavadgītā #ratanabá #nazismo #nazismoecrime #racismoecrime #homofobiaecrime #misticismo #ocultismo #conspiracoes #teoriasconspiratorias #judaismo #hinduismo #budismo #pedrokupfer #yogaprobr
Continue a leitura no yoga.pro.br: Yoga e Biopoder: Liberdade ou Nacionalismo? · Yoga e política · Tradicionalismo e Preconceito: Onde foi Parar a Liberdade do Yoga?
Mais textos em Sociedade.


Deixe um comentário