Pintura (Kalighat, Calcutá, c. 1890): Annapūrṇā e Śiva

Mantra do Alimento

Por Pedro Kupfer 6 de junho de 2019 4 minutos de leitura

श्रीः

ब्रह्मार्पणम्

Brahmārpaṇam

O mantra do alimento · Bhagavadgītā IV:24

O mantra

ॐ ब्रह्मार्पणं ब्रह्म हविर्ब्रह्माग्नौ ब्रह्मणाहुतम् ।
ब्रह्मैव तेन गन्तव्यं ब्रह्म कर्म समाधिना ॥

oṁ brahmārpaṇaṁ brahma haviḥ
brahmāgnau brahmaṇāhutam |
brahmaiva tena gantavyaṁ
brahmakarma samādhinā ||

“Para [aquele que se libertou dos condicionamentos], o ato de fazer a oferenda é Brahman, a oblação é Brahman. Por Brahman é oferecido no fogo que é Brahman. “Brahman é o objetivo a ser conhecido por aquele que percebe Brahman em suas ações”. Bhagavadgītā, IV:24. O verso conclui-se com a tradicional saudação aos Mestres: “Śrī gurubhyo namaḥ, Hariḥ Oṁ”.


हरिः ॐ ॥ श्री गुरुभ्यो नमः ॥
हरिः ॐ ॥
ॐ नमः पार्वतीपतये
हर हर महादेव ॥

hariḥ oṁ || śrī gurubhyo namaḥ ||
hariḥ oṁ ||
oṁ namaḥ pārvatīpataye
hara hara mahādeva ||

Ouça o mantra aqui:

Comentário do mantra

O verso sânscrito que usamos no Yoga para consagrar o alimento é uma estrofe do imortal diálogo entre o Śrī Kṛṣṇa e o príncipe Arjuna, respectivamente mestre e aluno, naquele que vem a ser o mais importante śāstra do Yoga de todos os tempos: a Bhagavadgītā. Esta estrofe está no quarto capítulo (IV:24) desse texto fundamental da tradição do Yoga.

Diferentemente do que possa parecer à primeira vista, este mantra não é precisamente um agradecimento, mas uma maneira de tomar consciência do significado do ato de nutrir-se. Consiste em levar a mesma consciência da unidade que permeia todas as coisas para o nosso prato.

A ideia é usarmos este mantra a cada refeição. Podemos fazer ele mentalmente com os olhos fechados, o que irá nos levar apenas algumas poucas respirações profundas à beira da mesa, ou ainda verbalizá-lo em voz alta se preferirmos. A tradução do mantra, como vimos acima, aponta para o fato de que toda ação, todo momento, todo lugar, são oportunidades para cultivarmos a consciência de que não estamos sós, de que não há, nunca houve e nunca haverá, separação.

E de que, portanto, não precisa haver aflição ou sofrimento, nunca. Nascemos, crescemos, vivemos e somos sustentados pelo Pleno. Cada ação é feita a cada momento graças e através da presença do Ser invariável. Cada gesto, por pequeno ou banal que pareçe, é uma boa oportunidade para tomarmos consciência da Plenitude que permeia a criação, em todas as situações, tempos e lugares.

No contexto original do diálogo da Bhagavadgītā em que aparecem estes versos, Kṛṣṇa explica ao seu amigo Arjuna qual é a atitude do devoto consciente frente ao altar do fogo, na hora de fazer uma oferenda. Desde a perspectiva da pessoa que se libertou dos condicionamentos, o mantra diz quatro coisas.

A primeira é que a ação de realizar a oferenda é manifestação do Ser Ilimitado, Brahman. A segunda, que aquilo que é oferecido é manifestação do Ilimitado. O terceiro elemento é que aquele que realiza a ação que a oferenda igualmente é manifestação do Ilimitado. E, por último, o fogo ao qual a oferenda é feita é também manifestação do Ilimitado.

À beira da mesa, a cada refeição, podemos ver o ato de nos alimentar com o mesmo olhar. A ação de comer é manifestação do Ilimitado. O alimento que você ingere é manifestação do Ilimitado. Você, que ingere o alimento, é manifestação do Ilimitado. O fogo digestivo, que assimila o alimento, é igualmente manifestação do Ilimitado.

Um detalhe interessante é que este mantra não torna significativo apenas o momento de nos alimentar, mas também pode ser aplicado a outras ações ao longo do dia. Fica então aqui o convite para lembrar destas palavras de sabedoria da Bhagavadgītā noutros momentos ao longo do dia de hoje. Assim, podemos cultivar, agora, daqui a pouco, na próxima refeição e na seguinte, a consciência da Unidade nas ações. Bom apetite.

Outros mantras aqui.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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5 respostas

  1. O prato justo e o prato da iniquidade

  2. Oi Pedro! Obrigada por disponibilizar os mantras no soundcloud, estou a ANOS procurando os mantras sem que tenha uma orquestra sinfonica no fundo!!
    Obrigada obrigada!
    Namaste

  3. Oi Pedro! Obrigada por disponibilizar os mantras no soundcloud, estou a ANOS procurando os mantras sem que tenha uma orquestra sinfonica no fundo!!
    Obrigada obrigada!
    Namaste

  4. Agostina Capello

    Pedro, estoy intentando comunicarme para asistir al curso en Portugal de Dec/May 2017 más no recibo respuesta. Muchos Cariños
    Agostina Capello

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