Paisagem da Índia em pintura antiga

O Hatha Yoga como caminho soteriológico

Por Pedro Kupfer 11 de julho de 2005 4 minutos de leitura

Afirma-se em alguns círculos de Yoga que o Hatha seria um método incompleto, incapaz de conduzir seus praticantes ao estado de iluminação, por utilizar apenas técnicas limitadas como a prática física (āsana) ou os exercícios respiratórios (prāṇāyāma). Há estudiosos e mestres de outras linhas que apresentam o Hatha como o mais básico e ‘materialista’ dos Yogas existentes.

De fato, existem muitas deformações e até caricaturizações desta ciência sagrada, fruto de ensinamentos descontextualizados e sem uma conexão direta com a corrente tradicional da Índia de hoje. Essas deturpações, fruto do despreparo de alguns, da popularização e até da banalização do Yoga em certos contextos, ofuscam a verdadeira face desta disciplina.

O Hatha Yoga, chamado igualmente Hathavidya (‘ciência do Hatha’), é um ramo da soteriologia indiana. A palavra soteriologia deriva do grego, soterios, e significa ‘salvação’. Não está falando-se aqui de salvação no sentido religioso, de vida além da vida, ou de conquistar algum paraíso terrenal. Salvação, no contexto do Yoga, significa realização espiritual, libertação dos condicionamentos, conhecimento da própria essência.

Portanto, o Hatha Yoga é um sistema técnico que tem como propósito dar ao praticante a experiência da liberdade plena. Liberdade dos condicionamentos, da escravidão sensorial, das misérias existenciais, dos karmas passados, entre outros.

Existem muitos termos sânscritos para definir esse estado, que é ao mesmo tempo o objetivo do Yoga: nirvana (‘sem desejos [do ego]’), moksha (‘libertação’), samādhi (‘grande concentração’), kaivalya (‘isolamento [dos condicionamentos e medos]’), etc. Da mesma forma, existem muitos meios diferentes para realizar essa meta, assim como muitas visões diferentes sobre os caminhos a serem percorridos. O Hatha Yoga é um desses caminhos.

O Hatha Yoga como caminho soteriológico

A proposta que o Hatha Yoga nos faz é que seria desejável a gente dedicar boa parte dos nossos esforços à realização da mais importante das tarefas. Essa tarefa é tríplice:

1) Em primeiro lugar, o Hatha Yoga propõe o desenvolvimento de uma apreciação ética da existência e de uma vida de virtude, orientada para o desenvolvimento e a auto-descoberta interior.

2) Em segundo lugar, o Hatha Yoga nos propõe o cultivo da saúde psicofísica em seu sentido mais amplo.

3) Finalmente, como objetivo mais importante (muito embora não exclua os anteriores), o Hatha Yoga busca a realização do potencial espiritual do praticante, o estado de moksha.

Portanto, o Hatha Yoga vai muito além dos seus aspectos visíveis, como os execícios de alongamento, força e flexibilidade, que são os mais conhecidos e populares hoje em dia.

Atualmente, em parte graças à crescente popularização do Yoga, em parte devido a uma silenciosa campanha de manipulação dos meios de comunicação que tem o objetivo de confundir Yoga com ginástica, a palavra hatha, assim como a própria palavra Yoga, é sinônima de exercício físico não muito forte, adequado para combater o estresse e outras mazelas da vida nas cidades.

As deformações na imagem do Yoga que aparecem constantemente na mídia só são possíveis porque o background filosófico desta antiga disciplina é freqüentemente negligenciado, ignorado, esquecido ou simplificado.

O Hatha faz parte de uma corrente cultural ininterrompida, que tem suas raízes na Índia vêdica e que postula uma visão do ser humano na qual este faz parte de uma rede sutil e invisível que secretamente determina as formas do mundo manifestado.

Essa rede, invisível e onipresente, chama-se prana. A palavra prana significa vida, ar, alento vital, respiração, e define o campo da consciência-energia. Esse campo da consciência-energia está presente tanto no macrocosmos quanto no plano humano e no microcosmos.

O Hatha estuda os aspectos dessa rede sutil dentro do homem (como os princípios sutis chamados nadis, chakras, pranas, kuṇḍalinī, etc), e ainda suas interrelações com a natureza e as outras formas de consciência presentes na criação.

Nesse sentido, o Hatha não está separado nem é diferente de outros métodos como Kuṇḍalinī, Laya, Mantra ou Raja Yoga, etc. Todas essas formas de Yoga (e muitas outras não mencionadas), se entremeam e interpenetram num grau tão profundo que é quase impossível diferenciá-las.

Por exemplo, os mantras, entendidos como nada (vibração super-sutil), são intrínsecos ao Hatha, assim como o prāṇāyāma é essencial nas práticas de Kuṇḍalinī Yoga.

Portanto, faríamos muito bem em parar de falar no Hatha como ‘Yoga físico’ apenas, e passar a apreciá-lo em seu devido contexto. De outra forma, repetindo os erros de visão e interpretação esgrimidos pela mídia, estaremos apenas contribuíndo para sepultar o Yoga na vala comum da comercialização e da banalização.

Lembremos que o Yoga é o estado de união transcendental do ser humano com a essência pura do ser, chamada Puruṣa. Esse estado precisa ser constantemente atualizado, constantemente redescoberto dentro de cada praticante.

Continue a leitura no yoga.pro.br: Você está ajudando a enterrar o Haṭha Yoga? · Yoga não é Ginástica e Ginástica não é Yoga · Razões para praticar Haṭha na era dos Yogas de marca ®
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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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2 respostas

  1. Na-mas-têeee! Que todos se soterializem !!! … hehehe … transcendendo todos os nomes e formas, principalmente as distorcidas e duais! Viva o Yoga das veras raízes! Harih Om!

  2. Vanessa Brito

    Oi, Pedro!!! Saudades! Tenho pensando muito em você nas minhas meditações. Mande notícias!!! Precisamos conversar! Estes dias estava com vontade de escutar você tocando o bandolim!! Namastê!

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