O elefante irreal
Uma vez, um yogi vivia numa densa floresta com seus discípulos.
Ele ensinava o desapego e repetia incessantemente para os estudantes que o mundo manifestado é “māyā“, pura ilusão, que a natureza é uma miragem e que somente o Ser tem existência real.
Um dia, um elefante furioso e faminto atacou a ermida onde eles moravam.
Todos os discípulos, junto com o professor, se refugiaram no alto de uma grande árvore enquanto o elefante se refestelava no estoque de arroz dos ermitãos.
Quando o animal foi embora, um estudante perspicaz perguntou ao mestre:
“Sempre aprendemos de você que o mundo é ilusório e que não tem existência real, mas não pude deixar de observar que, quando fomos atacados pelo elefante, você se refugiou junto conosco no alto da árvore.
“Se de fato o mundo é ilusório, não bastava ter ficado quieto no lugar enquanto a ilusão do elefante passava?”
O mestre, sem perder a pose, respondeu:
“Olha, nós sabemos que o mundo é uma ilusão, mas o elefante não sabe. Por isso, tive que fugir junto com vocês”.
Ouvi esta piada do meu mestre, Swami Dayananda quem, aula sim, aula não, nos lembra: we are reality people. “Somos gente da realidade”.
Ele sempre nos convida para mantermos os olhos bem abertos, para não misturar as coisas e não perder o pé da realidade.
Lembremos que o Yoga é mais sobre compreender a realidade e manter os pés firmes no chão, do que sobre ficar equilibrando-se nas mãos ou na cabeça.
O mundo é uma miragem?
A palavra māyā se traduz freqüentemente como “ilusão”. Porém, é um erro traduzirmos māyā dessa maneira.
Esta palavra nunca foi utilizada nesse sentido pelo grande mestre Ādi Śaṅkarācārya, e nunca apareceu dessa forma nas escrituras.
Os intérpretes do Neovedanta trouxeram esse novo significado que, infelizmente, confunde até hoje muitos praticantes.
Supor que māyā, que é o próprio universo manifestado, possa ser uma ilusão, nos leva a olhar para a vida e todas suas manifestações como algo irreal, o que é uma tremenda equivocação.
Quando alguém me diz que o mundo é ilusório, convido a pessoa para atravessar as paredes de um salto, para me demonstrar que isso é verdade.
Até agora, não encontrei ninguém que pudesse demonstrar que o mundo não tem consistência.
Qualquer tentativa nos leva de volta para a piada do elefante faminto: o mundo é ilusório, mas as pessoas não sabem; o mundo é irreal, mas tem alguns teimosos que afirmam que ele é real.
Significados de māyā
Indo ao dicionário sânscrito, veremos que, em primeiro lugar, māyā significa “sabedoria”, “poder extraordinário”.
Num segundo nível de significado, é também “truque de mágica”, “feitiçaria”, “fantasma”, e designa, ainda, algo falso ou irreal.
Num outro nível ainda, a palavra maya aponta para as manifestações da Deusa.
Misturar níveis de significados ou descontextualizar um significado específico, levando-o para outro contexto, só pode resultar em errar o alvo.
Por exemplo, se formos traduzir a palavra Yoga como “união”, e sūtra como “barbante”, o nome Yogasūtra poderia ser traduzido como “Os Barbantes da União”.
Ninguém pode negar que essa tradução seja correta. No entanto, se formos nos referir à obra do sábio Patañjali, o certo seria traduzirmos o nome Yogasūtra como “Sūtras do Yoga”.
Ora, bem sabemos da importância que tem no estudo o uso correto da palavra.
Como a palavra é usada para revelar conhecimento, a maneira de manejá-la exclui esse tipo de extravagância cirúrgica, que pode resultar num verdadeiro Frankenstein filosófico.
Podemos usar três diferentes categorias para classificar aquilo que percebemos na realidade:
1) real,
2) falso, e
3) inexistente.
Basicamente tudo aquilo que fazemos na vida está pautado pela compreensão da diferença entre o que é verdadeiro, o que é falso, e o que é inexistente.
Desde o ponto de vista de cada um, existem coisas que são mais importantes e outras menos. Damos obviamente prioridade àquilo que consideramos essencial.
No entanto, pode haver uma confusão entre o que é e o que não é importante. Māyā não é verdadeiro, nem falso, nem inexistente, como veremos a seguir.
Ouro e ornamento: satyam e māyā
Vamos aqui considerar a questão forma-essência refletindo sobre o exemplo clássico do metal e os ornamentos feitos com ele.
Uma pulseira de ouro é essencialmente igual a um colar ou a um anel de ouro, no sentido que todos os ornamentos são somente ouro, sob formas distintas.
Aquilo que chamamos pulseira, colar ou anel, é māyā, o relativo, aquilo que muda. O ouro é a essência imutável, da qual os ornamentos estão feitos.
Chamemos essa essência imutável de satyam, que significa verdadeiro, real.
Objetivamente falando, não existem pulseiras, colares ou anéis, mas somente ouro. Da mesma maneira, ensina Swāmi Dayānanda, é com a realidade.
Māyā não é uma ilusão ou algo irreal: tem existência objetiva. No entanto, a existência de māyā depende da presença do Ser.
Desta forma, tudo o que existe é o Ser, assim como todos os ornamentos são, essencialmente, ouro.
Não podemos afirmar que os ornamentos sejam ilusórios ou inexistentes.
Mas, se precisarmos vender as jóias, o comprador irá nos pagar somente pelo peso do ouro, independentemente da forma que esse ouro tenha.
Portanto, o ouro é a verdade, e a jóia é o relativo. O que é o real, então? O ouro.
O peso de uma pulseira não pode ser separado do peso do ouro com o qual ela está feita. A realidade da pulseira é ser ouro.
A textura da pulseira é a textura do ouro. A pulseira não está no ouro. A pulseira é ouro.
O Ser está em todas as formas e as transcende
Porém, precipitadamente, concluímos que, se a pulseira é ouro, o ouro também será pulseira.
Esse é justamente o problema. E é aí que o conhecimento adequado do Ser pode indicar o sentido das coisas. Ouro é ouro.
Compreendendo a natureza do ouro, constatamos que as eventuais formas que ele possa assumir não fazem parte dessa natureza.
Por isso, somos capazes de reconhecer o ouro, independentemente da forma que este assuma.
O ouro transcende as formas. Compreendendo que o ouro transcende todas as formas, somos capazes de reconhecê-lo sob qualquer forma.
Similarmente, se quisermos nos livrar de algum problema vinculado com as formas, é questão de lembrar que somos essência.
Isso resolve todos os problemas existenciais, emocionais e outros. Há inúmeras formas, mas um único Ser. Não podemos afirmar que as diversas formas da criação não existam.
Entretanto, tampouco podemos dizer que elas sejam verdadeiras (satyam), já que elas dependem da presença do Ser para existir.
A realidade do ornamento é que ele não é satyam. Satyam é o ouro, e somente ele.
O ornamento não é nem verdadeiro, nem falso, nem não-existente. O que é o ornamento? A resposta: maya.
Quando dizemos pulseira de ouro, a palavra ouro torna-se um adjetivo da pulseira. Um adjetivo que o diferencia das demais pulseiras.
Assim surge a dualidade. Existem diferentes pulseiras. O ouro é satyam, é a realidade. A pulseira depende da existência do ouro.
A palavra, assim, revela a nossa compreensão da realidade. A pulseira não é satyam; é māyā.
Para mantermos a clareza, precisamos lembrar que satyam jamais deveria tornar-se um adjetivo.
A palavra satyam cobre aquilo que é; a palavra māyā, aquilo com o que lidamos no mundo das formas.
Māyā é aquilo que possui uma forma, que exerce uma função na criação, que é útil.
Apenas precisamos descartar os erros
Então, este Ser, este satyam, dá origem às miríades de objetos, da mesma forma que do ouro surgem todos os ornamentos.
De uma tonelada de ouro, derivam os diferentes ornamentos. Depois desses ornamentos serem confecionados, quanto ouro existe?
A mesma tonelada. A tonelada de ouro foi reduzida a um milhão de jóias. Antes, havia uma tonelada.
Agora, há uma tonelada. Isso nos remete ao belo mantra Pūrṇaḥmadaḥ, que diz: “tirando-se a Plenitude da Plenitude, somente a Plenitude permanece”.
Reconheçamos a verdade: somos ouro, não ornamentos. O significado das diversas palavras é maya, pois todas elas dependem da Consciência.
Não obstante, o significado da palavra Consciência (desde que não seja usada como adjetivo), é somente satyam.
Felizmente, esta Consciência é auto-revelada. Esse é o significado da palavra você na afirmação védica tat tvam’asi: “você é Isso [a Consciência]”.
O ponto em que a palavra você se resolve, é em Você mesmo: Você é Ilimitado.
Não estamos descartando nem negando mais nada, além das nossas próprias confusões.
Não estamos negando os objetos. Somente os erros. Não precisamos, portanto, negar as coisas do mundo.
Não precisamos negar aquilo que é relativo para compreender o verdadeiro. Não precisamos negar māyā para compreender satyam.
॥ हरिः ॐ ॥
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॥ हरिः ॐ ॥
Eis uma brilhante aula de
Swāmi Tadātmānanda
sobre māyā aqui
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