Pedro ajuda um aluno numa postura de braços

Resenha do livro Light on Astanga Yoga

Por Pedro Kupfer 20 de janeiro de 2006 5 minutos de leitura

Resenha do livro Light on Astanga YogaAo contrário do que alguns possam pensar ao ver o título, B.K.S. Iyengar, o mestre indiano de Puna que criou um estilo de Hatha Yoga mundialmente (re)conhecido pelas longas permanências nas posturas e a precisão no alinhamento, não está descrevendo o Aṣṭāṅga Vinyasa Yoga, estilo dinâmico e vigoroso de Hatha Yoga associado ao nome de K. Patthabi Jois de Mysore (sul da Índia) nesta obra. O pequeno livro aqui apresentado trata do Yoga de oito partes de Pantañjali (ata = oito e anga = membros, em sânscrito). O livro foi editado por alunos de Iyengar, com base numa palestra do mestre na ocasião do gurupurnima (lua cheia do mestre) em 30 de Julho 1996, no Ramamani Iyengar Memorial Yoga Institute. A contribuição de B.K.S. Iyengar para entender melhor o texto do Yoga Sūtra de Patañjali é muito valiosa por três motivos:

a) ele é um pesquisador apaixonado pela teoria e prática do sistema de Patañjali,

b) ele nos fala da experiência de mais de 65 anos de ensino de Yoga em todos os seus aspectos e

c) ele é representante de uma tradição riquíssima de mestres indianos.

Assim, nada mais natural do que ouvir a voz autêntica, de uma pessoa com esta competência, quando falamos de um tema indiano. Livros ocidentais sobre Yoga podem ser muito bons, podem ajudar o leitor ocidental a compreender melhor alguns aspectos do Yoga, mas as fontes indianas originais são insubstituíveis.

Na primeira parte, Iyengar expõe os princípios básicos que estão por trás do sistema de Patañjali de forma resumida. Ele fala da condição humana universal e como o sistema filosófico e prático do Yoga pode ser interessante para viver uma vida mais consciente, plena e realizada. Assim, aborda questões como as necessidades do ser humano, a liberdade ou limitação da existência individual, as causas do sofrimento do homem, o papel da consciência. Conceitos elementares como Purusa e Prakrti, chitta, vrtti, klea, etc. são colocados de forma muito clara.

Por um lado, o texto é muito rico em detalhes e citações em sânscrito. Assim, sempre introduz a terminologia nesta língua (ao lado da tradução para o inglês), o que pode causar uma certa dificuldade para o leitor iniciante na matéria. Porém, traz a grande vantagem de não ofuscar o significado com conceitos chaves ao não apresentá-los apenas em traduções, necessariamente parciais e sempre incompletas. Uma vez que se aprendeu estes conceitos no original, também é facilitada a leitura de todos os outros textos sobre o Yoga Sūtra de Patañjali e sobre a filosofia do Yoga em geral. Pois, desta forma, o leitor sempre consegue identificar a que exatamente os comentaristas estão se referindo. Mesmo a orientação posterior no próprio texto do Yoga Sūtra em sânscrito fica mais fácil desta maneira. Por outro lado, como a base do livro foi a gravação de uma palestra, a linguagem é muito fluente, acessível, sempre compreensível e sem floreios ou reviravoltas. Trata-se de um livro que se lê quase rápido demais para apreciar toda sua abrangência e profundidade. De qualquer forma, é uma obra para se ler repetidas vezes e depois usar como material de consulta.

A segunda metade do livro, intitulada Application of Principles, dá uma introdução ao conceito de sadhana (a prática) e traz o ‘mapa do ser humano’ (p. 95), dentro da visão dom ayurveda (a medicina tradicional indiana) e do Samkhya (uma das seis escolas filosóficas da Índia – adarana, que agrupam o lado prático e teórico do mundo físico, do mundo transcendental e das transições entre ambos em três pares: Nyaya ? Vaieika, Mimamsa ? Vedānta, Yoga ? Samkhya). É impressionante como Iyengar coloca esta matéria difícil com clareza e em poucas páginas apresentando com leveza conceitos profundos como os já citados Purusa e Prakrti, ou os gunas (princípios criadores de toda a manifestação), mahabhutas (elementos densos) e tanmatras (elementos sutis), os cinco tipos de prana (energia vital), os cinco koas (camadas densas e sutis do ser humano), os três doas (tipos de constituição) e os sete dhatus (elementos constitutivos do corpo humano no sistema ayurvédico). Interessante a divisão dos oito passos da prática de Yoga em três níveis: bahiranga (membros externos: yama, niyama, āsana, prāṇāyāma e pratyahara), antaranga (dharana e dhyana) e antaratma (samādhi). Criativa também é a visão de que cada nível corresponde de sua forma à definição famosa do capítulo I.2 do Yoga Sūtra de Patañjali: Yoga cittavtti nirodha? (p. 93).

Também ao abordar cada um dos oito membros do caminho do Yoga de Patañjali especificamente, Iyengar desenvolve comentários acessíveis que tanto podem ser um atalho para a compreensão mais rápida do iniciante quanto a ‘espada do discernimento’ para desfazer o nó górdio na cabeça de quem já leu muito sobre o assunto mas ainda sente muito mais confusão do que clareza. Pela visão sintética que junta os elementos a um quadro geral, esta obra é a complementação perfeita da volumosa edição do Yoga Sutra de Patañjali pelo mesmo autor (B.K.S. Iyengar: Light on the Yoga Sutras of Patañjali), mais difundida, que analisa o sistema de Patañjali em comentários verso por verso. O presente volume destaca-se pela simplicidade da visão geral e completa que ainda consegue colocar alguns pontinhos interessantes em vários i’s de relevância. As ilustrações finais dos āsanas mencionados no texto e a lista completa de todos os sūtras de Patañjali citados na obra completam e boa impressão geral do volume.


Markus é professor de lingüística na Universidade Federal de Santa Catarina. Nasceu na Alemanha e mora em Florianópolis.

Essa sua resenha foi originalmente publicada nas páginas 80 a 82 da edição no 01, do Verão de 2004, dos Cadernos de Yoga.

Continue a leitura no yoga.pro.br: Resenha do livro A Árvore do Ioga: Yoga Vrksha · Sādhana é Acertar o Alvo · O Samkhya no Yoga Sūtra
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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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