श्रीः
योगसूत्रम्
Yogasūtram
Patañjali além do Veda · as heranças budista e jainista
Patañjali, o autor do Yogasūtra, é tido habitualmente como alguém vinculado à tradição védica ou à tradição bramânica. Poucas pessoas questionam isso, visto que o Yoga é aceito como um darśana, uma escola de vida ou escola de filosofia ortodoxa dentro do hinduísmo, classificação que só viria a ser codificada e organizada séculos mais tarde.
A grande questão é que, se fizermos uma leitura atenta do Yogasūtra, descobriremos que alguns dos seus elementos mais importantes não estão vinculados nem à tradição védica nem ao bramanismo. Vários deles dialogam diretamente com o budismo; outro, central para a ética do Yoga, vem do jainismo. Vamos percorrê-los na ordem em que aparecem no texto.
Um autor entre tradições
Antes de olhar para esses elementos, convém lembrar o cenário em que Patañjali viveu. Encontramos ali um conjunto diversificado de tradições védicas, bramânicas, ascéticas e filosóficas, dentre as quais o budismo e o jainismo eram considerados heresias.
Patañjali circulava com muita espontaneidade entre o que hoje conhecemos como hinduísmo — que na sua época era ainda a tradição védica, orbitando em direção ao bramanismo — e essas outras correntes. Ele não se restringiu à tradição do Veda.
Fica muito claro, também, que Patañjali não tem a preocupação de associar o Yogasūtra a uma religião: nem ao vedismo, nem ao bramanismo, e muito menos ao hinduísmo, que na época não existia como religião unificada. Ainda que o termo fosse usado, não o era da maneira como o empregamos atualmente.
A herança budista
1. A análise da psique e a cessação da identificação com seus conteúdos
O primeiro paralelo importante entre Yoga e budismo encontra-se na própria definição de Yoga, logo no início da obra de Patañjali, no sūtra I:2:
योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः ॥ १.२ ॥
yogaś cittavṛttinirodhaḥ || 1.2 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
yogaḥ: Yoga; citta: psique, mente; vṛtti: conteúdos, movimentos, modificações; nirodhaḥ: cessação, contenção; cittavṛttinirodhaḥ: cessação [da identificação com] os conteúdos psíquicos.
Yoga é a cessação [da identificação com] os conteúdos psíquicos. Yogasūtra I:2
Os termos citta, vṛtti e nirodha são centrais na literatura budista, especialmente no Abhidharma e no Yogācāra. Essas tradições desenvolveram análises minuciosas dos processos mentais e dos métodos de meditação.
A semelhança não está apenas no vocabulário. Ambas as tradições investigam como os processos psíquicos condicionam a experiência humana e como podem ser transformados por meio de atitudes e práticas meditativas.
2. Os brahmavihāra: quatro atitudes diante dos outros
Ainda no primeiro capítulo, o Samādhi Pāda, Patañjali apresenta no sūtra I:33 os brahmavihāra, as moradas de Brahman, as moradas do ser ilimitado. Eles surgem na forma de quatro atitudes: maitrī, karuṇā, muditā e upekṣā.
मैत्रीकरुणामुदितोपेक्षाणां सुखदुःखपुण्यापुण्यविषयाणां भावनातश्चित्तप्रसादनम् ॥ १.३३ ॥
maitrīkaruṇāmuditopekṣāṇāṁ sukhaduḥkhapuṇyāpuṇyaviṣayāṇāṁ bhāvanātaś cittaprasādanam || 1.33 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
maitrī: amizade, benevolência; karuṇā: compaixão; muditā: alegria pelo bem alheio; upekṣā: equanimidade; maitrīkaruṇāmuditopekṣāṇām: da amizade, da compaixão, da alegria e da equanimidade (genitivo plural); sukha: felicidade; quem está feliz; duḥkha: sofrimento; quem sofre; puṇya: virtude, ação correta; apuṇya: falta de virtude, ação errada; viṣayāṇām: em relação a, diante de (genitivo plural de viṣaya, objeto, situação); bhāvanātaḥ: pelo cultivo, pela prática constante; citta: mente; prasādanam: clareza, serenidade, apaziguamento.
A mente torna-se clara e serena pelo cultivo da amizade diante de quem está feliz, da compaixão diante de quem sofre, da alegria diante de quem age bem e da equanimidade diante de quem age mal. Yogasūtra I:33
Devemos cultivar estas quatro atitudes diante das quatro situações ou condições nas quais possamos encontrar-nos. Quando o fazemos, a mente torna-se clara e serena (citta-prasādana).
| Atitude | Sentido | Diante de |
|---|---|---|
| maitrī | Amizade, benevolência | Pessoas alegres (sukha) |
| karuṇā | Compaixão | Pessoas que sofrem (duḥkha) |
| muditā | Alegria pelo bem alheio | Pessoas que fazem a coisa certa (puṇya) |
| upekṣā | Equanimidade | Pessoas que fazem a coisa errada (apuṇya) |
Ora bem, esse ensinamento, por bonito e familiar que pareça a qualquer praticante que tenha estudado a obra de Patañjali, é oriundo, em verdade, do ensinamento do Buddha Gautama.

3. As aflições (kleśa) e a causa do sofrimento
No segundo capítulo, o Sādhana Pāda, Patañjali enumera no sūtra II:3 cinco kleśa, ou misérias existenciais:
अविद्यास्मितारागद्वेषाभिनिवेशाः क्लेशाः ॥ २.३ ॥
avidyāsmitārāgadveṣābhiniveśāḥ kleśāḥ || 2.3 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
avidyā: ignorância; asmitā: identificação do eu; rāga: apego; dveṣa: aversão; abhiniveśa: apego à vida, ou medo da morte; kleśāḥ: as aflições, as misérias existenciais.
Ignorância, identificação do eu, apego, aversão e medo da morte são as aflições. Yogasūtra II:3
Aqui também encontramos afinidades com o budismo, que da mesma forma investiga a ignorância, o desejo, a aversão e outros fatores que perpetuam o sofrimento. Em ambos os sistemas, a libertação exige mais do que uma mudança superficial de comportamento: requer transformar as condições que mantêm a experiência condicionada.
4. A estrutura do sofrimento e sua superação
Um paralelo ainda mais interessante aparece no sūtra II:16, onde Patañjali analisa o sofrimento, suas causas e a possibilidade de eliminá-lo:
हेयं दुःखमनागतम् ॥ २.१६ ॥
heyaṁ duḥkham anāgatam || 2.16 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
heyam: deve ser evitado, deve ser eliminado; duḥkham: sofrimento; anāgatam: que ainda não veio, futuro.
O sofrimento que ainda não surgiu deve ser evitado. Yogasūtra II:16
Philipp A. Maas, no seu artigo The Pātañjalayogaśāstra alias the Yogasūtra and the Yogabhāṣya, observa que parte dessa exposição segue uma estrutura semelhante à das Quatro Nobres Verdades do budismo:
- identificar o sofrimento;
- compreender sua origem;
- reconhecer a possibilidade de sua cessação;
- apresentar os meios para alcançá-la.
A correspondência estrutural é relevante, mas não significa que as duas doutrinas sejam idênticas. No budismo, o caminho para a cessação do sofrimento é articulado pelas Quatro Nobres Verdades e pelo Nobre Caminho Óctuplo. Em Patañjali, a libertação depende fundamentalmente do discernimento entre puruṣa e prakṛti.
A herança jaina: o grande voto do yama
Os cinco grandes votos
Outro elemento do Yogasūtra que não está vinculado à tradição védica nem ao bramanismo surge também no segundo capítulo. Ali, Patañjali descreve os cinco yama que constituem o código de ética do Yoga. Os cinco yama são enumerados no sūtra II:30:
अहिंसासत्यास्तेयब्रह्मचर्यापरिग्रहा यमाः ॥ २.३० ॥
ahiṁsāsatyāsteyabrahmacaryāparigrahā yamāḥ || 2.30 ||
Pādapāṭha tradução palavra por palavra
ahiṁsā: não violência; satya: verdade; asteya: não roubar; brahmacarya: moderação; aparigraha: não possessividade; yamāḥ: os yama, os compromissos éticos.
Não violência, verdade, não roubar, moderação e não possessividade são os yama. Yogasūtra II:30
Ora bem, esse código, tão familiar para qualquer praticante, não é uma criação original de Patañjali. Os cinco yama são, um a um, os cinco grandes votos ensinados por outro grande mestre e profeta: Mahāvīra, que viveu, segundo a tradição, no século VI a.C. Portanto, provavelmente 800 ou 900 anos antes de Patañjali.
O próprio autor deixa a pista: no sūtra II:31, chama os yama de mahāvrata, o «grande voto», exatamente o nome que os jainistas dão a esses cinco compromissos.

Dar o mérito a quem é devido
Considerar os yama uma criação original de Patañjali é equivocar-se. Seria negar o mérito e o brilhantismo deste ensinamento ao seu autor original, Mahāvīra, fundador da religião que hoje conhecemos como jainismo.
Uma ética relacional para o Yoga
A escolha de Patañjali em citar ensinamentos tanto do budismo quanto do jainismo indica, por parte do nosso querido autor, uma atitude muito pragmática e integradora. Para ele, a estabilidade da pessoa na sua própria natureza (svarūpe’vasthānam, sūtra I:3) não depende apenas de fazer uma prática, cultivar uma disciplina ou repetir uma técnica de meditação.
Para Patañjali, o sucesso no Yoga depende também da maneira como nos relacionamos com os outros:
- como respondemos diante da felicidade das outras pessoas;
- como respondemos diante do sofrimento dos demais;
- como reconhecemos a virtude;
- como lidamos com os comportamentos egoístas de certas pessoas.
Patañjali, como praticante de Yoga, sugere-nos não apenas a disciplina interior, mas também o cultivo de uma inteligência relacional, ou de uma inteligência ética, nos relacionamentos entre os seres humanos e entre as pessoas e o mundo, o meio ambiente onde vivemos.
Conclusão
Há razões consistentes para identificar influências não védicas no Yogasūtra. Entre os paralelos mais importantes estão:
- a análise dos processos mentais e a cessação da identificação com eles, que traz como resultado a paz interior e a liberdade;
- o cultivo das quatro atitudes contemplativas, os brahmavihāra, como forma de construir relacionamentos harmoniosos;
- a classificação dos obstáculos que sustentam o sofrimento, verdadeiro mapa do psiquismo humano, com soluções práticas para aplicar no dia a dia;
- a estrutura quádrupla da investigação sobre o sofrimento e sua superação;
- os cinco yama, herdados dos grandes votos de Mahāvīra.
A conclusão mais rigorosa não é que Patañjali tenha simplesmente copiado o budismo ou o jainismo. É que o Yoga clássico se desenvolveu por meio de intercâmbios intelectuais entre diferentes tradições espirituais da Índia.
Sua originalidade está, em parte, na maneira como organiza práticas contemplativas compartilhadas dentro de uma visão própria, centrada na percepção da própria natureza como a calma que está mais além da identificação (sārūpyam, sūtra I:4) com os conteúdos psíquicos: em Yoga, a pessoa repousa na sua própria natureza (sūtra I:3).
Para ir além
Se o amigo leitor quiser aprofundar-se mais a questão, recomendamos a leitura do artigo de Philipp A. Maas, The Pātañjalayogaśāstra alias the Yogasūtra and the Yogabhāṣya, que oferece uma contextualização histórica e textual destas afirmações.
॥ हरिः ॐ ॥
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