Os primeiros falantes de sânscrito foram os āryas ou arianos, fundadores da civilização védica. Os mais antigos textos da Humanidade, chamados Vedas, datam da Idade Védica, entre o sétimo e o quarto milênio a.C. Foram transmitidos com surpreendente exatidão ao longo dos milênios por tradição oral, e transcritos durante a segunda metade do II milênio a.C.
William Jones, pioneiro da filologia que descobriu a origem comum das línguas indo-europeias, disse em 1786:
A língua sânscrita, seja qual for a sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa; mais perfeita que o grego, mais rica que o latim e mais elegantemente refinada que ambos, ela mantém ao mesmo tempo com ambas as línguas, tanto no que se refere à raiz dos verbos quanto às formas gramaticais, uma afinidade mais forte que a que pudéssemos esperar quiçá por mero acidente. Tão forte que nenhum filólogo poderia analisar as três línguas sem chegar à convicção de que procedem de uma mesma fonte, que talvez já não exista.
William Jones, 1786
Ao longo da existência, essa língua evoluiu e depurou-se: saṁskṛta significa precisamente “refinado”, por oposição às línguas prākṛtas, “naturais” ou vernáculas. Assimilou, todavia, influências de linguagens dravídicas e austro-asiáticas como o munda (da mesma família que as línguas mon-khmer, da Ásia Oriental), do qual herdou, entre muitas outras, as palavras liṅgaṁ, pūjā e mayūra.
Trata-se de uma língua sagrada que sempre foi usada para transmitir a Visão do Ilimitado, nas diversas escolas e tradições da Índia antiga. Isto cria uma série de dificuldades em relação à interpretação do sentido de muitas expressões que não possuem uma tradução direta nem precisa em línguas ocidentais.
Com o surgimento da escrita nāgarī, o sânscrito passou a ser usado para redigir tratados sobre ritual, filosofia, gramática, astronomia, legislação etc. O sânscrito clássico, vigente na Idade de Ouro, diferencia-se do mais antigo, usado no Período Védico. Pāṇini, o grande gramático do século VI a.C., deu as bases para essa transformação da língua na sua obra Aṣṭādhyāyī (“Oito Capítulos”), que contém as 3.959 regras da morfologia sânscrita.
॥ हरिः ॐ ॥
Pequeno guia de fonética
O sânscrito consta de quatorze vogais e trinta e três consoantes, o que o torna um tanto hermético para os não iniciados: as nuanças de pronúncia chegam a ser imperceptíveis aos ouvidos desabituados. Consequentemente, muitos dos seus sons são irreproduzíveis em outros idiomas. Não possui acentuação marcada ou forte, mas apenas uma sucessão de sílabas curtas e longas, com inflexões tônicas e musicais.
O traço horizontal (mácron) sobre a vogal implica alongamento. A pronúncia figurada é dada abaixo, segundo a ordem do alfabeto sânscrito (ou melhor, silabário). Os termos sânscritos que aparecem nestes textos foram transcritos da sua forma original, conforme a transliteração adotada pela Convenção de Genebra de 1949, atualizada na Convenção de Harvard-Kyoto, a fim de se conseguir a pronúncia figurada mais aproximada possível dos sons originais do sânscrito.
Varṇamālā: o alfabeto
Akṣarāṇi: as letras
I — Ghoṣaḥ: as vogais e os ditongos
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| अ | a | aberta, curta, como em tatu (pūrṇa). |
| आ | ā | aberta, longa, como em arte (prāṇa). |
| इ | i | curta, como em ideia (Śiva). |
| ई | ī | longa, como em ali (nāḍī). |
| उ | u | como em união (udāna). |
| ऊ | ū | longa, como em açude (kumbhaka). |
| ऋ | ṛ | pronuncia-se como em marinho (ṛṣi). |
| ॠ | ṝ | pronuncia-se como em marítimo (ṝkāra). |
| ऌ | ḷ | como em inglês, revelry (ḷtaka). |
| ॡ | ḹ | como em inglês, revelry, mas prolongado (ḹkāra). |
| ए | e | fechado, como em dedo (asteya). |
| ऐ | ai | ditongo, como em vai (kaivalya). |
| ओ | o | fechado, como em iodo (Yoga). |
| औ | au | ditongo, como em pauta (nauli). |
II — Vyañjanaḥ: as consoantes
1) Kaṇṭhyaḥ, as guturais ou velares
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| क | ka | como em Karina (karma). |
| ख | kha | aspirada, como em inglês, broke-heart (Sāṅkhya). |
| ग | ga | gutural, como em guirlanda (Gītā). |
| घ | gha | aspirada, como em inglês, big-house (Gheraṇḍa). |
| ङ | ṅa | nasalizando a vogal precedente (aṅga). |
2) Tālavyaḥ, as palatais
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| च | ca | pronuncia-se como em tchê (cakra). |
| छ | cha | também como em tchê, porém aspirado (mūrcchā). |
| ज | ja | palatal, pronuncia-se como em Djalma (japa). |
| झ | jha | palatal, como em inglês, hedgehog (jhali). |
| ञ | ña | antes ou depois de consoantes palatais, como em senha (jñāna). |
3) Mūrdhanyaḥ, as cerebrais ou retroflexas
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| ट | ṭa | com a língua no palato, como em inglês, true (Aṣṭāṅga). |
| ठ | ṭha | retroflexa aspirada, como em inglês, lighthouse (Haṭha). |
| ड | ḍa | com a língua no palato, como em inglês, drum (daṇḍa). |
| ढ | ḍha | com a língua no palato, como em inglês, redhaired (ḍhakkā). |
| ण | ṇa | como em inglês, done (prāṇa). |
4) Dantyaḥ, as dentais
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| त | ta | com a língua na raiz dos dentes, como em terra (Tantra). |
| थ | tha | com a língua na raiz dos dentes, como em inglês, foot-hook (sthiraṁ). |
| द | da | dental, como em dilúvio (daśanāmī). |
| ध | dha | dental, como em inglês, bloodhorse (dhāraṇā). |
| न | na | dental, como em nota (ānanda). |
5) Oṣṭhyaḥ, as labiais
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| प | pa | labial, como em posto (pūrvaka). |
| फ | pha | labial aspirada, como em inglês, top-half (phāla). |
| ब | ba | labial, como em bomba (bandha). |
| भ | bha | aspirada, como no inglês, nib-head (bhūta). |
| म | ma | em início de palavra ou após vogal tem som bilabial, como em mãe (mantra); entre consoantes, é nasalizada, como em também (saṁskāra). |
6) Antasthaḥ, as semivogais
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| य | ya | é semivogal: pronuncia-se como o i em viola (Yoga). |
| र | ra | sempre como se estivesse no meio da palavra, como em vidro (rāja). |
| ल | la | como em iluminar (kuṇḍalinī). |
| व | va | em início de palavra ou após uma vogal, pronuncia-se como em volta (vāsanā); após uma consoante, pronuncia-se como o w de narrow, em inglês (tattva). |
7) Ūṣman, as sibilantes
| devanāgarī | IAST | pronúncia |
|---|---|---|
| श | śa | tem o som de sh, como em Sheila (Śiva). |
| ष | ṣa | tem o som de sh, como em bush (Kṛṣṇa). |
| स | sa | tem o som de ss, como em passo (āsana). |
| ह | ha | sempre aspirado, como em happy (anāhata). |
॥ हरिः ॐ ॥
Websites de estudo
- Arsha Avinash, de N. Avinashilingam (em inglês).
- Arshavidyā Gurukulam, de Swāmi Dayānanda (em inglês).
- Arshavidyā Pītham, de Swāmi Dayānanda (em inglês).
- Vedānta Vidyārthi Saṅgha, de Swāmi Paramārthānanda (em inglês).
॥ हरिः ॐ ॥
Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
Biografia completa | Artigos
