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Sânscrito, a Língua Franca do Yoga

A origem do sânscrito, a língua sagrada em que foram transmitidos os Vedas, o Yoga e o Vedānta; um pequeno guia de fonética, com o alfabeto devanāgarī e a pronúncia de cada letra; e uma bibliografia de Yoga, Tantra e Vedānta.

· 4 minutos de leitura >
glossário

Os primeiros falantes de sânscrito foram os āryas ou arianos, fundadores da civilização védica. Os mais antigos textos da Humanidade, chamados Vedas, datam da Idade Védica, entre o sétimo e o quarto milênio a.C. Foram transmitidos com surpreendente exatidão ao longo dos milênios por tradição oral, e transcritos durante a segunda metade do II milênio a.C.

William Jones, pioneiro da filologia que descobriu a origem comum das línguas indo-europeias, disse em 1786:

A língua sânscrita, seja qual for a sua antiguidade, possui uma estrutura maravilhosa; mais perfeita que o grego, mais rica que o latim e mais elegantemente refinada que ambos, ela mantém ao mesmo tempo com ambas as línguas, tanto no que se refere à raiz dos verbos quanto às formas gramaticais, uma afinidade mais forte que a que pudéssemos esperar quiçá por mero acidente. Tão forte que nenhum filólogo poderia analisar as três línguas sem chegar à convicção de que procedem de uma mesma fonte, que talvez já não exista.

William Jones, 1786

Ao longo da existência, essa língua evoluiu e depurou-se: saṁskṛta significa precisamente “refinado”, por oposição às línguas prākṛtas, “naturais” ou vernáculas. Assimilou, todavia, influências de linguagens dravídicas e austro-asiáticas como o munda (da mesma família que as línguas mon-khmer, da Ásia Oriental), do qual herdou, entre muitas outras, as palavras liṅgaṁ, pūjā e mayūra.

Trata-se de uma língua sagrada que sempre foi usada para transmitir a Visão do Ilimitado, nas diversas escolas e tradições da Índia antiga. Isto cria uma série de dificuldades em relação à interpretação do sentido de muitas expressões que não possuem uma tradução direta nem precisa em línguas ocidentais.

Com o surgimento da escrita nāgarī, o sânscrito passou a ser usado para redigir tratados sobre ritual, filosofia, gramática, astronomia, legislação etc. O sânscrito clássico, vigente na Idade de Ouro, diferencia-se do mais antigo, usado no Período Védico. Pāṇini, o grande gramático do século VI a.C., deu as bases para essa transformação da língua na sua obra Aṣṭādhyāyī (“Oito Capítulos”), que contém as 3.959 regras da morfologia sânscrita.

॥ हरिः ॐ ॥

Pequeno guia de fonética

O sânscrito consta de quatorze vogais e trinta e três consoantes, o que o torna um tanto hermético para os não iniciados: as nuanças de pronúncia chegam a ser imperceptíveis aos ouvidos desabituados. Consequentemente, muitos dos seus sons são irreproduzíveis em outros idiomas. Não possui acentuação marcada ou forte, mas apenas uma sucessão de sílabas curtas e longas, com inflexões tônicas e musicais.

O traço horizontal (mácron) sobre a vogal implica alongamento. A pronúncia figurada é dada abaixo, segundo a ordem do alfabeto sânscrito (ou melhor, silabário). Os termos sânscritos que aparecem nestes textos foram transcritos da sua forma original, conforme a transliteração adotada pela Convenção de Genebra de 1949, atualizada na Convenção de Harvard-Kyoto, a fim de se conseguir a pronúncia figurada mais aproximada possível dos sons originais do sânscrito.

Varṇamālā: o alfabeto

Akṣarāṇi: as letras

I — Ghoṣaḥ: as vogais e os ditongos

devanāgarīIASTpronúncia
अaaberta, curta, como em tatu (pūrṇa).
आāaberta, longa, como em arte (prāṇa).
इicurta, como em ideia (Śiva).
ईīlonga, como em ali (nāḍī).
उucomo em união (udāna).
ऊūlonga, como em açude (kumbhaka).
ऋṛpronuncia-se como em marinho (ṛṣi).
ॠṝpronuncia-se como em marítimo (ṝkāra).
ऌḷcomo em inglês, revelry (ḷtaka).
ॡḹcomo em inglês, revelry, mas prolongado (ḹkāra).
एefechado, como em dedo (asteya).
ऐaiditongo, como em vai (kaivalya).
ओofechado, como em iodo (Yoga).
औauditongo, como em pauta (nauli).

II — Vyañjanaḥ: as consoantes

1) Kaṇṭhyaḥ, as guturais ou velares

devanāgarīIASTpronúncia
कkacomo em Karina (karma).
खkhaaspirada, como em inglês, broke-heart (Sāṅkhya).
गgagutural, como em guirlanda (Gītā).
घghaaspirada, como em inglês, big-house (Gheraṇḍa).
ङṅanasalizando a vogal precedente (aṅga).

2) Tālavyaḥ, as palatais

devanāgarīIASTpronúncia
चcapronuncia-se como em tchê (cakra).
छchatambém como em tchê, porém aspirado (mūrcchā).
जjapalatal, pronuncia-se como em Djalma (japa).
झjhapalatal, como em inglês, hedgehog (jhali).
ञñaantes ou depois de consoantes palatais, como em senha (jñāna).

3) Mūrdhanyaḥ, as cerebrais ou retroflexas

devanāgarīIASTpronúncia
टṭacom a língua no palato, como em inglês, true (Aṣṭāṅga).
ठṭharetroflexa aspirada, como em inglês, lighthouse (Haṭha).
डḍacom a língua no palato, como em inglês, drum (daṇḍa).
ढḍhacom a língua no palato, como em inglês, redhaired (ḍhakkā).
णṇacomo em inglês, done (prāṇa).

4) Dantyaḥ, as dentais

devanāgarīIASTpronúncia
तtacom a língua na raiz dos dentes, como em terra (Tantra).
थthacom a língua na raiz dos dentes, como em inglês, foot-hook (sthiraṁ).
दdadental, como em dilúvio (daśanāmī).
धdhadental, como em inglês, bloodhorse (dhāraṇā).
नnadental, como em nota (ānanda).

5) Oṣṭhyaḥ, as labiais

devanāgarīIASTpronúncia
पpalabial, como em posto (pūrvaka).
फphalabial aspirada, como em inglês, top-half (phāla).
बbalabial, como em bomba (bandha).
भbhaaspirada, como no inglês, nib-head (bhūta).
मmaem início de palavra ou após vogal tem som bilabial, como em mãe (mantra); entre consoantes, é nasalizada, como em também (saṁskāra).

6) Antasthaḥ, as semivogais

devanāgarīIASTpronúncia
यyaé semivogal: pronuncia-se como o i em viola (Yoga).
रrasempre como se estivesse no meio da palavra, como em vidro (rāja).
लlacomo em iluminar (kuṇḍalinī).
वvaem início de palavra ou após uma vogal, pronuncia-se como em volta (vāsanā); após uma consoante, pronuncia-se como o w de narrow, em inglês (tattva).

7) Ūṣman, as sibilantes

devanāgarīIASTpronúncia
शśatem o som de sh, como em Sheila (Śiva).
षṣatem o som de sh, como em bush (Kṛṣṇa).
सsatem o som de ss, como em passo (āsana).
हhasempre aspirado, como em happy (anāhata).

॥ हरिः ॐ ॥

Websites de estudo

  • Arsha Avinash, de N. Avinashilingam (em inglês).
  • Arshavidyā Gurukulam, de Swāmi Dayānanda (em inglês).
  • Arshavidyā Pītham, de Swāmi Dayānanda (em inglês).
  • Vedānta Vidyārthi Saṅgha, de Swāmi Paramārthānanda (em inglês).

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai, 60 anos atrás. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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