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Yoga é Voltar para Casa. Yogasūtra, I:3

Por Pedro Kupfer 19 de dezembro de 2014 3 minutos de leitura

A volta à casa

तदा द्रष्टुः स्वरूपेऽवस्थानम् ॥ ३ ॥

tadā draṣṭuḥ svarūpe’vasthānam || 3 ||

Pādapāṭha tradução palavra por palavra

tadā: então, somente depois; draṣṭuḥ: possesivo de draṣṭṛ, “aquele que vê”, o Ser, a Consciência Testemunha; svarūpa: em sua própria natureza. Literalmente, “sua própria forma”; avasthānam: estabilidade, estado de consciência.

Então, aquele que vê se estabelece em sua própria natureza. || 3 ||

O sábio Patañjali nos ensina que o natural (svarūpa) do ser humano é o próprio Yoga. A palavra svarūpa, que significa literalmente “sua própria forma”, define a volta para casa, o reconhecimento de si mesmo como alguém livre de limitações.

É importante lembrar que Yoga não é um estado de consciência nem uma experiência ou o fruto de uma experiência, mas uma atitude, uma forma de estar, de viver.

Nesse reconhecimento, o yogin repousa em sua própria natureza. A realização advém quando o yogin deixa de se deixar arrastar pelos vṛttis, movimentos da psiquê.

Uma vez que a pessoa se vê livre dessas flutuações e o apego aos frutos delas, essa identificação. Esse é o objetivo do Yoga, chamado kaivalya ou libertação, por Patañjali. Como já vimos, essa palavra é a que dá título ao quarto e ultimo capítulo do Yogasūtra.

Neste sūtra, ao mesmo tempo em que o sábio nos explica o que acontece em nirodha, a cessação da identificação com os pensamentos, também define e limita o propósito do Yoga.

Esse propósito, segundo Patañjali, é assumir o que somos ou, usando suas palavras, nos estabelecer “na nossa própria natureza”. Noutras palavras, voltarmos para casa. Lembrarmos quem somos. Assumir a nossa própria natureza, que é de paz e plenitude ilimitadas.

A palavra draṣṭṛ, que significa literalmente “aquele que vê”, aponta para o Ser, que será chamado Ātma e Puruṣa nos sūtras subsequentes.

Para compreender quem é, o yogin precisa deixar de lado a identificação com os conteúdos mentais, os pares de opostos como atração e aversão, e os julgamentos limitadores.

Vigília distraída ou vigília lúcida?

Passar da ignorância existencial (avidyā) para aquilo que é o “natural” (svarūpa) é o primeiro passo. Adquirir a capacidade de permanecer na própria natureza, o segundo. Isso significa passar da vigília distraída (vyutāna citta) para a vigília lúcida (nirodha citta).

Como exercício preliminar, para compreender como viver essa vigília lúcida, o praticante explora nas práticas os diferentes graus de meditação e samādhi. Kaivalya significa literalmente “isolamento”.

No entanto, esse termo não se refere a ficar de costas para as realidades da vida, nem a fugir dos próprios problemas. A palavra isolamento não aponta para uma experiência nem para um estado de consciência, mas para a capacidade de separar-se dos próprios medos, crenças, condicionamentos.

Esse é o terceiro e último passo, no qual a identificação com os vṛttis simplesmente desaparece, ao invés de ficar temporariamente suspensos (nirodha), como nos estágios anteriores.

Esse estágio final da prática é abordado no último capítulo desta obra chamado justamente de Kaivalyapāda ou “Caminho da Libertação”.

casa

+ sūtras de Patañjali aqui
Veja aqui um interessante
manuscrito do Yogasūtra em árabe

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro Kupfer

Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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6 respostas

  1. Querido, o que quer dizer: ॥ हरिः ॐ ॥ ao final do texto, por favor?!

    1. ॥ हरिः ॐ ॥ é Hariḥ Oṁ, a saudação dos yogis.

      Significa “[O Conhecimento do] Ser (Oṁ) remove (Hariḥ) [o sofrimento]”.

      Tudo de bom!

  2. Yoga Energia comtagiante Wagner xavier

  3. Vivenciando yoga Wagner xavier

  4. Sou muito feliz por praticar. Faz parte da minha vida!

  5. sandra azambuja

    Gostei muito da explicação. Obrigada Pedro.

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