Este texto complementa o artigo Yoga em academias: Impressões de um Outsider, escrito pelo Pedro, e tem o propósito de ampliar a reflexão sobre o tema.
Para tanto, coloco aqui a minha experiência de trabalho como professor de Yoga em algumas academias de São Paulo e as observações que consigo fazer desde esta posição de professor de Yoga em academias.
As academias ajudam à popularidade do Yoga
Acredito que, se o Yoga tem hoje esta força que está mostrando, é graças, em grande parte, à sua divulgação em massa nas academias urbanas. Quando uma academia opta por aulas de Yoga, geralmente ela quer aulas de Yoga de verdade, ou seja, um diferencial perante tudo aquilo que ela já oferece.
Nas academias existe uma variedade muito grande de opções e aulas para atender a todos os gostos e objetivos. Para citar alguns exemplos: fit flex, body balance, pilates, ballness, alongamento postural e mais todos os tipos de ginástica habitualmente disponíveis na atualidade.

Deste vasto leque de opções, algumas modalidades alongam o corpo muito mais que o Yoga, queimam muito mais calorias e fortalecem o físico muito mais que as práticas yogikas mais fortes.
Aliás, qual seria o problema de sair de uma aula de spinning e fazer uma prática de Yoga na seqüência? Qual seria a diferença entre o praticante de Yoga em academias e que enfrenta um trânsito caótico para ir à aula de Yoga?
Por isso as academias querem algo diferente de tudo isso. Talvez as academias ou empresas do mercado fitness pudessem até criar uma modalidade parecida com o Yoga e chamar de outro nome (algo parecido é o bodybalance, “uma mistura de yoga, pilates e tai chi” (sic) da empresa Lesmils).
Só para termos uma idéia, hoje as academias investem tanto no Yoga que não é raro encontrarmos salas inteiras montadas especialmente para aulas de Yoga (veja a esse respeito, por exemplo, a matéria publicada na Prāṇa Yoga Journal, edição 19, de agosto de 2008).
Outro sinal da importância que as academias dão atualmente ao Yoga: uma grande academia de São Paulo patrocinou o evento Yoga pela Paz. Nenhum estúdio de Yoga se propôs a investir tanto dinheiro (evidentemente, a academia como empresa, espera lucrar com este patrocínio).
Quanto à relação das academias com os professores, esta é de total liberdade para o professor exercer seu papel. Não sei de nenhuma estória onde o coordenador tivesse dito para o professor de Yoga não cantar mantras, como já aconteceu numa grande escola de Yoga focada no comércio, numa das maiores cidades do nosso país.
Tampouco ouvi falar de nenhum caso em que o coordenador da academia pedisse para que o professor de Yoga dar mais intensidade no trabalho isométrico, ou no treinamento cardiovascular, ou coisas do tipo que sempre acontecem com as modalidades da ginástica na academia.
Ou seja, desde a minha experiência, nunca vi interferência negativa por parte dos coordenadores ou administradores das academias sobre os professores de Yoga.
Observei, ainda, que acontece uma coisa bastante curiosa com o professor de Yoga que ensina em academias, e que não sei como explicar: quando digo que já trabalhei em um hospital ou em uma escola para crianças, todo mundo diz que é uma iniciativa bem legal e recebo elogios por isso.
Quanto aos colegas que trabalham com Yoga na FEBEM ou em presídios, estes também são muito aclamados. Mas quando o assunto é academia, por que tanta polêmica? Por acaso as pessoas que freqüentam um hospital estão mais preparadas para o Yoga do que aquelas que freqüentam academias?
O interesse dos enfermos é a cura ou melhora da saúde e não moksha, como bem sabemos, assim como os freqüentadores da academia podem ter outros interesses que não estejam vinculados com a libertação dos condicionamentos. Seria uma penitenciária um ambiente mais justo, com mais prosperidade ou paz que uma academia?
Só para lembrar o amigo leitor, “um país onde reine a justiça”, tranquilo, próspero e pacífico, é a forma em que se descreve o lugar ideal para prática, segundo o texto medieval Haṭhayoga Pradīpikā.
Haveria mais silêncio e tranqüilidade em uma academia do que uma escola de crianças? Em quanto ao tema silêncio, em São Paulo e as outras grandes cidades, ausência de ruídos é algo bem difícil de se achar.
Sempre ensino aos meus alunos que a iluminação ou os estados superiores de consciência não dependem de nada externo, e sim dos próprios recursos internos do praticante: reflexão, conhecimento e prática.
Não é uma imagem de Ganesha, ou um determinado incenso ou tapete que vai trazer a iluminação para o praticante, mas o “desapego e a prática constante”, como bem ensina o Yogasūtra, I:12.
A cidade grande não vai parar ou fazer silêncio para que nós possamos meditar tranqüilos. Então, se o que importa é o desapego e a prática constante, tanto faz se estamos dentro de um presídio, uma academia ou um estúdio de Yoga.
Aliás, nenhum desses lugares se parecem em nada com a descrição do lugar ideal para praticar (matha), segundo a descrição que encontramos na Haṭhayoga Pradīpikā (I:12-14), não é mesmo?
Namaste.
Rui é praticante e professor de Yoga. Ensina em São Paulo, onde também conduz pesquisas na UNIFESP, envolvendo as práticas do Yoga e seus efeitos sobre o corpomente.
॥ हरिः ॐ ॥
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॥ हरिः ॐ ॥
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