“Se você é o que você faz, quando você não faz, você não é”.
William Byron
Você vive com a sensação de estar fazendo demasiado? Você tem a impressão de que seu dia não é suficientemente longo para realizar todas as tarefas que precisa? Você fica constantemente cansado, como se estivesse carregando um fardo pesado demais para suas próprias forças? Você acha que a vida poderia ser mais gratificante e significativa?
Se você respondeu positivamente a algumas das perguntas acima, provavelmente está precisando dar uma parada.
Na era da velocidade, parar é essencial
No tempo em que vivemos, tudo acontece rápido demais. Não temos tempo para pensar em nada, a vida simplesmente nos engole com suas pressões sociais, laborais e familiares. Ou nos adaptamos, ou enlouquecemos. Adaptar-se, neste caso, significa aprendermos a parar.
Lembre dos primeiros anos de sua vida: provavelmente, seus pais não tinham computador em casa e você brincava mais na rua do que seus filhos hoje. Em termos de velocidade e violência, as brincadeiras de seus filhos na frente do videogame não se comparam às suas.
As crianças que nós fomos parecem simplórias demais se comparadas com as crianças de hoje.
Aliás, as crianças de hoje nem sequer chamam-se crianças. Chamam-se “pré-teens”.
Quando você era criança, em outono, o próximo natal estava tão longe que você nem conseguia imaginar uma extensão de tempo tão grande. Quando faltava uma semana, ansioso pelos presentes, você perguntava para sua mãe: “mas o natal não vai chegar nunca?”
Porém, o tempo passou, você foi crescendo e, sem perceber quase, entrou na montanha russa que sua vida é hoje. O ritmo cotidiano foi acelerando conforme você cresceu e hoje, provavelmente, está bem mais rápido do que você gostaria. A escritora Emily Dickinson disse uma vez que “viver é algo tão espantoso que sobra pouco tempo para qualquer outra coisa”.
Essa montanha russa chama-se saṁsāra em sânscrito. Saṁsāra significa literalmente “fluir” ou “andar em círculos”. O saṁsāra é esse fluxo constante de eventos, impossível de ser detido, no qual não encontramos nem paz nem segurança.
O saṁsāra é a terra do sofrimento. Se você não tinha parado para pensar nisso antes, seja bem-vindo ao saṁsāra agora e segure-se, pois a montanha russa está entrando em mais uma queda livre daqui a pouco.
Como parar?
Embora tenhamos aprendido muitas coisas na escola, nunca nos ensinaram a parar. Parar é uma maneira de refletir e assimilar tudo o que aprendemos, ficando mais receptivos para podermos avaliar de maneira mais positiva e justa qualquer empreendimento que nos propusermos. Para o yogin, parar é o que vem antes do mokṣa, a liberdade luminosa que nos permite viver o saṁsāra como um jogo aprazível e não como uma montanha russa medonha.
Parar é um gesto de respeito e amor por nós mesmos. Ao mesmo tempo, é um ato de generosidade em relação àqueles com quem convivemos. Se nossa alma ficar mais harmoniosa, essa harmonia irá refletir-se à nossa volta.
Cultivar o ato de parar conscientemente equivale a viver a vida como uma jornada, uma aventura de descobertas. Mas, se não soubermos parar conscientemente, nosso corpo irá parar sozinho, através de uma doença ou um acidente.
Parar é essencial se quisermos manter a felicidade e a sanidade nos dias de hoje. Todo o mundo está procurando a felicidade; alguns, procuram até a imortalidade; mas quase ninguém sabe o que fazer num sábado chuvoso. Assim, a arte de viver fica sepultada sob as pressões que a sociedade impõe ao indivíduo. Nas palavras de H. D. Thoreau:
“A vida não se mede pelo número de anos que passamos na Terra, mas pelo que usufruímos nela”.
H. D. Thoreau
Parar tem a ver igualmente com nossos valores mais íntimos. Se não soubermos parar, seremos vítimas fáceis do consumismo. Se não soubermos parar, acabaremos achando que vestir aquela griffe é tudo o que precisamos para ser felizes ou que usar aquele cartão de crédito pode resolver nossos problemas emocionais.
Três formas de parar
O Dr. David Kundtz, em seu livro “A Essencial Arte de Parar” (1999, Ed. Sextante, Rio de Janeiro), nos dá algumas valiosas dicas para parar. Ele afirma que há três maneiras de parar que podem ser aplicadas ao longo da vida:
1. Pausas breves
Têm uma duração que vai desde algumas respirações até algumas horas, e devem ser aplicadas diariamente, antes de tomar decisões importantes, por exemplo. Se você quiser, antes de continuar esta leitura, faça algumas respirações conscientes com os olhos fechados e observe-se agora.
2. Escalas de viagem
São períodos de tempo que você reserva para não fazer nada. Podem durar desde algumas horas até algumas semanas. Ajudam a refrescar a mente e recuperar a objetividade. Fins de semana ou férias sem nenhuma tarefa definida são exemplos de escalas de viagem, onde você pode recarregar suas baterias e reencontrar seu equilíbrio interior.
3. Paradas gerais
São momentos cruciais na vida, momentos em que é desejável afastar-se de tudo e de todos para encontrar o rumo que nossa vida possa tomar no futuro. As paradas gerais podem durar de alguns meses a um ano, e fazer-se em forma de viagens ou retiros.
Parar não é fazer Yoga, necessariamente
Para o yogin, parar não significa necessariamente praticar Yoga ou meditar. Parar é diferente de meditar e, embora envolva a mente yogika aplicada, pode ter mais a ver com dedicar alguns momentos à arte, à leitura, a atividades físicas como pedalar ou caminhar ou a simplesmente estar perto da natureza.
Sugestões
Pessoalmente, descobri há algumas décadas que minhas paradas, sejam do tipo que forem, passam por estreitar os vínculos com a natureza e, especialmente, com o mar. Assim, para fazer minhas pausas breves, procuro reservar um momento do dia para remar ou surfar, mesmo se as condições de vento ou ondulação não forem ideais.
Minhas escalas de viagem quase sempre acontecem na forma de viagens ao mar com a minha amada, alguns amigos, um tapete de prática e um instrumento para tocar. Da mesma forma, já fiz uma parada geral em que fiquei viajando por seis meses, com longas práticas na Índia, na Tailândia e na Indonésia.
Hoje em dia, minha esposa e eu não queremos nem sair mais do lugar que escolhemos: trabalhamos a terra, ficamos atentos aos ciclos da natureza, às estações e chuvas e às fases da lua. Nossa maneira de parar é ir para o campo e trabalhar, seja podando as árvores do pomar, seja plantando na horta, seja regando as plantas. Isso funciona muito bem, sabia?
Um dos efeitos colaterais desse hábito é que nós compartilhamos com os amigos e comemos o que plantamos, o que é uma sensação indescritível, não apenas de conexão com a terra, mas de agradecimento pelas coisas que ela nos dá.
Concluindo, parar tem a ver com respirar conscientemente, tem a ver com desfrutar o presente, tem a ver simplesmente com o ato de ser. Apenas ser. Parar é essencial para mantermos o bom senso vital. E, por falar nisso, caso você não tenha dado a sua parada hoje, convido você para fazer isso agora…
॥ हरिः ॐ ॥
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॥ हरिः ॐ ॥
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