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Por Que Dormimos Mal? A Epidemia Silenciosa da Privação de Sono

Oito efeitos da privação de sono, segundo a ciência: cérebro, memória, coração, imunidade e mais. Primeiro texto da série Durma Bem, de Pedro Kupfer.

· 5 minutos de leitura >
Miniatura da Jogapradīpikā (c. 1830): yogi deitado em postura do peixe

Antes de começar, cabe a pergunta: donde vem a informação que veremos aqui? Pesquisas realizadas ao longo dos últimos 20 anos revelam dimensões incríveis do sono e a sua importância, não apenas para manter a boa saúde e a longevidade do corpo, mas igualmente para manter a sanidade e a higiene mental e emocional.

As afirmações científicas relacionadas com o sono (ou a ausência dele) que você vai encontrar nesta série de textos estão baseadas em duas obras de publicação recente:

  • o livro Why We Sleep, ou “Por que dormimos”, do Dr. Matthew Walker, professor de Neurociências na Universidade da Califórnia (Berkeley), e
  • o livro Improving Sleep, “Melhorando o sono”, editado pelo Dr. Lawrence Epstein e publicado pela Harvard Medical School.

O problema

Existem campanhas de saúde pública em todos os países em relação aos riscos de dirigir sob os efeitos do álcool, campanhas sobre a prevenção do câncer de mama, campanhas para combater surtos de doenças e muitos outros problemas.

No entanto, a epidemia de privação de sono é gravíssima, pessoas morrem aos milhares a cada mês, mas não se fala sobre isso.

Menos ainda, fala-se sobre o elevado preço que a sociedade como um todo, e cada pessoa individualmente, paga por dormir mal.

Quero que você se assuste agora e que fique bastante preocupado com o que vou dizer aqui, pois isto é de fato preocupante.

Vou abordar aqui, brevemente, oito pontos diferentes, que estão relacionados com a falta de relaxamento e a falta da higiene do sono.

Confesso que tive que fazer um resumo bastante radical para chegar a apenas oito pontos, mas precisei fazer isso senão este texto ficaria enorme.

1. Populações insones

Perto de 2/3 dos adultos nos países industrializados não dorme o quanto precisa. Isso significa que aqui em Portugal, dos 10,5 milhões de cidadãos que somos, alguns milhões não dormem bem. É muita gente. Pense nisso.

Algo entre sete e nove horas de sono seria o ideal para a imensa maioria dos seres humanos. No entanto, há uma pequena percentagem da população que, por uma espécie de bênção genética, consegue dormir apenas cinco horas por dia e está muito bem com isso.

Essa bênção é uma mutação no gene DEC2, que afeta o ritmo circadiano. As pessoas que carregam essa mutação genética são uma minoria insignificante da população mundial.

Circadiano vem do latim: circa, círculo, e diano, diário. Portanto, o ritmo circadiano é o círculo diário de sono e vigília.

2. Sono, saúde cerebral e Alzheimer

Durante o sono profundo, o cérebro trabalha para se livrar das proteínas tóxicas beta-amilóide, que se acumulam ao longo da jornada e que propiciam o mal de Alzheimer.

Para que esse processo de purificação tenha lugar, é necessário tempo. Tempo dormindo profundamente, entenda-se bem.

É por isso que não é recomendável dormir 4 ou 5 horas diárias, como as pessoas ditas “produtivas” gostam de afirmar. Margaret Thatcher, a falecida ex-Primeira Ministra do Reino Unido, dizia sleep is for wimps: “o sono é para os fracos”.

Tanto ela quanto Ronald Reagan vociferavam sobre o quão pouco dormiam. Ambos morreram com o mal de Alzheimer. Numa palavra, tragicamente, ambos morreram dementes.

3. O mito de dormir pouco para estudar muito

A crença, tão disseminada, que diz que os estudantes devem passar as noites em claro, bebendo café e estudando sem parar para ir bem no vestibular é outra das grandes mentiras da nossa sociedade. Todo ser humano fixa melhor o que aprende se dormir depois de ter estudado.

A realidade: a pessoa é mais produtiva quando dorme bem. Quando dorme mal, pode trabalhar muito e passar mais tempo no ambiente de trabalho, mas isso não significa que produza o que deseja ou poderia. O sono ajuda na memorização e no aprendizado.

4. Micro sono

Micro sono é quando você, tendo dormido mal, apaga involuntariamente por alguns segundos ao longo do dia. Essa é a maior causa de acidentes mortais nas ruas e estradas.

O micro sono mata mais do que o abuso de álcool ou drogas ao volante nos EUA. Uma pessoa morre por hora em acidentes de trânsito nos EUA devido a falta de sono. Uma pessoa por hora.

Vou falar de novo, e pense bem nisso: acidentes de carro devidos à falta de sono matam mais do que acidentes devidos a consumo de álcool e drogas juntos e combinados. Dirigir com sono mata: uma pesquisa de 2014 da Traffic Safety Foundation descobriu que 37% dos motoristas já dormiram ao volante em alguma altura das suas vidas.

Eu mesmo já vivi essa situação: acordei sem saber onde estava, andando de ré a 80 km/h no meio de uma autoestrada aqui em Portugal. Aproximadamente 21% dos acidentes fatais envolvem um motorista que dormiu ao volante. Estamos literalmente nos matando por falta de sono. É assim de simples.

5. O problema da sedação

Sedação não é sono. Tomar sedativos para dormir não equivale a dormir naturalmente. Não estamos propondo aqui que você deva tomar tranquilizantes para dormir mais. Longe disso. “Prescrever sono” não é prescrever pílulas para dormir.

Pelo contrário: o sono profundo e reparador não tem nenhum dos inúmeros efeitos colaterais indesejáveis dos tranquilizantes. Aprender a dormir sem tomar remédios pede às vezes uma reavaliação total do nosso estilo de vida, bem como coragem para mudar.

6. Sistema cardiovascular

O sistema cardiovascular também é afetado pela falta de sono adequado, pois é durante o sono profundo que a pulsação cardíaca diminui e a tensão arterial baixa. Isso, por sua vez, ajuda o organismo a recuperar-se de cada jornada vivida e preparar-se para a seguinte. Quando você não permite que esse reboot do sistema cardiovascular aconteça, a tensão arterial aumenta e, junto com ela, aumenta em 200% o risco de morte por enfarte ou AVC.

7. Sistema Imunológico e Câncer

Quando se reduz a jornada de sono para quatro ou cinco horas, é igualmente reduzida em 70% a atividade das células anticancerígenas, chamadas NK (natural killers, ou “assassinos naturais” das células cancerosas).

Portanto, concluiu-se que o hábito de dormir pouco está ligado ao aumento no risco de sofrer vários tipos de câncer, desde o de intestino ao de próstata ou de mama. Por exemplo, hoje, você e eu produzimos células cancerosas nos nossos organismos.

Se não descansarmos o suficiente esta noite, comprometeremos a eficiência do nosso sistema imunológico que luta contra essas células cancerosas diariamente.

Resumindo, demência, câncer, doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade são doenças diretamente vinculadas à falta de sono.

O oitavo e último item da nossa lista sobre a má qualidade do sono está vinculado com a saúde mental, e vai um pouco além.

8. Memória

Quando você não dorme, o hipocampo, que é a estrutura do seu cérebro responsável por fixar novas memórias, fica desativado. O dr. Matt Walker compara o hipocampo à caixa de entrada do seu programa de emails.

Na ausência de sono, é como se a caixa de entrada das novas mensagens estivesse fechada. As experiências não são retidas, o que no exemplo do dr. Walker é como se os emails fossem devolvidos ao remetente.

Traduzindo na nossa experiência de vida, isso significa que não conseguimos criar novas memórias. Essa situação é trágica, uma vez que, como diz muito corretamente o ditado, recordar é viver.

Segundo a psicologia do Yoga, há quatro componentes fundamentais da psiquê humana: buddhi, ahaṅkāra, manas e citta, ou inteligência, ego, mente e memória. Se perdemos essa última faculdade, o que sobra de nós?

A memória constrói o que somos. Sem ela, o que faríamos? Tente imaginar o que seria de você se você não lembrasse de nada do que fez, nada do que viveu, nada do que ama.

Resumindo

  • A falta de sono enlouquece, adoenta, reduz a vida e mata.
  • Quanto menos você dorme, menos você vive.
  • Quanto menos você relaxa, menos você é.

Uma boa notícia: a conduta e as atitudes da pessoa mudam para melhor quando ela dorme bem. Ela passa a tomar as suas decisões de maneira relaxada e isso se traduz numa maior empatia e compaixão.

O sono profundo também nos ajuda a tomar decisões, bem como a recalibrar os circuitos cerebrais vinculados com as emoções. Isso nos permite viver o que temos para viver no dia seguinte com a mente calma e o coração em paz.

Continue a leitura com o próximo texto da série: Os Três Pilares da Vida Boa: Alimentação, Exercício e Sono

॥ हरिः ॐ ॥

Para ouvir o Pedro falar destas descobertas, veja a masterclass Relaxe e Durma Bem, transmitida ao vivo em 2022 e disponível no canal do YouTube.

Todos os textos da série Durma Bem estão em Respire e Relaxe. Para ir mais fundo, com 26 aulas em vídeo e 28 relaxamentos guiados, conheça o curso online Bem-Estar e Higiene do Sono com Base na Ciência.

॥ हरिः ॐ ॥

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Pedro nasceu no Uruguai em 1966. Conheceu o Yoga na adolescência e pratica desde então. Aprecia o o Yoga mais como uma visão do mundo que inclui um estilo de vida, do que uma simples prática. Escreveu e traduziu 10 livros sobre Yoga, além de editar as revistas Yoga Journal e Cadernos de Yoga e o site yoga.pro.br. Para continuar seu aprendizado, visita à Índia regularmente há mais de três décadas.
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